17 de abril de 2026
ROBERTO ARRUDA

Professor teme extinção do jumento: ‘trata-se de um prazo curto'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 9 min
Divulgação
‘Os animais abatidos são capturados das mais diferentes formas, sem controle com relação a população e sua taxa de reposição’

O professor Roberto Arruda de Souza Lima, 62 anos, coordenador do Grupo Equonomia da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), está muito preocupado com o futuro do jumento no Brasil. Uma das principais razões é a forte demanda para exportação de pele de jumentos para China, onde é matéria prima de um produto de medicina tradicional, uma gelatina chamada de ejiao.

“Não existe uma cadeia produtiva de jumentos para abate, isto é, não são criados jumentos com a finalidade de abate. Os animais abatidos são capturados das mais diferentes formas, sem controle com relação a população e sua taxa de reposição”, declara.

Roberto Arruda teme a extinção do animal “a curto prazo” caso nada seja feito de forma imediata. “Como não há uma estatística confiável referente a população de jumentos, é arriscado prever em quanto tempo os jumentos podem desaparecer mantendo o ritmo atual de abate. Mas, com certeza, trata-se de um prazo curto”, lamenta.

Com o objetivo de mudar o atual cenário, o professor compõe um grupo de pesquisadores de universidades públicas contrários à legalidade de abate deste animal no Brasil. Além dele, há pesquisadores renomados, cada um contribuindo com sua área, como bem-estar animal, questões jurídicas, questões sanitárias, patrimônio genético, aspectos culturais e muitos outros. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:

A divulgação de dados pelo portal World Population Review, que afirma haver 730 mil jumentos no Brasil, quase dez vezes maior que o número de 78 mil animais calculados em 2025, foi contestada por cientistas e especialistas de áreas da agroeconomia e medicina veterinária no Brasil, dentre os quais o senhor. Gostaria que explicasse essa questão, por favor... Infelizmente não existe informação confiável sobre a quantidade de animais existentes no Brasil. O IBGE realiza dois levantamentos com relação à quantidade de animais no Brasil: o Censo Agropecuário e a Pesquisa Pecuária Municipal (PPM). São levantamentos muito bons para animais como bovinos, suínos e outros produzidos em propriedades agropecuárias visitadas pela equipe do IBGE e exclusivamente para comercialização. No caso de jumentos, há jumentos que não se enquadram nessa categoria. Ninguém tem um boi no quintal de casa, mas, pelo interior do Brasil, muitos possuem um jumento em casa. A maior parte dos jumentos não é criada para comercialização e ficam em propriedades que não se enquadram nos critérios para visita do IBGE, além dos animais que se encontram abandonados. Desta forma, os dados do Censo, para os jumentos, tendem a ser subestimados. O outro levantamento do IBGE, a PPM, não coleta mais dados sobre jumentos desde 2013. Já os dados apresentados no World Population Review foram obtidos junto à FAO e, ao contrário do IBGE, são superestimados, como será explicado a seguir. Portanto, não podem ser comparados: os 730 mil foram calculados de uma forma completamente diferente dos 78 mil citados. Quando muito, pode-se comparar a evolução dos números, ao longo do tempo, de uma mesma instituição para tentar inferir o que ocorre. A FAO não realiza levantamentos, censos, ao contrário do que o IBGE faz. No caso específico dos jumentos, a FAO se baseia em informações do IBGE referentes à Pesquisa Pecuária Municipal (que não é um censo, mas estimativas subjetivas de informantes locais, portanto sujeita a erros) publicados até 2013. Depois dessa data, a FAO faz estimativas com base em modelos estatísticos (no plural, pois utiliza não um, mas uma combinação de modelos realizada através de machine leaning). A modelagem estatística possui características que tornam difícil a aplicação no caso de jumentos. A modelagem busca apresentar resultados que tenham coerência regional (ou seja, busca evolução da população de jumentos que se aproxime da observada, por exemplo, com equinos), realiza procedimentos para suavizar a trajetória (sem quedas ou saltos bruscos) e realiza uma extrapolação da tendência de crescimento (ou decréscimo). Ou seja, a modelagem não irá refletir a realidade quando há aumentos ou reduções da população em grande quantidade e concentrada em curto período, exatamente o que ocorreu com os jumentos. Assim, desconsidera o que podemos chamar de choque estrutural ocorrido com a entrada da China com grande intensidade no mercado, desencadeando o crescimento no abate de jumentos em proporções nunca vistas anteriormente e não previstas no modelo da FAO. Em suma, a modelagem utilizada pela FAO é correta para minimizar erro estatístico, gera estimativas tecnicamente robustas, mas inconsistentes com a realidade pois ignora restrições biológicas, econômicas, sociais e mudanças estruturais. Desta forma, é correto supor a ocorrência de viés na estimativa, superestimando o número de jumentos. Não são estimativas confiáveis para uso de políticas e para tomada de decisões. Por isso, falar que a população de jumentos é dez vezes maior do que era estimado não se sustenta com a realidade, chega a ser irresponsável utilizar dados com tantas distorções.

Por que, na sua opinião, há um “sumiço” desta raça no Brasil? Há duas razões. Uma, que podemos considerar como natural, decorre da substituição de animais de serviço por máquinas. A perda do uso econômico provoca redução do número de animais, da mesma forma como diminui o número de cavalos após a Primeira Guerra Mundial e o crescimento do uso de veículos motorizados. A segunda razão, e que causa grande preocupação, foi a surgimento de forte demanda para exportação de pele de jumentos para China, onde é matéria prima de um produto de medicina tradicional, uma gelatina chamada de ejiao. Essa busca pela obtenção da pele desencadeou busca por jumentos para abate sem que exista uma cadeia produtiva. São capturados animais nas mais diversas condições, sem maior controle, inclusive fruto de roubos.

A diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Vânia Nunes, disse recentemente que, para cada 100 jumentos que existiam no Brasil, há três décadas, hoje restam apenas seis, o que equivale a perda de 94% da população entre 1996 e 2024. O cenário é esse mesmo? Esse é o cenário com base nos dados oficiais, publicados no Censo Agropecuário do IBGE. Como comentei anteriormente, eu, particularmente, não confio que esses números estejam exatos, entretanto a tendência que pode ser inferida pelos números do Censo é clara no sentido de forte queda da quantidade de jumentos, podendo resultar em perdas irreversíveis e de valor inestimável. O cenário é muito preocupante, mesmo que o número exato não seja o apontado pelo IBGE.

O senhor lidera um grupo de pesquisadores de universidades públicas contrários à legalidade de abate de jumentos no Brasil. Como está essa questão? Alguma novidade? Eu faço parte do grupo de pesquisadores, mas não sou o líder. Há pesquisadores renomados e muito sérios, cada um contribuindo com sua área: bem-estar animal, questões jurídicas, questões sanitárias, patrimônio genético, aspectos culturais e muitos outros. A questão é bastante complexa e exige essa cooperação envolvendo pesquisadores de várias instituições, inclusive estrangeiras. A questão tem evoluído positivamente, com workshops internacionais (o quarto ocorrerá em maio próximo, em Salvador-BA) que sempre tem trazido avanços e forte posicionamento político, como a divulgação da Carta de Maceió, referente aos resultados no último workshop com assinatura do grupo de pesquisadores. Entre os resultados práticos e novidade, no último dia 13 foi proferida sentença da 1ª Vara Federal Cível da Bahia proibindo “o abate de jumentos, muares e bardotos no Estado da Bahia, bem como a captura e/ou compra dos referidos animais para o abate e o seu confinamento para tal fim”.

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) reconheceu em dezembro a legalidade do abate do animal em nosso país. Vocês conseguiram reverter essa posição? Sim, conforme comentado na questão anterior. A posição foi revertida com a sentença referente à Ação Civil Pública (processo 1010977-33.2018.4.01.3300), proibindo o abate de jumentos na Bahia.

O senhor declarou ao JP, no mês passado, que o abate “exploração de jumentos para abate ocorre de forma predatória”. Gostaria que explicasse como são hoje as condições e quais são as ideais... Não existe uma cadeia produtiva de jumentos para abate, isto é, não são criados jumentos com a finalidade de abate. Os animais abatidos são capturados das mais diferentes formas, sem controle com relação a população e sua taxa de reposição. Os animais capturados ou comprados (por preços muito baixos) são transportados e confinados até o momento do abate em condições que não atendem adequadamente ao bem-estar animal e com disseminação de doenças. A situação ideal seria seguir normas técnicas e sanitárias (que existem e são seguidas no caso de abate de equinos). Se fosse viável economicamente (o que não ocorre na prática), ter criação de animais assim como ocorre com bovinos, na qual os animais abatidos sejam naturalmente repostos, sem comprometer a população total.

Qual o interesse no abate do animal em nosso país? O que é utilizado do jumento e para aonde vai? Há um produto da medicina tradicional chinesa chamado ejiao, muito valorizado cujo a demanda cresceu muito acompanhando o forte crescimento econômico da China. O ejiao é produzido com o colágeno que é extraído da pele de jumentos. O abate de jumentos na China para produção de ejiao fez com que a população desse animal caísse de 11 milhões em 1990 para cerca de 3 milhões em 2017. Para suprir a necessidade de peles de jumentos, inicialmente os chineses exploraram a população da África e, em seguida passaram a buscar o mercado brasileiro, instalando frigoríficos na Bahia. O principal objetivo do abate de jumentos é a exportação de pele para China (diretamente ou para países que realizam a reexportação). A carne também é exportada, principalmente para países asiáticos. A carne de equídeos (cavalos, jumentos e mulas) serve para consumo humano e também na formulação de ração para animais.

O professor teme a extinção do jumento caso não mude o cenário atual? Sim. E essa não é uma preocupação apenas do Brasil. Por razões parecidas ao que ocorre por aqui, a cúpula da União Africana (UA) proibiu, em 2024, o abate de jumentos e a exportação de suas peles até 2039 (moratória de 15 anos). Como não há uma estatística confiável referente a população de jumentos, é arriscado prever em quanto tempo os jumentos podem desaparecer mantendo o ritmo atual de abate. Mas, com certeza, trata-se de um prazo curto.

O jumento é muito popular na região nordeste do país. É muito utilizado no trabalho do homem do campo, mas também é muito querido, faz parte da cultura daquela região, não? Sim, e não apenas no Nordeste (embora de forma mais intensa nessa região). Essa popularidade do jumento, inclusive, está bem registrada na música “Apologia ao Jumento”, grande sucesso de Luiz Gonzaga, inspirada no livro "O Jumento, Nosso Irmão", do Padre Antônio Batista Vieira. Uma das preocupações com o abate de jumentos é a perda desse símbolo, considerado patrimônio cultural brasileiro conforme proposto no PL 1218/2019 em tramitação no Congresso Nacional.

A criação de jumentos para abate não é viável economicamente? A criação de jumentos para abate não é viável economicamente, principalmente pelos aspectos biológicos, como o intervalo de 16 meses entre cada parto.