05 de junho de 2026
ARTIGO

Essa “magnífica humanidade”

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Em meados de 1950 e nos primeiros anos na faculdade de Direito (PUC-Campinas), vivíamos o entusiasmo – e, em especial, as esperanças – naquele Brasil das mudanças realmente apaixonantes. Na realidade, era o mundo estremecendo diante de verdadeiras revoluções sócio-político-econômicas. Não tínhamos consciência disso, mas aqueles viriam a ser conhecidos como os “anos dourados”. Para as gerações que os viveram, tornaram-se não apenas inesquecíveis, mas reveladores de, pelo menos, ser possível, globalmente, viver a alegria. E sonhar.

Ao, pois, os que sobrevivemos às décadas posteriores e à atual, nada entendermos do mundo atual, não se trata de saudosismo ou de inadaptação de envelhecidos. Deve tratar-se de algo que sabe à lamentação pela corresponsabilidade por tesouros perdidos. Fomos privilegiados por, ao mesmo tempo, assistir às e compartilhar das conquistas que nos levaram aos espaços siderais e – também agora e perigosamente – à inteligência artificial. Do mundo do carro-de-boi aos drones que se aproximam do Sol. E sempre – por décadas aparentemente sem fim – promovendo guerras, fratricídios, infelicidades de povos inteiros.

Voltando àqueles anos universitários dos 1950, início dos 1960, grupos de jovens apaixonamo-nos pelo marxismo sem sequer lermos Marx. Formaram-se movimentos, a “juventude comunista”, a admiração quase icônica por Luiz Carlos Prestes, que fora martirizado durante a ditadura de Getúlio Vargas. E o deslumbramento com uma União Soviética desconhecida, misteriosa. Em resumo: era chique, era “top” ser intelectual e dizer-se comunista. E as referências à juventude eram Jorge Amado, Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior, Cândido Portinari, Nelson Pereira dos Santos, Vianny, Pedro Pomar, tantos outros. E o chileno admirável, Pablo Neruda. Como, mal saídos da adolescência, não nos apaixonarmos por aquilo?

A vida parece acontecer como ela própria quer e não como o pretensioso ser humano deseja. Pois, ainda aos 20 anos de idade, no início de 1961, o quase garoto foi nomeado diretor de um novo jornal da cidade, de propriedade de influentes personalidades piracicabanas: Guidotti, Romano, Aldrovandi, D´Abronzo, um rol de empresários poderosos. Era a “Folha de Piracicaba”, a antiga. O rapazinho fora desafiado, pelo próprio Luciano Guidotti: “Tá com medo ou vai aceitar?” Aceitou. E começou-lhe a saga que ainda continua.

Já desiludido de ideologias políticas, teve que viver o caos político após a renúncia de Jânio Quadros. No Vaticano, elegera-se novo Papa, um velhinho de nome João XXIII. E ele impactou o mundo ao lançar a encíclica “Mater et Magistra”, também impactando a própria Doutrina Social da Igreja. O jovem diretor de jornal perturbou-se. Pois se lembrava, ainda, quando na Faculdade, discutia-se, em aula do Direito do Trabalho, a encíclica “Rerum Novarum”, de Leão XIII. Ora, a encíclica tinha sido – no longínquo maio de 1891 – resposta da fé católica à também monumental obra de Karl Marx, “O Capital”. E se tornara referencial para inúmeras leis trabalhistas do mundo.

Os frágeis sonhos comunistas do jovem esboroaram sem fazer ruídos. A “Folha de Piracicaba” publicou, em partes e diariamente, toda a encíclica. E o jovem passou a acompanhar cada documento saído do ubérrimo ventre cultural do Vaticano. A encíclica “Magnífica Humanidade”, do atual Pontífice, é um novo farol propondo ações urgentes a cada um de nós e às lideranças mundiais. É um clamor do Papa Leão XIV diante dos óbvios sinais anunciadores do Apocalipse.

“Dies irae dies illa” – o dia da ira, aquele dia.