17 de junho de 2026
ARTIGO

Celular roubado, preconceito reciclado

Por Álvaro Carvalho |
| Tempo de leitura: 3 min

Há frases que não erram apenas na forma. Elas revelam a visão de mundo de quem as pronuncia. Ao comentar a nova etapa do programa Celular Seguro, Lula disse que “rico não compra telefone roubado”, mas que “os pobres compram”, porque “quem é que não gosta de comprar uma coisinha barata?”. A declaração foi dada em 10 de junho, em Brasília, no contexto de uma medida voltada a alertar usuários de aparelhos roubados ou furtados para que devolvam o bem irregular. 
 
O problema é que o presidente, ao tentar falar de segurança pública, escorregou para um preconceito de classe disfarçado de senso comum. Poderia ter dito o básico: quem compra produto roubado ajuda a alimentar o crime. Poderia ter falado em receptação, em responsabilidade individual, em dever cívico. Mas preferiu sugerir que a pobreza teria quase uma vocação natural para o ilícito pequeno, enquanto a riqueza apareceria como se fosse moralmente mais respeitável. Por que será? Isso não é defesa do povo. É paternalismo humilhante. 
 
E aqui entra um ponto que o discurso presidencial simplesmente não podia ignorar: o Artigo 180 do Código Penal. É ele que tipifica a receptação, ou seja, a conduta de adquirir, receber, transportar, ocultar ou favorecer a circulação de coisa sabidamente produto de crime. Em português claro: comprar celular roubado não é “esperteza”, nem “jeitinho”, nem “inquietação econômica”. É ilícito penal. É justamente por isso que um presidente da República deveria falar com clareza moral, e não com caricaturas sociológicas sobre pobre e rico. 
 
O mais grave é que o governo não estava tratando de uma abstração. O Celular Seguro foi criado pelo Ministério da Justiça para combater roubos e furtos de celulares, permitindo bloqueio do aparelho, da linha e de aplicativos bancários; depois, o programa passou a prever também mecanismos voltados à recuperação do bem quando um novo chip é instalado. Ou seja: a política pública faz sentido. O que não faz sentido é explicá-la de modo moralmente torto, como se o pobre fosse o suspeito preferencial da cadeia de receptação. 
 
É aqui que a fala de Lula se torna tão corrosiva. Durante décadas, o lulismo construiu sua identidade dizendo falar pelos de baixo. Mas existe uma diferença brutal entre representar os pobres e rebaixá-los a estereótipo. Representar é reconhecer dignidade moral. Estereotipar é tratar uma classe inteira como se fosse personagem previsível de uma economia do improviso. Quando o presidente sugere que o rico não compra celular roubado, mas o pobre compra porque gosta de “coisinha barata”, ele distribui de forma indecente a suspeita social: aos de cima, a respeitabilidade presumida; aos de baixo, a culpa quase folclórica. 
 
A ironia é quase obscena. O Brasil conhece de sobra crimes sofisticados praticados por gente de colarinho branco, operadores elegantes, ex banqueiros,  fraudadores com gravata, corruptos de gabinete e espertalhões que jamais pisaram numa feira de usados. Mas, na hora do sermão presidencial, quem surge como vetor simbólico do ilícito é o pobre que compra barato. É a velha mania do brasileiro: tolerar o crime grande com linguagem técnica e moralizar o crime pequeno com desprezo social.  
 
O país precisa acordar para isso. Quando o governante fala, ele não apenas comenta uma política pública; ele educa moralmente a sociedade. E um presidente que deveria lembrar com nitidez o conteúdo do Artigo 180 preferiu reforçar um estereótipo de classe. Produto roubado sustenta violência. Quem compra alimenta a cadeia do crime. E isso vale para qualquer classe social. O resto é preconceito com verniz popular.