22 de março de 2026
OPINIÃO

A felicidade nossa de todo dia


| Tempo de leitura: 3 min

Dia 20 de março foi o Dia da Felicidade, me avisaram meus repórteres. A gente chega na meia idade e sente que alguns amores ficaram inconclusos ou então que a gente não pode mais fazer uma declaração de amor ao pai, por exemplo.

Já perdi muita gente. Não tenho mais pai, mãe, sogros e só me resta um tio querido da família Tavares, de mamãe. Meu pai era filho único e tenho agora somente meus parentes distantes de Águas de Lindóia. Nos últimos dois anos, perdi grandes amigos jornalistas, amigos da vida toda, que me recordo diariamente, Alec Duarte e Celsinho Fonseca. Minha vida sem eles é de uma falta de prumo e rumo intelectuais sem fim. Josette Feres, minha musa e orientadora, também partiu, assim como Wagner Nacarato. Não raro, me pergunto o que eles diriam para mim durante as lidas do dia a dia.

Cérebros brilhantes não deveriam se apagar.

Entretanto, a gente segue vivendo. Vive pelos filhos e por si mesma. Cultiva os amigos com carinho, viaja com as amigas e dá risada da idade que chega. Nestes momentos, me recordo que meu pai, aos 83, morreu jovem. Sempre queria saber mais, sempre queria estar informado e queria - pasmem vocês - voltar a trabalhar aos 80. Disse que se arrependia de ter parado muito cedo.

Dito isso, tenho me deparado com a felicidade. Acho o povo brasileiro feliz. Ri das três horas de ônibus diárias, trabalha com alegria e ainda assim tem seu tempinho para o samba e cerveja gelada com os amigos. Estava no Rio de Janeiro, outra semana, e conversava com funcionários de um hotel, onde sobrava simpatia. Falei que SP pode até ter mais eficiência, mas que o atendimento é frio e sombrio. No Rio não, eles querem conversar com você, saber de suas impressões. Em BH, então, te chamam para um chá com prosa.  A vida tem outro ritmo.

E é nesse ritmo diferente que me deparo com o pequeno. Aprendi a ser feliz observando os movimentos dos meus gatos, o crescimento de uma planta, o nascimento de uma flor lá em casa. Todos os dias, troco a água dos beija-flores, pois minha garagem se tornou uma maternidade para eles. Já perdi a conta de quantos filhotes nasceram ali. Converso com meus filhos diariamente e meu papo ou começa ou termina com um eu te amo. Sabe por quê? Já perdi pessoas de um dia para o outro e acho muito válido eles saberem que foram amados até o final.

No budismo, aprendemos que a vida é um relâmpago e é mesmo. Quando a gente viu, já acabou. E a qualidade de nossas relações e nosso comportamento diante das dificuldades diárias é que nos qualificam como seres humanos.

A felicidade está no micro. Nos vizinhos, na comunidade que te cerca. Nos amigos, na família, nos colegas de trabalho e nos nossos pets - que nos mostram a possibilidade de um amor incondicional.

Quem se diz infeliz está perdendo a vida. Normalmente, essa infelicidade está no apego ao seu próprio ego. Se a gente expande um pouquinho nossa visão, vemos que temos motivos diários para comemorar. Sejam felizes!

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ