10 de maio de 2026
SUPERAÇÃO

Quando o amor vence a dor: ‘somos mães, mesmo com o colo vazio’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 6 min
Divulgação
Jamille com um colar com a imagem do pezinho da bebê

Neste domingo (10), a psicóloga Jamille Monique Silva Ramos de Lima, de 36 anos, irá comemorar com alegria mais um Dia as Mães. Mesmo com a dor de ter perdido Ana Carolina, sua filha recém-nascida, há quase quatro anos, ela celebra, com seu marido Jaime, uma das datas mais importantes do nosso calendário.

Jamille não teve a oportunidade de ter pequena Carola em seus braços, mas reuniu forças para continuar. E mais. De sua dor nasceu um trabalho social para ajudar a pais que passaram pela mesma dor. “Minha história foram dias longos que até hoje reverberam, mesmo que tenha sido um curto período que pude viver com a Ana Carolina, minha filha”, diz.

A gestação de Jamille estava indo bem até que, em um dos exames no quinto mês, ainda sem saber que era uma menina, o médico viu que a bebê era cardiopata. “O médico chamou uma especialista e fui informada de que o bebê morreria em poucos dias. Então, se eu continuasse com a gestação o bebê morreria, e se fizesse a cesárea também morreria”, lembra.

Em meio a tudo isso, ainda teve mais uma decepção. “Após essa notícia, a médica que me acompanhava não deu suporte, abandonou a situação”, conta a mãe, que foi assistida em seguida por outra profissional. “Uma outra médica plantonista pegou o meu caso, segurou minha mão e disse que iria me acompanhar até o fim”, narra.

Segundo a mãe, a nova médica “me acolheu na clínica que ela atende e fez os acompanhamentos até o coração do bebê parar de bater”. O acompanhamento começou em abril, e terminou em maio; foram dois dias de trabalho de parto e contrações, dores físicas e psicológicas...

“Até que à meia noite de uma quinta feira, o bebê nasceu e me avisaram que era menina. Mas como eu estava numa situação muito delicada, não cheguei a conhecê-la; eles colocaram no colo do meu esposo e me deram o suporte, pois eu sangrava muito. Depois de dois minutos, levaram ela para preparar e ser enterrada. Não a conheci, não a peguei no colo. As enfermeiras me deram um papel sulfite com o pezinho carimbado, o que tenho guardado”, conta. “Saí do hospital ao amanhecer, fui ao enterro e como já estava no caixão branco, decidi não abrir e respeitar a Ana Carolina. Isso aconteceu em 12 de maio de 2022.”

O drama da jovem piracicabana, então, fará quatro anos na próxima terça-feira (12). “Passar por essa situação foi como estar submerso em águas e não enxergar a superfície, é sufocante, é traumático, é doloroso”, afirma.

“Enquanto o coração da Aninha batia, um dia, chorei muito e, com muita dor no coração, prometi a ela que mesmo depois da sua partida, seria uma boa mãe. Eu viveria por mim e por ela. E não esqueceria dela em nenhum dia da minha vida. Então, ela poderia partir em paz que eu e o pai dela estaríamos sendo os melhores pais que poderíamos”, completa.

“Sempre falamos o nome dela, comemoramos o aniversário dela entre nós dois, começamos a mudar nossas perspectivas de vida, mudamos os nossos sonhos, estudamos mais sobre a vida e morte, luto perinatal, cuidados paliativos. Meu esposo começou uma faculdade”, explica.

“E a médica que pegou o meu caso, a queridíssima dra. Stefane Coutinho, me incentivou a escrever um livro. Escrevo sempre que posso um capítulo novo”, revela. “Então procuramos passar por essa situação apenas um dia de cada vez, sem pensar no amanhã. Mas só respirando e vivendo o hoje”, complementa.

Por tudo isso, neste domingo, o dia será de festa na casa de Jamille, que nunca deixou passar a data em branco. “Sou mãe da Ana Carolina, e a chamo de Aninha ou Carola. Nesse domingo, assim como todos os que passaram depois da partida dela, vou sentir: sentir ser mãe, sentir saudade, ouvir meu coração, pois o meu bate e fez o dela bater. Então, nos Dias das Mães sempre me preparo emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente para lembrar com carinho daquela que me fez e me faz mãe”, afirma.

PROJETO

Mesmo em meio à tristeza e sofrimento, a psicóloga Jamille Monique Silva Ramos de Lima encontrou forças para ajudar a outras pessoas que passam pelo mesmo drama. Assim, nasceu o “Abraço de Carola”, um projeto que acolhe pais enlutados.

No início, segundo ela, o trabalho era de acolhimento ao luto perinatal, “mas depois tivemos experiências com pais que perderam filhos já casados e deixaram filhos também. Aí abrimos portas para acolher pais de colos vazios independentemente da idade”, declara.

“Então hoje damos voz a esse luto e a dor de perder um filho, acolhemos e abraçamos a pior dor que existe. Ouvimos histórias e abrigamos, amparamos os pais de colo vazio. Somos ouvidos, ombro e colo para quem se interessar em dividir um pedaço de próprio fardo angustiante que é o luto por um filho; acredito que dor dividida cicatriza com mais ternura.”

No momento, o projeto conta com quatro pessoas. Além de Jamille e Jaime, o “Abraço de Carola” tem mais duas voluntárias (Ariadne e Raissa), que aceitaram o desafio. “São amigos incríveis que sempre estão presentes, incentivando e compartilhando sobre o projeto para que alcance a quem precisa. Eles são nosso apoio”, reconhece a psicóloga.

O projeto é "recém-nascido" e gratuito, então eles decidiram conduzir essa jornada de forma leve e discreta, na qual assistem somente algumas famílias. “Mas, aos poucos, gostaríamos de poder abranger muito mais. Mostrar que esses pais não estão sozinhos na dor e no silêncio”, afirma.
Para essas mães, Jamille deseja que elas consigam expressar o que sente e descobrir novas versões. “Que elas consigam dizer em voz alta o nome de seus filhos, mesmo após a partida, que comemorem por esse filho ter existido, mesmo que seja o bolo mais amargo de sua vida, mas que encontre doçura na dor.”

“Que não se isole, mas interaja com pessoas que somam, pessoas dispostas a enfrentar e andar lado a lado na dor. Não pensem muito no futuro, e no que poderia ter sido, mas respirem e pensem apenas no que há agora, que consigam sorrir mesmo que com o coração quebrantado por dentro, e quando doer de perder o folego, peçam ajuda, conversem, faça amizades, saia tomar um ar ou um café, que façam boas coisas, tarefas, hobbies e atividades que nunca teve coragem de fazer. Não se culpe por nada, e não se critique. Somos mães e continuaremos sendo, mesmo com o colo vazio, eles serão eternamente nossos filhos enquanto a gente respirar.”

TRAUMAS
Jamille conta que ainda carrega traumas que ficaram, traumas de médicos, hospital, do parto (foi parto induzido)... “Meu esposo também teve traumas de médicos que disseram palavras ofensivas, sem humanidade e sem empatia. Se for contar tudo dá sim um livro. Quando me bate a falta, uma das coisas que faço é me reunir com amigas e tomar um café em lugares diferentes. Comecei sozinha, depois com uma grande amiga que estava presente no processo de parto, a Layra, e depois comecei a convidar só amigas. Hoje tenho quatro diferentes grupos de amigas que tomam café comigo. Então sempre preencho meu vazio”, finaliza.