02 de abril de 2026
ARTIGO

Sons e aromas de lar

Por Redação/JP1 |
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Divulgação
Cecílio Elias Netto é jornalista e escritor.

Foi num entardecer sombrio. Ou parece-me, agora, ter sido. Na memória, antes de simples vestígios, ficaram detalhes de momentos aparentemente normais que, porém, deixaram marcas. Fazia frio, muito frio. Pelo menos, é o que lhe parecia, ao adolescente retornando para a casa, sem que o idoso de agora se lembre de onde estivera. Mas era um entardecer cinzento, sem o lusco-fusco anunciador de despedida. E, por isso mesmo, quase sempre triste, ao silenciar da natureza.

De frente à Catedral de Santo Antônio – por onde ele passava – a distância até sua casa era, apenas, de dois quarteirões. O silêncio, porém, tanto envolvia as coisas que, no curto trajeto, lhe parecera ouvir o pulsar mais acelerado do coração. Pulsar, talvez, de medo. Não havia ninguém, pessoa alguma, diferentemente do jardim de outros entardeceres, sabendo a melancolia, mas anunciadores de volta ao lar. Casas comerciais, bancos de portas fechadas, o horário de trabalho encerrado; bares vazios. Foi aquele “não existir viva alma”. Nem sequer os sinos bimbalhavam a “Hora da Ave Maria”.  

E o frio, o frio intenso qual fosse garoa invisível buscando os ossos do que estivesse vivo. E o adolescente vivo sabia-se. Sentia-o na carne inquieta. Queria consertar o Mundo, não sabia de quê. Mas queria. No entanto, o frio derrotava-o.

Brasserie, Giocondo, Leiteria Brasileira, Tanaka, Líder, Senadinho – bares acolhedores da juventude, eles próprios apenas de portas entreabertas, envoltos numa penumbra lembrando a luz de velas. A quem recorrer se não mais conseguisse andar, em busca do aconchego do lar? E os planos – dele e de Mariana – de concluírem o curso colegial e irem-se embora, fugitivos de amor? A namorada ainda hesitava, alertada, certamente, pela milenar cautela feminina. E fugirem para onde? E com que dinheiro? O Brasil vivia o caos causado pelo suicídio do Presidente Getúlio Vargas. Que fosse, então, apenas um ranchinho à beira do rio.

O frio, todavia, levava-o a esquecer-se de tudo, tentando chegar à casa dos pais. À casa onde morava, mesmo se tanto desejasse dela ir-se embora, idealizando aventuras com que, talvez, nem Marco Polo tivesse sonhado. Chegar próximo à Tabacaria Tupã – à esquina da rua São José – ver janelas iluminadas do Clube Coronel Barbosa onde homens mais idosos jogavam baralho, alivia-lhe a aflição. Estava em sua rua. E os aromas vindos das casas eram-lhe alegria para o corpo. O cheiro do feijão cozinhando na panela, o de café, alguém estourando milho de pipoca. E os sons que lhe traziam de volta a intimidade que esvanecera com o frio das ruas. Seu pai ao violino, o som do piano ao dedilhar de sua irmã, a caçulinha com o acordeão, a voz da adorável Josefina, a Fina, expulsando alguém da cozinha, o latir do cachorrinho, o rádio ligado, alguém ouvindo novela...

Mal entrou, a mãe gritou, sons de alegria, de medo, de prazer: “Onde você estava?” E o agasalhava com os braços amorosos. E, também gritando, a Fina apressava-se em fazê-lo beber da xícara com chocolate, fumegante. Então, ele teve vontade de chorar, algo como remorso pelos tolos desejos de ir-se embora para o mundo, aventurando-se em busca da Vida.

Foi, talvez, o início de seu mais importante aprendizado do bem viver: nada, absolutamente nada é mais precioso do que o lar. Assim não fosse, por que as avezinhas, em cada entardecer, retornam aos ninhos?

Cecílio Elias Netto é jornalista e escritor.