Existem problemas que não têm solução imediata, mas fazem um barulho irritante. Não quebram nada, não derrubam o prédio, só atrapalham a conversa. Hic! É o soluço. Esse visitante sem educação que aparece do nada, interrompe a frase mais importante e ainda faz a gente parecer possuído por um sapo invisível. O soluço é isso: o corpo dando um pulinho sem avisar, como quem tropeça na própria sombra.
No organismo, o soluço pode ser apenas um solucinho simpático, coisa de refrigerante quente, gargalhada fora de hora ou susto mal dado. Mas quando resolve virar militante, aí complica. Dura horas, dias, tira o sono, atrapalha comer, falar e até pensar. Tem soluço leve, médio e crônico. O último é aquele que parece ter CPF e não paga aluguel.
Agora, basta olhar para o Brasil e perceber: sofremos do famoso soluço político. O país tenta discursar… hic! Vem uma crise. Vai aprovar algo… hic! Briga interna.
Começa a melhorar… hic! Alguém fala besteira. Não é colapso, é engasgo contínuo. Uma democracia com refluxo.
No campo nacional, o soluço político se manifesta em decisões que começam numa terça e terminam numa sexta completamente diferentes. É promessa que engasga, plano que tosse e reforma que dá tranco. Parece carro velho subindo ladeira: acelera, falha, dá soco no motor e o motorista ainda diz “relaxa, é o carburador”. Pois é. O carburador político está mais desregulado que rádio de pilha em tempestade.
Lá fora, o soluço político vira piada diplomática. Um dia o país aperta a mão, no outro dá um hic e solta. O mundo fica esperando o Brasil terminar a frase para poder responder. Credibilidade com falta de ar não impressiona ninguém.
Existem vários tipos de soluços políticos: o populista, que fala tanto que engasga nas próprias palavras; o ideológico, que trava só de ouvir o nome do adversário; o autoritário, que acha que soluçar é sinal de força; e o eleitoral, que só aparece quando tem microfone e voto.
Quando um ex-presidente solta seus hic-hic retóricos por aí, surge a dúvida: é caso isolado ou é sintoma de que o país inteiro está com gases institucionais?
O susto, aquele truque clássico pra curar soluço, aqui não funciona. O brasileiro já levou susto demais. Falta mesmo é respirar fundo, contar até dez e parar de falar enquanto mastiga o microfone. As contrações políticas continuam aparecendo na economia, na educação, na saúde e no humor do povo. O som sai truncado: hic-hic, hic-hic, como se o país estivesse lendo a própria história aos solavancos.
Nosso ex-presidente costuma dizer que o soluço político é culpa do copo d’água, do garçom, da mesa, do passado, do futuro, menos dele. Já em governos com tendência à esquerda, o soluço incomoda ainda mais, porque o discurso promete acolhimento, mas o engasgo atrapalha a entrega.
Em ano eleitoral, talvez seja hora de procurar menos quem grita e mais quem sabe respirar. Menos espasmo, mais constância. Buscar não apenas um salvador da pátria, mas uma solução que não venha acompanhada de hic. E fica o trocadilho inevitável: “um solução” tem solução ou seguimos tratando o soluço com receita caseira?
Enquanto o antídoto não aparece, resta a esperança, esse remédio que não engasga. Que o Brasil beba água, ajuste o motor, alinhe o discurso e solte um grito forte, coletivo e bem articulado: chega de soluço político! Queremos falar bonito, andar reto e respirar futuro sem dar hic no meio do caminho!
Walter Naime é arquiteto-urbanista e empresário.