15 de junho de 2026
ARTIGO

Omnes similes sumus

Por Edson Rontani Júnior |
| Tempo de leitura: 3 min

O título me lembra uma aula que tive nos anos 1980 na Escola Estadual Dr. Jorge Coury. O professor era Franscislídio Beduschi que também lecionava no ensino particular. Ele foi responsável pelas matérias – extintas com o tempo – “Organização social e política do Brasil” e “Educação moral e cívica”. Num destes encontros vespertino com os alunos ele, no mais profundo de seu conhecimento, dispara:

- “Quem sabe o que está escrito no frontispício do Cemitério da Saudade?”

Grande maioria dos alunos ficou pensando o que seria frontispício, que em muito rimava com hospício e daí os risos na sala de aula. Frontispício, disse ele, na área de arquitetura, é a entrada decorada de um edifício e na Saudade está a inscrição “Omnes similes sumus”, ou “somos todos iguais”, numa tradução para lembrar que na morte não há distinção. Todos, somos iguais.

Muito menos dolorido que em Paraibuna, São Paulo, cujo cemitério traz em sua entrada a inscrição “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Dizem que a frase veio de padres europeus no contexto de que “nós que aqui estamos, esperamos por vossas orações”.

Mas, tradições e lendas à parte. Em breve, o IHGP republicará um trabalho importante dos autores Maurício Beraldo e Paulo Tot Pinto, dupla que possui talento e vocação para falar sobre o mais que centenário Cemitério da Saudade. São dois estudiosos que merecem aplausos da sociedade piracicabana. E o IHGP com esta republicação espera estar preenchendo uma lacuna sobre este local que atrai curiosidade por seu contexto arquitetônico e também pelas personalidades nele sepultadas, além, claro, de ser ponto de devoção por aqueles que já partiram deste mundo.

Piracicaba tem cemitérios centenários, reconhecidos ou não. O Cemitério da Saudade tem mais de 150 anos. Continua sendo motivo de devoção, de casa para felinos domésticos, de visitas dos “amigos do alheio” e também de ponto de visitação pela arte cemiterial que proporciona. Nele estão sepultadas personalidades importantes que trabalharam para a construção da sociedade local. Nele estão monumentos considerados verdadeiras obras de arte, as quais merecem nossa admiração e estudo. Não é à toa, que anos atrás foi encenada em plena meia-noite a peça “Vozes do Comurba” com grande sucesso. Hoje são sucesso as visitas noturnas ao cemitério, tornando claro que não se deve ter medo com os mortos e sim com os vivos. Essas visitas noturnas unem o inesperado com o temido e, em especial, com o assombroso, o qual é dominado em conjunto pelas dezenas de pessoas que visitam suas ruas com lanternas e sempre na expectativa do que virão pela frente.

Confesso que anos atrás via grupos se formarem para conhecer e discutirem tal arte cemiterial. Tinha pavor. Com o tempo passei a nota que muitos jazigos trazem uma história rica sobre a pessoa ali sepultada. Tomemos por base o mausoléu de Almeida Júnior, pintor sediado em Itu, morto em Piracicaba pelo marido de sua prima em frente ao Hotel Central, na praça José Bonifácio. Seu contexto arquitetônico é magnífico, rendendo momentos de reflexão e contemplação. Esse é apenas um dos vários exemplos. Temos também a quadra das vítimas do Comurba. Temos um presidente da República aqui sepultado. Temos prefeitos. Enfim, é uma história viva sobre os mortos. Pessoas que deram muito de si para termos essa Piracicaba fortalecida na qual vivemos.

“Somos todos iguais” que em breve será colocado a disposição do leitor nos ajuda nestas reflexões. É um roteiro das principais personalidades sepultadas na Saudade.

Que seja a todos um ótimo livro de cabeceira para conhecer histórias, lendas e tradições locais.