A Academia Piracicabana de Letras (APL), com 54 anos de história, está consolidada como um espaço de referência na preservação da cultura da cidade. A entidade reúne celebridades, pessoas com uma história rica na literatura, com carreiras respeitadas e consagradas. Pouca gente imagina, no entanto, que a academia tem uma missão muito importante: despertar na criançada o amor pela leitura.
Palestras, eventos e concursos são atividades organizadas com frequência, levadas principalmente para dentro das escolas. E aproximar os pequenos dos livros deixa os acadêmicos entusiasmados.
Eventos que podem parecer brincadeira e lazer acabam despertando o interesse dos baixinhos pelas letras. E o resultado é incrível: a APL consegue revelar novos talentos. Há criança que mal passou dos dez anos de idade e já tem obras publicadas. Para o orgulho dos pais, professores, amigos.
É que os futuros escritores, poetas e educadores hoje são crianças. “Incentivar o hábito da leitura, num mundo de computadores, tablets e celulares, não é tarefa tão fácil. Mas o livro sempre será um caminho encantado para portais mágicos. E existe, sim, um imenso público infantil que gosta de ler e ouvir histórias”, fala a escritora Ivana de Negri, autora de uma série de livros infantis que leva, para as escolas, a história de personagens reais e lendas urbanas.
E os eventos periódicos de incentivo à leitura fazem sucesso. Piracicaba já tem o Dia Municipal do Contador de Histórias. O Sarau dos Contadores de Histórias, na semana passada, foi pura magia. “Criança tem muita imaginação e criatividade, pois, ao ouvirem ou lerem, conseguem se transportar para dentro da história e vivenciá-la”, diz.
Ao lado da escritora Carmen Pilotto, também acadêmica, Ivana trabalha no Projeto Livro com Pezinhos há 15 anos. Já distribuíram centenas de livros e deram palestras em escolas. A ideia é “fazer os livros caminharem e não ficarem embolorando e criando traças numa estante”, observa.
A mascote do projeto é uma centopeia gigante que tem o nome de Leia, escolhido entre vários outros num concurso infantil.
Na Flipira (Festa Literária de Piracicaba), que a Academia realiza em parceria com a prefeitura anualmente, acontece a Flipirinha, espaço infantil, onde são realizadas brincadeiras, oficinas, contação de histórias e distribuição de livros a cada criança.
E a Academia realiza todo ano a entrega do Diploma Thales Castanho de Andrade – que leva o nome do ícone da literatura piracicabana – para crianças e adolescentes que se destacam na arte de escrever. A cada ano, alunos de escolas diferentes são contemplados. São premiados os pequenos que escrevem poemas, os que mais retiram livros da Biblioteca, os que escrevem ou ilustram livros.
A campanha “Uma casa para a palavra”, lançada há duas semanas, busca sensibilizar autoridades e a comunidade em geral sobre a importância da APL conquistar sua sede própria. O objetivo é preservar seu acervo, reunir escritores e leitores e fortalecer a atuação na preservação da memória literária da cidade.
Aurora Montrazi Cázares, uma adolescente que estuda no primeiro ano do Ensino Médio da EE Mello Aires, no São Dimas, é um desses jovens talentos da literatura piracicabana. A garota tem 15 anos. Precoce. Apaixonada pela leitura desde cedo, ela chegou a escrever um livro, O Sonho de Ana, em espanhol. É que ela morava no México, tinha só nove anos de idade. E tem planos para traduzir a obra para o português.
Ora bolas, mas como uma criança pode pegar gosto pela leitura? Influência da mãe, Marcela Montrazi, arte-educadora de 38 anos. Ela tem dois livros publicados e trabalha pela cidade como contadora de histórias.
Em casa, a Marcela, que se separou do ex-marido mexicano e decidiu voltar para Piracicaba, cuida sozinha dos três filhos. Além da Aurora, ela é mãe dos gêmeos Francisco e Pablo, de onze anos. E como a Marcela manda em casa e ponto final, ela decidiu que a criançada ia crescer sem videogame e celular. Colocou os miúdos para ler desde cedo. Um adora quadrinhos, outro devora matérias sobre o corpo humano e é fissurado por mapas. Enfim, não importa o assunto. O legal é que os pequenos cresceram mergulhados nos livros. E a Marcela lia junto, compartilhava, trocava impressões sobre a trama. “Nenhuma criança vai pegar gosto pela leitura se os pais ficam na sala assistindo TV. Os pais têm de ser referência”, diz.
Aliás, o exemplo veio do pai de Marcela, o seo Francisco, homem da roça, que cultivava roseiras no Tupi e se divertia com a filhota declamando poesias. Marcela cresceu e fez da literatura uma proposta de vida. Que durou até a vida adulta. Hoje, Marcela coloca os livros na mala – adultos e infantis – e vai para a praça pública. Lá, ela conta a história dos livros. Desperta curiosidade no povão. E as obras andam, de mão em mão. O projeto se chama “Viajante Literária”. Maior sacada.
Experiência tão marcante que sua filhota, a Aurora, que estudou técnicas de cinema no Sesc e com professor particular, produziu um curta chamado Manoela Missão Cumprida. Protagonizado por atores amigos, que atuaram de graça.
O curta é uma homenagem ao poeta Sérgio Vaz. A personagem Manoela, no caso, faz sucesso distribuindo obras do poeta para frequentadores da praça José Bonifácio. É, a Aurora, que já é escritora, desponta também para a sétima arte.
E bagagem não falta. Além da influência da mãe (que também conta histórias na praça), a Aurora, menina ainda, “se formou” lendo clássicos como O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë – focada na intensa e destrutiva relação entre Catherine e Heathcliff – e A Escolha de Sofia, de William Styron, que relata a história de um jovem aspirante a escritor que testemunha um caso de amor e ódio na cidade grande. É, essa Aurora é desde já candidata a uma cadeira na APL.
O menino Enzo Gabriel Ribeiro dos Santos, de 12 anos, começou a anotar no caderno o que lia sobre navios. E era uma paixão. Sabia tudo sobre transatlânticos. Quando viu, tinha tantas anotações que resolveu organizar tudo em um livro. Mas nem pensou em editora. Escreveu à mão. É, um cadernão gigante, universitário, virou uma obra com textos e desenhos. Que ele mesmo fez. A iniciativa do garoto lhe rendeu admiração dos coleguinhas da Jerônimo Gallo, ali na Vila Rezende, assim como de professores. O moleque acabou indicado e ganhou o Diploma Thales Castanho de Andrade, concedido pela APL. E, depois disso, ele ganhou voto de congratulações da Câmara Municipal. O “livro” traz detalhes de 33 embarcações impressionantes da história. Claro, o Titanic é astro principal da obra. Mas há outros: grandes projetos de engenharia naval e até máquinas usadas em guerra. Ah, um dia, quem sabe, ele consegue publicar o livro na gráfica. E depois vai tocar outras obras. Uma, com certeza, dedicada a aviões. O moleque é o xodó do pai Walberson e da mãe Daiana. Agora também tem fãs na escola nova. A família se mudou e agora o garoto estuda na Eduir Scampari, ali no Alvorada. Tá na cara que vai ser escritor.