Era dia 16 de novembro, um domingo de noite. Eu estava assistindo TV e minha gatinha Fiona dormia sossegada no tapete ao meu lado, tudo em paz. De repente, do nada, começou a miar estridentemente, rolar no chão, os olhos reviravam e ela se contorcia. Na hora pensei que poderia ser uma picada de abelha ou outro inseto, procurei na pelagem, mas ela continuava a convulsionar. Chamei meu marido e falei : “ela está morrendo!”.
Tentei falar com o veterinário, mas era domingo, e não consegui. Procurei no Google – Pronto Socorro de Animais 24h mais perto de casa – e a levei imediatamente. Lá, iam fazer diversos exames e a deixei internada. Nem preciso dizer que voltei pra casa com o coração sangrando e não dormi naquela noite...
No dia seguinte fui vê-la e estava numa baia, tomando soro e medicação na veia. Pediram autorização para consultar uma cardiologista e uma neurologista. Acabei deixando-a mais um dia internada, mais um dia de muita ansiedade e tristeza.
Fiona tem sete anos, não é idosa. Tenho outra gatinha de dezessete anos, bem mais velha, e está ótima. Tudo apontava para um AVC. Teria de fazer ressonância para ter certeza, mas só fazem esse exame em São Paulo numa clínica especializada.
Decidi trazê-la de volta. Se fosse partir, que fosse em casa, comigo ao seu lado, fazendo carinho e não longe de mim num lugar que ela não conhecia, com pessoas estranhas. Me fizeram assinar um documento que dizia que ela não estava de alta e ficaria sob minha total responsabilidade.
Era a noite de terça-feira e eu trouxe uma gata semimorta, imóvel, olhar fixo no nada. Como não conseguia comer, eu colocava água na boquinha com conta gotas e dava caldinho de sachê na seringa. Quando ela se sujava eu dava banho morno e a enxugava.
Os dias foram passando e ela melhorando. Eu conversava muito com minha gata dizendo que ia ficar boa. Pingava colírio no olhinho do lado do derrame, pois ficou ressecado porque perdeu a sensibilidade e como não piscava, ficava sem lubrificação. A cada três horas, dia e noite, eu pingava o colírio.
Mais umas semanas e comecei a dar pedacinhos de sachê na boca e ela conseguia mastigar. Mas ainda só ficava deitada, do mesmo lado e com movimentos involuntários na cabeça. Mas já olhava pra mim.
Tínhamos uma viagem marcada para início de dezembro, uma semana na praia. E eu sem saber o que fazer. Só eu saberia cuidar dela! Meu marido falou: “há duas opções, não viajar ou levá-la conosco”. E lá fui eu comprar uma casinha de transporte acolchoada e outros apetrechos. No carro, eu dava água numa mamadeira de boneca.
Ela se comportou muito bem na viagem e na semana que ficamos na casa. Eu tratava dela e saía, enquanto dormia num edredom que levei.
Hoje, dois meses depois, ela já bebe água e come sozinha, fazendo um pouco de sujeira, pois ainda está bem desajeitada. E está reaprendendo a caminhar, meio cambaleante. Já não se suja e até brinca, da maneira que consegue, com os brinquedinhos.
Um amigo que teve um cachorro que sofreu AVC e precisou ser sacrificado, perguntou qual medicação ela toma que a fez se recuperar, e eu respondi: “AMOR”!
Várias pessoas, no início, me aconselharam a sacrificá-la, pelo “bem dela.” Mas era visível que não tinha dores, só precisava de ajuda para se recuperar. E queria viver!
Eu sou vegetariana por não concordar com o ato de matar animais para comer. Como eu ia tirar a vida da minha gatinha?
E na contramão de todos os prognósticos, está melhorando a cada dia. Um de cada vez. E sim, o amor cura e faz milagres!
Ivana Maria França de Negri é escritora.