12 de junho de 2026
ARTIGO

Copa do mundo: saúde do esporte ou doença das apostas?

Por Erica Gorga |
| Tempo de leitura: 3 min

A Copa do Mundo que antes era tida como o maior evento esportivo que alegrou famílias brasileiras por gerações e gerações, em 2026, à beira de completar um século de existência – o que ocorrerá em 2030 – será o maior evento de apostas que o país já assistiu. Entristece constatar que o esporte mais amado dos brasileiros se tornou visceralmente ligado ao mundo das apostas.

A própria FIFA anunciou a Betano como apoiadora oficial da Copa do Mundo de 2026 para a Europa e a América do Sul. O futebol se transformou em universo de transações financeiras, com apostas sobre praticamente tudo o que pode acontecer em uma partida: resultado final, chutes a gol, faltas, escanteios, defesas, cartões e o que mais as ávidas casas de apostas possam conceber. Hoje são mais de 180 autorizadas no país competindo para extrair renda do público.

 A própria convocação dos jogadores para compor a seleção canarinho parece guardar pouca relação com a técnica esportiva dos mesmos e muita com a sua capacidade de marketing e de captação financeira. O próprio Neymar, ao comemorar a sua convocação, de imediato fez a propaganda de uma empresa de apostas.

  Obviamente que o mundo das apostas altera a percepção e a emoção que os torcedores e expectadores têm pelo jogo: o futebol passa a ser percebido como mecanismo para ganhar ou perder dinheiro. E são perdas para muitos e ganhos para poucos sócios e promotores das casas de apostas que alcançam facilmente as cifras dos bilhões.

 Jogadores e locutores esportivos, antes aclamados pela técnica esportiva, tornaram-se agora donos e garotos-propaganda das casas de apostas. A ambição de muitos não tem limites. Se antes os jogadores vinham, em sua maioria, das famílias mais pobres e com sua arte e talento construíam fortunas em trajetórias esportivas exitosas, agora os mesmos jogadores não hesitam em promover a deterioração e empobrecimento de milhões de famílias semelhantes às suas.  

As apostas online estão contaminando o orçamento das famílias, especialmente das classes C, D e E, modificando padrões de consumo, desde a alimentação básica, o vestuário até a educação. É estimado que as apostas esportivas drenam de 100 a 117 bilhões de reais por ano do consumo tradicional da economia brasileira, afetando especialmente o setor de comércio e serviços.

Recentemente, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) declarou que os brasileiros estão deixando de comer carne em razão dos gastos desmesurados com apostas. De fato, o consumo médio de carne por habitante reduziu 9%, de 35 kg em 2024 para 31,9 kg em 2025.

Assim, pode-se dizer que a camada mais pobre da população brasileira é a mais prejudicada com a expansão da indústria de apostas. Apostadores deixam de comprar produtos de necessidade básica para si e para seus filhos para manter o hábito que facilmente evolui para o vício de apostar. A jogatina desenfreada na expectativa de alcançar riqueza fácil faz com que milhões de brasileiros deixem de investir em educação.

Os custos sociais são também altíssimos: as apostas frequentemente estão associadas ao alcoolismo, drogas, brigas, violência doméstica e até à destruição de relacionamentos familiares.

Não é descabido questionar se os resultados das partidas de futebol chegam a ser influenciados pelo montante financeiro apostado nos resultados dos jogos, abrindo as portas para a corrupção de jogadores, times e árbitros .

A Copa de 2026, que agora se inicia, é um divisor de águas para o mundo esportivo. Será esse o caminho sem volta que o esporte tomará? Ou voltaremos a promover o esporte que sempre foi associado à saúde, à habilidade e técnica dos jogadores e a exemplos sadios para a população?