26 de junho de 2026
MEMÓRIA

‘Piracicaba’, novela de 25 capítulos, foi publicada no JP em 1955

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 9 min
Divulgação
Primeira edição da obra, editada pelo JP

A primeira publicação da novela “Piracicaba”, de autoria de David Antunes, foi feita em 25 partes ou capítulos, no Jornal de Piracicaba, de 19 de fevereiro a 22 de abril de 1955. Era publicada um dia sim, um dia não. Ou seja, foi uma publicação em estilo folhetim, como era comum durante o século 19 até o início do século 20.

De acordo Fábio San Juan, 51, artista, professor e historiador cultural, que fez um vasto trabalho de pesquisa sobre a obra, publicar a obra em formato de folhetim talvez tenha sido motivada “pelo fato da época retratada no livro, 1887 a 1904, ter essa forma de publicação de romances e novelas como costume, como forma de testar a popularidade de uma história, para depois justificar o investimento de publicá-lo em livro”, diz.

“Pois em 1955, essa forma já tinha caído em desuso fazia um bom tempo. Como as novelas – gênero de narrativa médio, situado entre o conto (mais curto) e o romance (mais longo) – eram publicadas de forma seriada, em capítulos, por isso as narrativas seriadas na TV tomaram este nome, hoje sendo sinônimo de telenovela”, completa o historiador cultural.

A publicação no jornal não dispunha de ilustrações, e foi publicada sempre no pé da página, tomando mais ou menos um quarto do tamanho da página do jornal.

Em 1956, a obra foi publicada em livro pelo JP. A edição foi feita em uma modesta brochura, de tamanho pequeno, aproximadamente 18 cm x 13 cm. Não tinha a divisão em partes que foi adotada no jornal, e continuava ilustrações, nem mesmo na capa.

Ainda de acordo com San Juan, o único conteúdo adicional ao próprio texto da história é uma apresentação da obra, escrita provavelmente por Fortunato Losso Netto ou Eugênio Losso, diretores-proprietários do JP à época. Esta foi a primeira edição em livro.

“Não é certo que o dr. Losso Netto tenha escrito o prefácio, ou apresentação, da novela em sua primeira edição, publicada pelo JP, pois o texto não contém assinatura. Mas é mais provável que tenha sido ele, já que dentre os proprietários do JP (o outro era o seu irmão, Eugenio Losso), era quem diretamente incentivava e promovia artistas e escritores, e que escrevia textos no próprio jornal sobre arte, literatura, música, e outros temas culturais. O convite a Antunes para publicar sua “novela de bons costumes” no JP, quase certamente, deve ter partido do dr. Losso, assim como a iniciativa da publicação em livro”, declara San Juan.

“É inegável que a promoção da publicação no formato livro, na qual Losso Netto e Eugênio Losso investiram, por meio do JP, foi um enorme aval à obra, mostrando que ela tinha repercutido a ponto de gerar procura por sua versão em livro”, emenda o historiador cultural.

Em 1959, o Departamento Municipal de Cultura de Piracicaba, da Prefeitura Municipal, publicou a segunda edição da obra no formato livro. Desta vez, com um prefácio do autor (curiosamente chamado de “Em vez de prefácio”) explicando sobre sua pesquisa da Piracicaba antiga, e o mais importante, o auxílio de sua esposa Titinha, na pesquisa não só da história, mas do folclore, das expressões faladas e de tipos da cidade, das épocas retratadas.

A capa desta segunda edição conta com uma ilustração em preto e branco de Angelino Stella, retratando possivelmente uma das protagonistas da história, Eliana, sentada fazendo um bordado, em primeiro plano, e ao fundo, o rio Piracicaba visto da avenida Beira, com a Casa do Povoador e a curva do rio bem ao fundo. O autor também revisou e reescreveu alguns pequenos trechos da obra para esta edição.

A obra, ao longo dos anos, foi citada por vários autores piracicabanos ou que escreveram sobre Piracicaba, como Cecílio Elias Netto e Samuel Pfromm Netto, noticiando que a novela foi publicada e tinha como tema a cidade. Desde 1959, porém, não foi republicada e somente poucas pessoas têm conhecimento dela, hoje.

O ENREDO
É uma história ficcional, mas que se passa na cidade de Piracicaba. A cidade é um cenário que o autor tenta reconstituir com vários detalhes, falando sobre locais e ruas, especialmente do Centro da cidade. Curiosamente, a única menção importante à rua do Porto e ao rio se dá no desfecho da história, na última página.

O dia-a-dia da família Cardoso é apresentado pelo autor com o pano de fundo da história do Brasil e das suas repercussões em Piracicaba. Arthur é apresentado como descendente de Felipe Cardoso, primeiro proprietário de terras em Piracicaba, no início do século XVIII. Seu casamento com Marta é o início da narrativa. A filha do casal, Eliana, é a protagonista da terceira parte da novela, e é quem move a ação nesta parte. É apresentada também uma galeria de personagens pitorescos, que pretendem mostrar como era o ambiente social da Piracicaba do fim do século XIX.

A descrição da cidade nos anos que antecedem a queda do Império e a Abolição da escravatura, assim como no começo do século XX, é encantadora e junta-se à análise psicológica dos tipos humanos da época. Um dos personagens mais interessantes é o Lucianinho, um jovem contador de piadas, que salpica de humor várias passagens do livro.

As festas populares, como a “congada dos pretos” e o carnaval, além de expressões do dialeto piracicabano próprias do período, juntam-se à exposição das ideias políticas e como o povo reagia e as adotava. A disputa entre monarquistas, “tradicionalistas”, e republicanos, “progressistas”, tem lugar em batalhas de retórica, num paralelo muito vivaz com a polarização política da atualidade brasileira. O autor é muito hábil em expor essas lutas políticas na forma de discussões de vizinhos, considerados inconvenientes e intolerantes, outras vezes, descrevendo mudanças de opiniões.

Também uma das tramas paralelas, que acompanha o drama de uma mãe negra, ex-escrava da família protagonista, mostra a situação dos escravos recém-libertos, gerada pela Abolição, despreparados em assumir uma posição nova na sociedade brasileira, praticamente abandonados por muitos de seus antigos donos (o que não é o caso da família Cardoso), já que não receberam absolutamente nada para prosseguirem na vida, a não ser a liberdade.

OUTROS TRECHOS DA ENTREVISTA COM FÁRIO SAN JUAN SOBRE A OBRA:

Qual foi a tiragem e o número de páginas?
Ainda não tive acesso a qualquer documentação que mostre a tiragem de qualquer uma das duas edições do livro. A única indicação que dá uma ideia de uma tiragem é o prefácio da primeira edição, que nos informa já em sua primeira frase, que foi “composta de limitado número de exemplares”. Supomos que mesmo a segunda edição não teve muitos exemplares impressos, pois, ao contrário de outras obras do autor, “Piracicaba” teve quase nenhuma repercussão fora da cidade.
O livro possui 133 páginas em sua segunda edição. Uma definição de “novela” a situa como um gênero entre o conto, uma história curta, e o romance, uma história longa, geralmente com muitos personagens e com mais possibilidade de desenvolvimento. O próprio autor, na primeira edição, coloca em seu trabalho o subtítulo de “novela de bons costumes”. Além de definir o gênero da narrativa, faz uma brincadeira com o seu próprio livro “Briguela”, publicado em 1945, que tinha o subtítulo de “romance de maus costumes”.

Onde está e o público tem acesso?
Quem deseja ler a obra hoje enfrenta dificuldades, já que o livro se tornou uma raridade. A primeira edição da obra, feita pelo JP, está disponível para empréstimo na Biblioteca Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda”. A segunda edição, eventualmente, pode ser encontrada à venda em sebos virtuais ou físicos, ou em coleções particulares.

Qual a importância histórica para a cidade da obra?
David Antunes não tinha como objetivo fazer uma obra de História, e sim, uma obra literária. Queria contar uma história que tivesse a Piracicaba do final do século XIX como cenário, e aí, situar os personagens que, em sua imensa maioria, são criações suas, não são pessoas que existiram de fato. Mas a obra conta com uma bela ambientação, porque o trabalho de pesquisa feito pelo autor e sua esposa, piracicabana de nascimento, foi muito bem feito, a ponto de colocar na boca dos personagens expressões que eram faladas no final do século XIX, como “a dívida está no pé do defunto”, querendo dizer que a dívida que o falecido não tinha mais esperanças de ser recebida pelo credor; ou “esticar as gâmbias”, que significava “passear a pé”. Também há menção a fatos importantes do período, como o assassinato do pintor Almeida Júnior em frente ao Hotel Central, ao lado da Igreja Matriz. Mas dois fatos históricos interferem com os personagens, mais do que com a trama, pois não há um enredo propriamente dito – que são a Abolição e a Proclamação da República. O pai da família Cardoso, Arthur, apoia a monarquia e o imperador D. Pedro II. Não é dito explicitamente na obra, mas dá-se a entender que a mudança de cidade da família acontece por causa da Proclamação da República, por conta do ambiente piracicabano, que pendeu mais para o lado republicano. O curioso é que Titinha, esposa de Antunes, era sobrinha de Prudente de Moraes, evidentemente, um defensor dos ideais republicanos, assim como toda a família. Tal fato não impediu que, condizente com a fidelidade histórica, Antunes tenha feito de seu protagonista um monarquista, e como parece ter acontecido em Piracicaba, mostrado que os conflitos entre monarquistas e republicanos não passaram de algumas discussões verbais mais acaloradas, como é mostrado na novela. Enfim, a obra é importante por fazer uma reconstituição não só da geografia urbana de Piracicaba no final do século XIX, mas principalmente por reconstituir um ambiente humano, de como as pessoas trabalhavam, conversavam e se divertiam, além da sua relação com a religião – que é importante para a terceira parte da novela -

Qual o objetivo do seu trabalho de pesquisa sobre a publicação?
Cheguei ao livro a partir das pesquisas que fiz em torno do tema “modernismo em Piracicaba”, para escrever o livro “Modernidade Caipira: o Modernismo de 1922 em Piracicaba”, publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba - IHGP. Ao estudar alguns membros do “Grupo de Piracicabanos do Estadão”, das décadas de 1920 a 1950, deparei-me com David Antunes, e a referência ao seu nome, que tinha escrito uma novela que tinha Piracicaba como ambiente. Fui procurar o livro, encontrei um exemplar da segunda edição para compra, acabei me encantando muito com a obra, que tem valor tanto literário quanto histórico. E fui pesquisar mais sobre o livro e seu autor, que tem uma história fascinante, um autor paulista que casou-se com uma piracicabana, Titinha, sobrinha de Prudente de Moraes, que também se encantou com a nossa cidade e nossa cultura.