05 de junho de 2026
ARTIGO

Tristeza demais com o nome, silêncio demais com o crime 

Por Álvaro Carvalho |
| Tempo de leitura: 2 min

O problema do poder não é apenas o que faz. É o que deixa escapar quando fala sem filtro. Ao reagir à decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, Lula disse estar “muito triste” porque chamaram “nossos criminosos” de terroristas. Sim, na mesma fala ele afirmou que essas facções “são terroristas para as comunidades brasileiras” e que o combate cabe ao Brasil. Mas política é também ordem moral de linguagem. E a frase que ficou foi a pior possível, porque passou ao país a sensação de que houve mais desconforto com o rótulo do que com o terror real imposto por facções que extorquem, intimidam, dominam territórios e espalham medo nas periferias brasileiras.

Os fatos são objetivos. Em 28 de maio, o Departamento de Estado dos EUA anunciou a designação do PCC e do CV como “Foreign Terrorist Organizations” e “Specially Designated Global Terrorists”, com vigência a partir de 5 de junho. No dia seguinte, Lula reagiu em Sergipe, criticou a medida, levantou preocupação com soberania e associou o episódio à articulação política de Flávio Bolsonaro em Washington. O comunicado americano, porém, tratava de instrumentos de sanção e restrição, não de intervenção militar direta.

E aqui está o ponto que fere o senso comum do cidadão honesto: em que Brasil estamos vivendo, quando o presidente da República, diante de duas facções conhecidas por seu poder violento, produz uma reação pública tão ambígua? O governante não é obrigado a concordar com Washington. Pode discutir soberania, extraterritorialidade e interesse diplomático. Mas deveria ter a lucidez de colocar a vítima em primeiro lugar. Deveria começar pela dona de casa aterrorizada, pelo comerciante coagido, pelo morador de comunidade sitiada, e só depois entrar na geopolítica. Quando a ordem se inverte, a mensagem também se inverte.

É isso que torna a fala tão corrosiva. Não porque prove, por si só, conivência. Mas porque alimenta uma desconfiança devastadora: como confiar plenamente num governo que, nas entrelinhas, parece mais zeloso com a narrativa do que com a nitidez moral diante do crime? Em vez de aproveitar o episódio para afirmar de modo seco, claro e inequívoco que facção criminosa merece repúdio absoluto, Lula preferiu recolocar tudo no velho teatro da soberania ofendida, do inimigo externo e do conflito ideológico conveniente. O debate deixou de ser o inferno concreto vivido por brasileiros comuns e virou, mais uma vez, um drama de orgulho político.

Governar exige mais do que retórica. Exige instinto moral. E, nesse episódio, o instinto falhou. Quando o Estado fala sobre crime organizado, a primeira obrigação é não deixar nenhuma sombra de dúvida sobre de que lado está. Não do lado do melindre diplomático. Do lado do cidadão acuado. Quando essa clareza falha, o discurso não apenas confunde. Ele corrói a confiança pública. E um país já exausto de violência não precisa de frases ambíguas no topo do poder. Precisa de vergonha, firmeza e decência.