16 de janeiro de 2026
PERSONA

Paulo Estevam Camargo e o futuro da indústria

Por André Thieful |
| Tempo de leitura: 9 min
André Covolam

Em meio a um cenário desafiador para a indústria, marcado por altos custos, falta de mão de obra qualificada e rápidas transformações tecnológicas, o Simespi inicia um novo ciclo de gestão para o triênio 2026–2028. À frente da entidade, o novo presidente, Paulo Estevam Carmargo, fala nesta entrevista sobre as prioridades do mandato, com foco no fortalecimento da indústria regional, qualificação profissional, inovação, defesa institucional e ampliação do diálogo com o poder público, apontando os caminhos para tornar o sindicato ainda mais próximo e estratégico para as empresas. 
       
O senhor assume o Simespi em um momento considerado desafiador para a indústria. Qual é, na prática, a principal missão da sua gestão para o triênio 2026–2028?

Assumo o Simespi em um momento desafiador, mas também de oportunidades. A principal missão da gestão 2026–2028 é fortalecer a indústria da região, tornando o sindicato ainda mais estratégico para as empresas. Isso passa por uma defesa firme dos interesses do setor, especialmente diante de altos custos, burocracia e insegurança jurídica. Outro foco é aproximar o Simespi do dia a dia das indústrias, ampliando serviços, apoio à gestão e qualificação profissional. Também será prioridade preparar as empresas para o futuro, com estímulo à inovação, digitalização, sustentabilidade e formação de mão de obra. A gestão será pautada por representatividade, proximidade e visão de longo prazo, contribuindo para o desenvolvimento industrial e econômico de Piracicaba e região.

Sua trajetória reúne formação em engenharia, economia e empreendedorismo. Como essa combinação influencia as decisões que o senhor pretende adotar à frente do sindicato?

Minha trajetória multidisciplinar influencia diretamente a forma como pretendo conduzir o Simespi. A formação em engenharia traz uma visão prática e orientada à eficiência dos processos produtivos; a economia contribui para decisões mais equilibradas, com atenção aos custos, à competitividade e ao ambiente de negócios; e o empreendedorismo reforça a necessidade de inovação, agilidade e foco em resultados. Essa combinação permite compreender os desafios da indústria de forma integrada, tomando decisões técnicas, sustentáveis e alinhadas à realidade das empresas, sempre com o objetivo de fortalecer o setor e gerar desenvolvimento para a região.

A qualificação profissional aparece como um dos eixos da sua gestão. Quais ações concretas o sindicato pretende implementar nessa área nos próximos anos?

A qualificação profissional será tratada como uma prioridade estratégica da nossa gestão. O Simespi pretende ampliar parcerias com instituições de ensino para alinhar a formação às reais demandas da indústria. Vamos fortalecer programas de capacitação técnica, treinamentos de curta duração e ações voltadas à atualização de lideranças e gestores. Também queremos incentivar a formação de jovens talentos, aproximando estudantes das empresas, e apoiar iniciativas de requalificação profissional, especialmente diante das transformações tecnológicas. O objetivo é contribuir diretamente para reduzir a escassez de mão de obra qualificada e aumentar a competitividade das indústrias da região.

O setor metalmecânico enfrenta carência de mão de obra. De que forma as parcerias com escolas, entidades e o poder público podem ajudar a enfrentar esse problema? 

Sim, a carência de mão de obra é hoje um dos principais desafios do setor metalmecânico. Faltam tanto profissionais qualificados para funções técnicas quanto jovens interessados em seguir carreira industrial. As parcerias com escolas, entidades de formação e o poder público são fundamentais para enfrentar esse cenário, porque permitem alinhar o ensino às necessidades reais das empresas. Por meio dessas parcerias, é possível ampliar cursos técnicos e profissionalizantes, modernizar conteúdos, incentivar a formação prática e aproximar estudantes da indústria desde cedo. O poder público também tem papel importante no apoio a políticas de qualificação, programas de incentivo e na valorização da indústria como geradora de emprego e desenvolvimento.

O senhor acompanhou a evolução do Simespi por quase duas décadas, ocupando diferentes cargos na diretoria. O que muda agora, que assumiu a presidência?

Ao longo de quase duas décadas na diretoria, tive a oportunidade de acompanhar de perto a evolução do Simespi, entender seus desafios e contribuir para importantes avanços. O que muda agora é o nível de responsabilidade e de protagonismo nas decisões. Como presidente, passo a ter uma visão ainda mais ampla e estratégica, com o compromisso de dar continuidade ao trabalho sólido que vem sendo feito, mas também de imprimir um ritmo maior de proximidade com as empresas, modernização da atuação sindical e antecipação de desafios. A presidência amplia o dever de ouvir, dialogar e representar, sempre com foco no fortalecimento da indústria e no desenvolvimento da nossa região.

Em um texto encaminhado à imprensa, o senhor cita que a inovação vai além da tecnologia. Quais mudanças o senhor considera essenciais para que as indústrias da região avancem nesse processo?

Quando falo que a inovação vai além da tecnologia, refiro-me principalmente a uma mudança de mentalidade. É essencial que as indústrias avancem em gestão, processos, modelos de negócio e na forma de desenvolver pessoas. Inovar também significa melhorar a eficiência, estimular a cultura de melhoria contínua, valorizar o capital humano e adotar práticas mais colaborativas. Além disso, é importante fortalecer a integração entre empresas, universidades, centros de pesquisa e entidades, criando um ambiente favorável à troca de conhecimento. A tecnologia é uma ferramenta fundamental, mas o verdadeiro avanço acontece quando há estratégia, pessoas preparadas e disposição para mudar.

Pequenas e médias empresas enfrentam mais dificuldades na adoção de novas tecnologias. Qual será o papel do Simespi para apoiar essa transição?

As pequenas e médias empresas realmente enfrentam mais desafios para adotar novas tecnologias, seja por limitações de recursos, informação ou mão de obra especializada. O papel do Simespi será atuar como facilitador dessa transição, levando conhecimento de forma acessível e prática. Vamos estimular parcerias, promover capacitações, workshops e ações de orientação técnica que ajudem as empresas a entender por onde começar e como investir de maneira assertiva. O sindicato também pode aproximar as PMEs de programas de apoio, linhas de financiamento e iniciativas de inovação, reduzindo riscos e ampliando as chances de sucesso na modernização dos negócios.

A reforma tributária é citada como um tema estratégico. Como o Simespi pode ajudar os empresários a entender e se adaptar às mudanças que estão por vir?

A reforma tributária é um tema complexo e com impactos diretos na indústria. O papel do Simespi é o de atuar como um ponto de apoio técnico para os empresários, traduzindo as mudanças de forma clara e objetiva. Temos promovido debates, palestras e orientações com especialistas, além de disseminar informações qualificadas sobre prazos, impactos e oportunidades. Também é fundamental manter o diálogo com outras entidades e com o poder público, defendendo os interesses do setor industrial e contribuindo para que a transição ocorra com o menor impacto possível sobre a competitividade das empresas.

O chamado “custo Brasil” continua sendo um entrave histórico. Quais pontos mais preocupam hoje o setor metalmecânico da região?

Hoje, preocupam especialmente a elevada carga tributária, os custos trabalhistas, a burocracia excessiva e a insegurança jurídica, que dificultam o planejamento de longo prazo. Soma-se a isso o alto custo de energia, logística e financiamento, que impactam diretamente a produção. Esses fatores reduzem a margem das empresas e limitam investimentos. Por isso, é fundamental avançar em reformas estruturais e manter uma atuação firme das entidades representativas na defesa de um ambiente de negócios mais eficiente e competitivo.

Como se comporta a indústria regional meses depois da imposição do tarifaço do governo norte-americano em 2025? 

Meses depois da imposição do tarifaço pelo governo norte-americano, a indústria regional passou por um período de ajuste e adaptação. Algumas empresas sentiram impactos mais diretos, especialmente aquelas com maior exposição ao mercado externo ou inseridas em cadeias globais ligadas aos Estados Unidos. Houve aumento de custos, perda de competitividade em determinados produtos e necessidade de revisão de estratégias comerciais. Ao mesmo tempo, o setor demonstrou resiliência, buscando diversificar mercados, fortalecer o mercado interno e investir em eficiência produtiva. Nesse contexto, o Simespi se mobilizou ativamente, levando ao vice-presidente e ministro do Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, propostas concretas para reduzir os impactos do tarifaço sobre a indústria, especialmente em atenção às empresas menores que compõem a cadeia produtiva das grandes exportadoras. Essa atuação reforça o papel do sindicato na defesa dos interesses do setor e no apoio às empresas diante de um ambiente internacional mais instável e protecionista.

A expansão territorial do Simespi para municípios da região é uma meta da gestão. O que essa ampliação representa para o sindicato e para as empresas locais?

A expansão territorial do Simespi representa um passo importante para fortalecer a representatividade do sindicato e ampliar sua atuação regional. Ao estar mais presente em outros municípios, o Simespi se aproxima das realidades locais, entende melhor as demandas específicas de cada polo industrial e consegue oferecer apoio mais efetivo às empresas. Para as indústrias, essa ampliação significa acesso mais fácil aos serviços, orientação técnica, informação e representação institucional. Para o sindicato, é a oportunidade de integrar ainda mais empresas, fortalecer o associativismo e contribuir de forma mais direta para o desenvolvimento industrial e econômico de toda a região.

Como o senhor avalia o papel do Simespi no diálogo com o poder público municipal, estadual e federal?

O Simespi tem um papel fundamental como interlocutor qualificado entre a indústria e o poder público nas esferas municipal, estadual e federal. O sindicato atua levando as demandas do setor de forma técnica, responsável e propositiva, contribuindo para a construção de políticas públicas mais alinhadas à realidade das empresas. Esse diálogo é essencial para tratar temas como infraestrutura, qualificação profissional, ambiente regulatório e competitividade. A nossa gestão pretende fortalecer ainda mais essa atuação institucional, ampliando o diálogo, buscando parcerias e defendendo condições que favoreçam o desenvolvimento industrial, a geração de empregos e o crescimento sustentável da região.

     Na sua avaliação, qual é hoje o maior desafio de gestão de pessoas dentro das empresas do setor metalmecânico?

Hoje, o maior desafio na gestão de pessoas no setor metalmecânico é atrair, desenvolver e reter profissionais qualificados em um cenário de mudanças rápidas e escassez de mão de obra. As empresas precisam lidar com novas expectativas dos trabalhadores, especialmente dos mais jovens, que buscam propósito, oportunidades de crescimento e ambientes mais flexíveis, sem perder de vista a produtividade e a eficiência. Além disso, há o desafio constante de capacitar equipes para acompanhar a evolução tecnológica, fortalecer lideranças e engajar as pessoas no dia a dia da indústria. Conciliar esses fatores é essencial para manter a competitividade e a sustentabilidade dos negócios.

Ao final do triênio, que legado o senhor gostaria de deixar para o Simespi e para a indústria regional?

Ao final do triênio, espero deixar um Simespi ainda mais forte, moderno e próximo das indústrias, reconhecido como uma entidade estratégica e representativa. O legado que buscamos é o de um sindicato preparado para os desafios do futuro, com atuação firme na defesa dos interesses do setor, serviços relevantes e impacto real na competitividade das empresas. Para a indústria regional, o objetivo é contribuir para um ambiente mais favorável ao crescimento, com mais qualificação profissional, inovação, diálogo institucional e integração entre empresas. Um legado construído com responsabilidade, visão de longo prazo e compromisso com o desenvolvimento econômico e social da região.