O professor Marcos Ferreira da Silva é um apaixonado pelo basquetebol. Começou a treinar com 14 anos, no clube Cristóvão Colombo, mas logo percebeu sua altura não era a ideal para a prática do esporte da bola laranja. Porém, não desistiu. Se especializou na área e, com a ajuda de dois amigos, fundou sua própria escolinha de basquete, a Coach Marcos Silva.
Hoje, aos 46 anos, ele comanda quase 250 alunos e a meta é crescer ainda mais nos próximos anos. “O sonho era chegar a 60 alunos. Hoje acredito que podemos chegar a 400 alunos e, sendo ambicioso, abrir outra unidade do outro lado da cidade no mesmo modelo”, declara o treinador.
Como acreditar, no entanto, em um esporte que não seja o futebol, que é a nossa paixão nacional? Marcos Silva responde: “Temos muitas crianças que não se adaptam à modalidade do futebol e apresento para elas o basquete, junto com meus dois professores, Richard e Thiago, que fazem um trabalho excepcional com as crianças e adolescente”, argumenta.
Piracicabano de nascimento, casado com Tatiana, pai de três filhos (Caio, Lucas e Maria), Marcos Silva confia no potencial do esporte (“o brasileiro consome muito NBA”), mas também lamenta o pouco investimento nos campeonatos internos.
Apesar disso, o treinador sonha com a volta de um time profissional para a cidade. “Eu particularmente acho que o poder público poderia investir (em um time adulto) não com dinheiro, mas com medidas que auxiliassem as empresas a investir no esporte”, diz o comandante. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista.
Conte-nos um pouco sobre a sua trajetória no basquetebol e quais experiências o trouxeram até este momento da carreira... Comecei a jogar basquete com 14 anos, no Cristóvão Colombo. Me apaixonei pelo basquetebol, mas percebi que, pela minha altura e habilidades, eu não conseguiria me tornar jogador. Sabia que para continuar perto do basquete, meu caminho deveria ser outro e, como sempre gostei de estratégia (basquete é um jogo de xadrez), passei a me dedicar a aprender taticamente e tecnicamente para poder ensinar e estar dentro (ao lado) da quadra. Fiz Unicamp aos 18 anos e, logo que entrei na faculdade, já comecei a trabalhar em projetos que a universidade oferecia de basquete e no Clube Cultura, com André Passarinho, que me deu a oportunidade de aprender com ele e treinar equipes de base. Em 1999, a Internet estava começando e não existam cursos, clínicas pelo Youtube. Aprendi indo ver treinos de outros treinadores e vendo fitas de VHS. Em 2002, vim trabalhar no XV de Piracicaba, onde o finado Roberto Filetti me deu a oportunidade. Já em 2004, com 24 anos, dirigi o time adulto no Campeonato Paulista. Passei depois por outras equipes profissionais, como América de Rio Preto, Sorocaba e São João da Boa Vista. Também trabalhei com basquete feminino em Americana e aqui em Piracicaba. Em 2010, iniciei no CCP (Clube de Campo de Piracicaba), com as equipes de base e o diretor de basquete CCP, Ivo Passini, confiou no meu trabalho. Assim, desde então, estou no clube que hoje sem dúvida é referência no trabalho de base no Brasil.
Como surgiu a ideia de criar uma escola de ensino exclusivo de basquete e o que motivou a escolha de um modelo particular para esse projeto? Todo final ou começo de ano, o CCP realiza testes para suas equipes de base e, como não temos alojamento, a equipe é majoritariamente formada por atletas de Piracicaba. Eu fazia um teste para sub-15 e apareciam 50 garotos; sub-17 mais 60 garotos. Eu selecionava 1 ou quando muito 2 e ficava me perguntando onde os outros 48, 58 meninos iriam jogar/aprender basquete. Dispensar um garoto em uma seletiva é cruel, afinal você mexe com sonhos, expectativas de adolescentes que estão iniciando sua vida. Aquilo me incomodava muito! Por mais que eu já tivesse um “nome” no meio do basquete, nunca fui um jogador famoso/craque. Em 2017, a NBA School chegava ao Brasil com sua metodologia e minha esposa Tatiana foi quem mais acreditou e disse que daria certo iniciarmos uma escolinha.
Desde quando funciona a sua escola e quantos alunos têm atualmente? A escola iniciou em 2022, no colégio Lumisol, na Vila Rezende. Apresentei ao proprietário Odair Moral, que sempre apoiou o esporte, e iniciamos na quadra da escola. Terminamos o ano com 34 alunos e, em 2023, veio o convite do Cristóvão Colombo para reativar o basquete. Ficamos dois anos lá e tivemos 140 alunos. Em 2025, inauguramos nosso espaço, na avenida Dois Córregos 1881 - telefone (19) 9.9746-2087. Projeto pensado para ser uma quadra estilo americana aqui no Brasil. Junto com dois amigos que jogaram comigo no Cristóvão, Fernando Ribeiro e Sergio Pereira, iniciamos e hoje estamos com 235 alunos. Dos 5 anos até o adulto, temos aulas todos os dias da semana e aos finais de semana eventos, como campeonatos e clínicas e locação de quadra também para quem quer viver essa experiência de jogar em uma quadra profissional. Quando fomos para o Cristóvão, o sonho era chegar a 60 alunos. Hoje acredito que podemos chegar a 400 alunos e, sendo ambicioso, abrir outra unidade do outro lado da cidade no mesmo modelo.
Por que você decidiu apostar em uma cidade do interior, como Piracicaba, para a implementação deste empreendimento? Minha esposa é natural de Itapeva e já morou em diversas cidades. Ela me diz que nunca viu alguém tão bairrista como eu. Sou Piracicabano, aqui é minha cidade e não me vejo em outro lugar.
Como foi estruturado o planejamento de investimentos necessário para viabilizar a chegada desta unidade à cidade? Sou cristão e acredito que posso fazer planos, mas tudo só acontece se Deus estiver à frente, guiando e abençoando. Tatiana, minha esposa, é especialista de investimento no Itaú e tem mais de 25 anos que sou treinador. Eu vou tendo as ideias e ela vai traçando as diretrizes e “naturalmente” apareceram pessoas que ajudaram nisso. Falei acima dos meus dois sócios, que gostaram do que apresentamos, acreditam no esporte como ferramenta de transformação e embarcaram com a gente nessa.
Qual é a sua percepção sobre a existência de um mercado consumidor para o ensino de basquete em Piracicaba e como tem sido a aceitação do público? Muitos sempre me chamaram de louco por gostar de basquete no país do futebol. Mas percebi que tem espaço para todo mundo. Hoje temos muitas crianças que não se adaptam a modalidade do futebol e apresento para elas o basquete, junto com meus dois professores, Richard e Thiago, que fazem um trabalho excepcional com as crianças e os adolescentes. Falam a língua deles, interagem e ajudam eles a gostar do basquete e a aprender. Brasil é o segundo país do mundo que mais consome NBA! Ou seja, brasileiro gosta de basquete. Procuramos apresentar um serviço de excelência que ajude no desenvolvimento da criança/adolescente, dentro e fora das quadras.
Quais são as faixas etárias atendidas pela escola e como o treinamento é adaptado para cada uma delas? A primeira categoria no basquete que começa a competir oficialmente é a sub-12, mas nós iniciamos já a partir dos 5 anos de maneira divertida e respeitando o desenvolvimento de cada criança. Temos turma para adultos, nosso 18+, que está já sem vagas. Pessoas que jogaram e mesmo aquelas que nunca jogaram, mas podem praticar a modalidade, melhorando seu condicionamento físico e aprendendo mais da modalidade.
Como você enxerga a atual oferta de campeonatos amadores e torneios de base na cidade e região? Hoje nossa escola tem seu campeonato interno com mais de 150 alunos jogando e iniciamos também o I Campeonato Piracicabano de Basquete, onde só pode jogar atletas com mais de 18 anos e que residam em Piracicaba. Vem sendo um sucesso ver jogos bons, famílias presente e interação entre os amantes da bola laranja. Nosso objetivo é crescer e ofertar mais atividades.
De que maneira você avalia a atenção e o suporte que o poder público municipal tem dedicado ao basquetebol atualmente? Tema para mais uma página inteira, mas acho que resumidamente, eles fazem seu trabalho com os núcleos e escolinhas. Muitos falam sobre Piracicaba não ter mais um time profissional e que a prefeitura deveria fazer. Eu particularmente acho que o poder público poderia investir não com dinheiro, mas com medidas que auxiliassem as empresas a investir no esporte e fizesse essa ponte.
Na sua opinião, quais são os principais desafios e oportunidades para o crescimento do basquete piracicabano nos próximos anos? Eu tenho a sorte de ter em minha escola dois profissionais excepcionais que realmente entregam e fazem os alunos gostarem do basquete e realmente ensinam. Sempre em nossas reuniões de planejamento e de dia a dia, estamos preocupados com a formação integral da criança/adolescente. Como disse, brasileiro consome muito NBA, mas nosso produto nacional mesmo como NBB e campeonatos Estaduais, pouco se fala, pouco se consome. Acredito que ensiná-los a valorizar o que é nosso é importante e que basquete é basquete. Seja no Madison Square Garden, em NY, seja na Rua do Porto. O importante é tudo aquilo de bom que o esporte oferece e o basquete como prática esportiva vai continuar sendo a ferramenta que nossa escola vai utilizar para transmitir bons valores e costumes a todos que se permitirem vivenciar.