29 de junho de 2026
ARTIGO

O excesso que nos empobrece

Por Alex Madureira |
| Tempo de leitura: 3 min

Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos tanto acesso à informação, ao conhecimento e à comunicação. Com poucos toques na tela do celular, podemos conversar com alguém do outro lado do mundo, acompanhar notícias em tempo real, aprender uma nova habilidade ou encontrar respostas para praticamente qualquer pergunta.

A tecnologia transformou a sociedade e trouxe avanços que merecem ser reconhecidos. Ela faz parte do nosso trabalho, dos estudos, dos negócios e até dos serviços públicos. Não se trata de rejeitar o mundo digital. Pelo contrário. Manter-se conectado, informado e atualizado é uma necessidade dos nossos tempos.

Mas, em meio a tantos benefícios, talvez seja importante fazermos uma pergunta simples: o que estamos perdendo quando deixamos de exercitar a atenção, a reflexão e a curiosidade?

A velocidade com que consumimos informações hoje é absurda. Rolamos telas, assistimos a vídeos curtos, lemos manchetes e passamos rapidamente para o próximo assunto. Muitas vezes, recebemos mais conteúdo em um único dia do que pessoas de gerações anteriores recebiam em semanas.

O problema não é a quantidade de informação disponível. O problema surge quando deixamos de reservar tempo para compreendê-la.

O fato é que atenção se tornou um bem precioso. A psicóloga Gloria Mark, da Universidade da Califórnia em Irvine, que há mais de duas décadas pesquisa o impacto da tecnologia sobre o comportamento humano, observa que estamos cada vez mais expostos a interrupções e estímulos que fragmentam nossa concentração. Em um ambiente onde tudo disputa nossa atenção, ler um livro, acompanhar uma reportagem mais aprofundada, escrever algumas linhas em um caderno ou simplesmente refletir sobre uma ideia passaram a exigir um esforço cada vez maior. E isso tem consequências que vão muito além do desempenho escolar ou profissional.

Uma sociedade que perde o hábito da reflexão corre o risco de trocar o pensamento pela reação imediata. Passamos a opinar sobre tudo, mas compreendemos menos. Consumimos mais conteúdo, mas absorvemos menos conhecimento. Estamos conectados o tempo todo, mas nem sempre conseguimos estabelecer conexões verdadeiras com as ideias, com as pessoas e até com nós mesmos.

Por isso, talvez a discussão não deva ser sobre escolher entre livros ou telas. Essa é uma falsa escolha. O desafio está em utilizar a tecnologia como ferramenta, e não permitir que ela determine todos os nossos hábitos.

Nesse contexto, atividades simples continuam tendo um valor extraordinário. A leitura amplia horizontes. A escrita organiza pensamentos. A conversa presencial fortalece relações. E a prática esportiva, muitas vezes lembrada apenas pelos benefícios físicos, também contribui para a saúde mental, para a concentração, para a disciplina e para a capacidade de lidar com desafios.

Um corpo ativo ajuda a manter uma mente ativa. Da mesma forma que exercitamos os músculos, também precisamos exercitar a capacidade de pensar, interpretar e aprender.

Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja encontrar mais informação. Ela já está em toda parte. O desafio é desenvolver a capacidade de prestar atenção ao que realmente importa.

Porque uma sociedade de respeito não é aquela que vive de consumir conteúdos aleatórios. É aquela que forma cidadãos capazes de refletir, questionar, criar e construir soluções para o futuro.

E esse futuro começa em hábitos que parecem simples, mas que continuam sendo essenciais: ler um pouco mais, escrever um pouco mais, movimentar o corpo, fazer perguntas e manter viva a curiosidade.