Falar em cura pressupõe o processo de restabelecimento da saúde que, por razões diversas, foi perdida. Sob essa lógica, a cura é o movimento em direção ao equilíbrio. O conceito de saúde, entretanto, é amplo e complexo, abrangendo as dimensões coexistentes de cada indivíduo. Na visão integrativa e holística, ser saudável significa sustentar a harmonia entre as funções física, emocional, mental e espiritual.
De todas essas esferas, a mais profunda e causal é a espiritual, a qual, infelizmente, costuma ser a mais negligenciada. Se habitamos temporariamente a dimensão material para cumprir propósitos transcendentes, o nível espiritual deveria ser prioritário, pois ele é o alicerce de todos os outros e o responsável pela sustentação da vitalidade e, consequentemente, da saúde.
A cura integral é, portanto, um processo multidimensional. Diferentes impulsos e abordagens terapêuticas atuam desde o corpo denso até os níveis mais sutis. Para que a harmonia se estabeleça, além dos cuidados físicos, é fundamental curar conflitos, apegos, medos, ilusões e condicionamentos — aspectos da nossa natureza inferior que, por sua própria dinâmica, geram desequilíbrios. Quando essas desarmonias são intensas e prolongadas, acabam por se manifestar no corpo físico, resultando nas conhecidas doenças psicossomáticas.
Nesse sentido, a cura profunda pode ser compreendida como um processo de libertação. Por meio dela, as forças vitais criativas voltam a fluir livremente, promovendo não apenas o bem-estar imediato, mas as condições necessárias para que alcancemos as mais elevadas finalidades existenciais.
Na busca por esse estado, nenhum recurso deve ser descartado: da medicina física e medicamentosa ao suporte psicológico e espiritual. Como a saúde integral representa a harmonia do todo, qualquer negligência em uma área repercute inevitavelmente nas demais. Por outro lado, é possível ter uma vida relativamente saudável, isto é, promotora da realização existencial, mesmo com desarmonias orgânicas. Observamos isso na prática: indivíduos que, apesar de limitações físicas, econômicas ou sociais, possuem uma saúde mental e emocional excepcionais, enquanto outros, donos de corpos temporariamente saudáveis, vagam sem propósito, usando sua vitalidade para satisfazer interesses egocêntricos.
A instrução de Jesus ilustra bem essa dinâmica. Ao curar os enfermos, ele frequentemente afirmava: “A tua fé te salvou”, ressaltando a importância dessa virtude de natureza espiritual no processo de restauração. Ao paralítico curado, recomendou: "Vai e não peques mais, para que não te suceda algo pior". O Mestre ensinava que a cura não era apenas o fim de um sintoma, mas uma oportunidade de regeneração espiritual e de imprimir um novo rumo à própria vida.
Por fim, quando a cura para limitações físicas ou mentais parece inalcançável, tais condições podem ser vistas como recursos terapêuticos da própria Vida. São ferramentas para o restabelecimento de uma harmonia em níveis profundos que a nossa compreensão atual ainda não alcança.
Se não podemos nutrir falsas esperanças em casos graves, não devemos rotulá-los como incuráveis: a Ciência nos surpreende diariamente com novos recursos e, acima de tudo, a fé segue operando prodígios, lembrando-nos de que a vida sempre encontra caminhos para se renovar. Entregar-nos confiantes ao seu fluxo já representa atitude saudável e estímulo curativo, abrindo possibilidades de restauração e permitindo-nos, em quaisquer condições, dar significativos passos na jornada de autorrealização.
André Salum é médico homeopata.