A Raízen, uma das maiores empresas do setor sucroenergético do mundo, informou que avalia a possibilidade de recorrer a um processo de recuperação extrajudicial como parte de um plano para reorganizar sua estrutura financeira. A medida está sendo considerada em meio ao elevado nível de endividamento da companhia e às negociações em andamento com credores.
Em comunicado divulgado ao mercado na quarta-feira (4), a empresa anunciou que seus acionistas controladores aprovaram um aporte conjunto de R$ 4 bilhões para reforçar o caixa da companhia. A maior parte dos recursos virá da Shell, que deverá investir R$ 3,5 bilhões. O restante, cerca de R$ 500 milhões, será aportado por um veículo ligado ao empresário Rubens Ometto, fundador da Cosan.
Segundo a Raízen, o objetivo é criar um ambiente estruturado e protegido para negociar com credores financeiros e buscar uma solução consensual para o reequilíbrio de suas contas. Entre as alternativas estudadas estão a conversão de parte da dívida em participação acionária, o alongamento dos prazos de pagamento e a continuidade do plano de simplificação dos negócios da empresa.
Esse plano inclui a venda de ativos considerados não estratégicos e a concentração das atividades nas áreas diretamente ligadas ao processamento de cana-de-açúcar e à produção de açúcar, etanol e bioenergia.
A situação financeira da companhia tem chamado a atenção do mercado. Ao final do último ano, a Raízen registrava dívida líquida de R$ 55,3 bilhões, valor 43% superior ao do ano anterior. Quando considerada a dívida bruta, o montante ultrapassa R$ 73 bilhões.
Caso a empresa avance para uma recuperação extrajudicial envolvendo parte relevante desse passivo, o processo poderá se tornar um dos maiores já registrados no Brasil, dada a dimensão da companhia e o volume de recursos envolvidos.
Criada em 2011 a partir de uma joint venture entre a Cosan e a Shell, a Raízen se consolidou como uma das principais processadoras de cana-de-açúcar do mundo e líder global na produção de açúcar. Nos últimos anos, porém, a empresa vem enfrentando uma combinação de desafios financeiros e operacionais.
Entre os fatores apontados estão os elevados investimentos realizados recentemente, condições climáticas adversas que afetaram a produtividade da cana-de-açúcar e incêndios florestais que prejudicaram parte das lavouras. Esses elementos impactaram a produção e contribuíram para o aumento da pressão sobre o caixa da companhia.
Em fevereiro, a empresa chegou a alertar investidores sobre a existência de “incerteza significativa” em relação à sua capacidade de manter as operações sem uma reorganização financeira. A sinalização intensificou as discussões entre acionistas, credores e instituições financeiras sobre possíveis alternativas para estabilizar a situação.
Nos bastidores, fontes do mercado indicam que a Shell também vem mantendo contato com bancos e credores para discutir soluções de capitalização da companhia. Dependendo do formato final da reestruturação e da eventual conversão de dívidas em ações, a participação dos atuais acionistas pode sofrer alterações.
Mesmo diante do cenário desafiador, a Raízen afirma que segue buscando uma solução negociada com os credores e medidas que garantam a continuidade de suas operações e a sustentabilidade financeira da empresa no longo prazo.