O processo de recuperação judicial da Rede Metodista de Educação caminha para o encerramento definitivo, mesmo com uma dívida que ainda supera os R$ 716 milhões e envolve quase 12 mil credores. A medida ocorre após entendimento do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que afastou a possibilidade de entidades sem fins lucrativos recorrerem a esse tipo de mecanismo.
Com a decisão, a Vara Regional Empresarial de Porto Alegre, responsável pelo caso, já iniciou os trâmites para extinguir oficialmente a recuperação judicial. Em despacho publicado no dia 2 de abril, a Justiça autorizou que credores retomem individualmente suas cobranças na Justiça.
A partir de agora, trabalhadores e demais credores devem procurar seus advogados para reativar os processos, especialmente na Justiça do Trabalho. Segundo a advogada trabalhista Letícia de Toledo Piza Rossi, será necessário dar andamento às ações com pedidos de localização de bens e valores, incluindo recursos oriundos de negociações recentes envolvendo patrimônios da instituição.
Entre os exemplos citados está a venda de áreas da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), que pode gerar valores ainda passíveis de disputa judicial. Parte do campus Taquaral foi negociada ao longo de 2025, com operações que somam dezenas de milhões de reais.
A Rede Metodista ingressou com o pedido de recuperação judicial com o objetivo de reorganizar suas finanças e manter suas atividades. No entanto, o entendimento do STJ mudou o rumo do processo ao considerar que instituições sem finalidade lucrativa não se enquadram nas regras desse tipo de recuperação, em razão de suas características jurídicas e benefícios fiscais.
Dados da própria Justiça apontam que a dívida total chega a R$ 716,3 milhões, distribuída entre 11.843 credores. A maior parte está concentrada em débitos trabalhistas, que somam mais de R$ 547 milhões. Também há valores devidos a credores com garantia real, fornecedores, instituições financeiras e pequenas empresas.
Durante o período de recuperação, a instituição conseguiu quitar cerca de R$ 213,3 milhões, conforme relatório mais recente da administradora judicial, divulgado em dezembro de 2025. Parte desses recursos veio da venda de imóveis vinculados à rede.
Com o fim do processo coletivo, a tendência é de uma corrida individual por ativos ainda disponíveis. Advogados poderão solicitar à Justiça medidas como bloqueio de valores e reserva de recursos provenientes de negociações já realizadas. Caso o juiz não localize bens suficientes, os próprios representantes legais dos credores poderão indicar patrimônios passíveis de penhora.
Entidades sindicais também se mobilizam diante do novo cenário. Em nota conjunta, organizações que representam trabalhadores da educação informaram que vão retomar imediatamente as execuções judiciais, tanto coletivas quanto individuais, com o objetivo de acelerar o pagamento das dívidas.
O documento é assinado por entidades nacionais e regionais, incluindo sindicatos de professores de diferentes estados. De acordo com representantes sindicais, o plano aprovado durante a recuperação não foi cumprido integralmente, o que agravou a situação dos credores ao longo do processo. Além disso, as entidades estudam novas ações e devem promover discussões com advogados para orientar os trabalhadores sobre os próximos passos na busca pelos valores devidos.