06 de abril de 2026
ARTIGO

Entre o tempo e o corpo

Por Rogério Cardoso |
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
Rogério Cardoso é personal trainer e preparador físico, membro da Sociedade Brasileira de PersonalTrainer SBPT e da World Top Trainers WTTC.

Trabalhar com idosos é, antes de tudo, um encontro com o tempo. Não o tempo do relógio, mas aquele que se inscreve no corpo, nas histórias, nas pausas mais longas entre um movimento e outro. Como personal de idosos, eu não treino apenas músculos. Eu acompanho trajetórias. E, em algum momento, aprendo que esse caminho também inclui despedidas.

Existe algo que raramente se diz sobre essa profissão: você se envolve. Você escuta, orienta, celebra pequenas conquistas que, para muitos, parecem simples, mas ali carregam um significado profundo. Levantar da cadeira com mais facilidade, caminhar sem dor, subir escadas sozinha, voltar a confiar no próprio corpo. São gestos que, no fundo, falam de autonomia e autonomia, nessa fase da vida, é quase sinônimo de dignidade.

Mas junto com isso vem uma verdade silenciosa: a finitude. Alguns alunos partem. E quando isso acontece, não é apenas um nome que deixa a lista de treinos. É uma presença que se retira do mundo. E você fica ali, entre o que fez e o que poderia ter feito, atravessado por uma sensação difícil de explicar.

Lembro muitas vezes de “As Intermitências da Morte”, do escrito José Saramago. A ideia de suspender a morte parece, à primeira vista, um alívio. Mas não é. Porque viver indefinidamente sem transformação também é uma forma de estagnação. A morte, de algum modo, dá contorno à vida. Ela organiza o valor do tempo.

No cotidiano do treino com idosos, isso aparece de forma muito concreta. Cada sessão carrega algo que vai além do físico. Existe um desejo ali , de continuar, de não desaparecer, de ainda ser capaz. E talvez seja nesse ponto que o nosso trabalho toque algo mais profundo: não é apenas sobre força muscular, é sobre sustentar a existência.

A ciência confirma parte disso. Um estudo clássico publicado no Journal of the American Geriatrics Society, intitulado “Exercise training and functional capacity in older adults: a meta-analysis”, mostra que o treinamento de força está associado à melhora da funcionalidade e à redução do risco de mortalidade em idosos. Mas, na prática, isso ganha outra dimensão. Não é apenas viver mais, é viver melhor enquanto se vive.

E mesmo assim, por mais que a gente saiba disso, não existe preparação completa para quando um aluno se vai. Porque ali também existe um vínculo. E quando o vínculo se rompe, algo em nós também é tocado. Talvez porque, ao cuidar do outro, inevitavelmente nos aproximamos da nossa própria condição. Afinal, também estamos envelhecendo.

Ainda assim, existe um sentido. E ele não está em evitar o inevitável, mas em adiar o que pode ser adiado e qualificar o tempo que existe. Eu acredito, profundamente, que o meu trabalho aumenta a vida dessas pessoas. Não apenas em anos, mas em presença, em movimento, em possibilidade e em atenção longe da solidão.

E talvez esse seja o propósito mais honesto que encontrei até aqui: ajudar alguém a continuar sendo autônomo. Mesmo sabendo que, em algum momento, todos nós iremos parar.

Mas até lá… a gente segue. Em movimento. Até a próxima!

Rogério Cardoso é personal trainer e preparador físico, membro da Sociedade Brasileira de PersonalTrainer SBPT e da World Top Trainers WTTC.