O diretor cinematográfico e roteirista Lauro Jerônimo Annichino Pinotti, 62 anos, tem uma longa trajetória na produção de filmes, não somente em Piracicaba, mas em toda a região e em nível nacional também. Profissional premiado, Pinotti é nascido em Capivari, mas construiu boa parte de sua trajetória em Piracicaba, onde atuou também na gestão pública, sempre na área cultural e artística.
Sua paixão, porém, sempre foi a criação cinematográfica. Começou a produzir em 1985 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (a FAUUSP) e não parou mais. Piracicaba sempre foi a base de operações desde as filmagens do curta premiado O Quarteto, em 1989, ao projeto Minha Hollywood é Aqui, de 2010 a 2017, que resultou na produção de 12 longas metragens narrativos, embora as filmagens tenham saído de Piracicaba e do Brasil em alguns filmes.
“Meu foco sempre foi cultural e em cinema como filme-escola, até como estratégia para não me importar com o mercado fechado e ‘entre amigos’ que é o cinema”, declara. “Então, cada filme é sempre aprender e ensinar ao mesmo tempo”, emenda.
Entusiasta de sua obra, o diretor cinematográfico não consegue eleger seu maior trabalho, mas valoriza a todos seus projetos. “Tenho 13 "filhos" favoritos, o curta e os 12 longas, todos muito valiosos e especiais para mim, cada um produzido em seu contexto particular, que podem ser assistidos de graça nos meus canais do YouTube”, afirma.
Com o advento da Inteligência Artificial (IA), Pinotti viu sua arte se ampliar com as possibilidades desta nova ferramenta. Mas faz uma ressalva: “Ela ajuda, sim, mas desde que você saiba o que deseja arrancar dela”, ensina. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista.
Como nasceu seu interesse pelo cinema e quais foram suas principais influências no início da carreira? Comecei a produzir em 1985 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a FAUUSP, quando elaborei, como trabalho de formatura, o meu primeiro projeto de construção do filme vista pelo arquiteto, com influências de Sergei Eisenstein, Win Wenders, Nouvelle Vague francesa e Truffaut/Hitchcock. Desde o início a minha busca é sempre encontrar a minha própria maneira cinematográfica de contar estórias, o que é bem diferente de colocar a câmera parada na frente de um teatro encenado.
Quais os cargos que você já ocupou na área cultural em Piracicaba? Diretor da Pinacoteca Municipal Miguel Dutra (2009/2012 - gestão Barjas/Ro Camolese); Diretor Presidente do Ipplap (2013/2016 - gestão Ferrato); e Presidente e/ou Coordenador da Apap, Codepac, ComCult e ConCidade no mesmo período.
De que forma Piracicaba aparece em sua obra, seja como cenário, inspiração ou tema? Piracicaba sempre foi a base de operações desde as filmagens do curta premiado O Quarteto, em 1989, ao projeto Minha Hollywood é Aqui, de 2010 a 2017, que resultou na produção de 12 longas metragens narrativos, embora as filmagens tenham saído de Piracicaba e do Brasil em alguns filmes. Na verdade, eu não faço cinema regional, caipira ou do interior. Apenas faço cinema. Até mostrei a Festa do Divino no primeiro longa, mas com função mais dramática do que documental. O que gosto de fazer é cinema e psicanálise, explorar a alma humana, refletir sobre o peso da existência e fragmentos de discursos amorosos, indo da Bíblia a Roland Barthes com temas existenciais além de fronteiras e comuns aos seres humanos em vários cantos do mundo.
Quais foram os maiores desafios que você enfrentou para produzir cinema no interior de São Paulo? Meu foco sempre foi cultural e em cinema como filme-escola, até como estratégia para não me importar com o mercado fechado e "entre amigos" que é o cinema. Então, sempre segui tentando explorar e gerar o meu próprio caminho, como "autista consciente", se é que isso existe. Então, cada filme é sempre aprender e ensinar ao mesmo tempo. Mas após produzir, a maior dificuldade é sempre não ter como mostrar a produção, pois o fato de você ter algo a dizer nem sempre encontra gente disposta a escutar.
Como você define seu estilo de direção e quais características considera mais marcantes em seus trabalhos? Meu lema dá nome ao meu livro "A Aventura de Fazer Cinema com Recursos Mínimos", publicado por prêmio Proac/SP-Municípios em 2019, e isso define o meu trabalho de pesquisa e produção. Significa filmar 1x1 e transformar imagens documentais e de internet, bem como não atores, para gerar costuras narrativas competentes e consistentes. Significa linguagem minimalista e mínima utilização de cenas teatrais e encenadas. Significa usar o não verbal ao máximo e o mínimo possível de verbal falado. Significa usar Tarô e Mitologias misturados a apostilas de Psicanálise para chegar ao máximo de drama possível, pois filmes sem drama não tem graça alguma. Então meu cinema é intenso, com a câmera adoecida para mostrar gente adoecida, pois só o cinema permite implantar a câmera na mente do maluco para mostrar ao mundo a ótica adoecida de quem vive uma mente de loucuras. E faço isso de forma técnica e consciente, como pesquisa e exercício de possibilidades narrativas e de linguagem audiovisual.
Entre os filmes e projetos que realizou, qual teve o maior impacto pessoal ou profissional e por quê? Todos eles. Tenho 13 ‘filhos’ favoritos, o curta e os 12 longas, todos muito valiosos e especiais para mim, cada um produzido em seu contexto particular, que podem ser assistidos de graça nos meus canais do YouTube.
Como você avalia a evolução do audiovisual independente brasileiro nos últimos anos? O cinema se popularizou e se democratizou com as mídias digitais e o barateamento dos equipamentos. Quando fiz O Quarteto em película 35 milímetros recebi um prêmio de 15 mil dólares da Embrafilme para produzir 15 minutos de filme, ou seja, o projeto custou mil dólares por minuto. Um custo absurdo, e isso inviabilizava muitas produções. Hoje, pelo contrário, comunidades carentes produzem os seus próprios filmes usando celulares 4k de última geração, o que só pode indicar uma evolução muito grande e valiosa das produções independentes.
Que importância têm os festivais de cinema para a divulgação e valorização de produções regionais? Certamente são importantes, até mesmo fundamentais, pois permitem encontros, trocas, estímulo e desenvolvimento para todos. Tem sido assim há tempos e em todo o mundo. Os festivais são vitrines certamente valiosas e indispensáveis.
Como é o seu processo criativo, desde a concepção da ideia até a finalização de um filme? Meu método pessoal antevê as cenas em detalhes e pré-desenhadas, muito próximo ao método de produção de cinema de animação. Sergei Eisenstein e Alfred Hitchcock trabalhavam assim e percebi que isso fazia sentido para mim. Uso as paredes da sala e muita fita crepe para fazer aquele quadro de papéis colados como nos filmes de investigação policial para conceber e relacionar todos os elementos e não sobrarem pontas soltas. Só depois construo o roteiro, pois para mim fazer cinema é sempre um processo de construção. Isso se reflete na hora de filmar, ficando tudo mais rápido e fácil.
Que conselhos daria aos jovens de Piracicaba que desejam ingressar no cinema e na produção audiovisual? Considero cinema a minha missão, a minha arte pessoal e meu jeito pessoal de tentar filosofar e trocar ideias com o mundo. Se o amor pela arte não for total e pleno, sugiro trabalhar com outra coisa. Goddard disse isso certa vez e eu concordei: ele nasceu cinema, ele era cinema e, por conta disso, o cinema NÃO ERA uma profissão. Era ele mesmo.
Quais são seus projetos atuais e quais histórias ainda gostaria de contar por meio do cinema? A inteligência artificial trouxe novas possibilidades de produção e logo será arte independente e plena de novas possibilidades. Lancei meu canal no YouTube e ali todas as histórias que desejo podem ser contadas. Sempre gosto da próxima ideia e depois da seguinte, e assim vou levando a produção audiovisual como algo permanente. Antes da inteligência artificial era bem mais difícil fazer isso.
De que forma a Inteligência Artificial tem de ajudado nas produções? Quem acha que a inteligência artificial faz tudo sozinha se engana, pois um homem de Neanderthal fará apenas rabiscos se receber uma caríssima caneta Montblanc para usar. A inteligência artificial, de fato, tem que ser dominada e dirigida pelo ser humano preparado para dominá-la, e aí, todo estudo e conhecimento sempre fará a diferença. Ela ajuda, sim, mas desde que você saiba o que deseja arrancar dela.