15 de janeiro de 2026
ARTIGO

América para os americanos

Por Kazuo S. Koremitsu |
| Tempo de leitura: 3 min

Maduro durou apenas 47 segundos para cair nas mãos dos Estados Unidos. Nem Osama Bin Laden foi tão fácil. A Venezuela era a última das republiquetas ditatoriais das Américas. E caiu em apenas um dia. A pergunta que se deve fazer agora é: quem será a próxima? Pois certamente haverá uma próxima república.

A doutrina Monroe canta um hino a uma América livre, liderada por ninguém menos que os Estados Unidos. Uma doutrina visionária, anunciada há 203 anos atrás já previa que esse nosso continente deveria ser livre das guerras napoleônicas e - por extensão - das pretensões européias. Um pouco de história: em 1823 o Brasil acabava de proclamar sua independência de Portugal, muitos países seguiram o mesmo rumo libertando-se do jugo da Europa. A Europa havia sido, há pouco tempo atrás, terreno fértil paras as conquistas de Napoleão Bonaparte.

Trump, que de louco não tem nada, reavivou uma doutrina antiga para colocar uma bandeira americana (leia-se norte-americana) em cada um dos países da América. Como ele fará isso, não se sabe. Mas é fato incontestável que nenhum país pode-lhe resistir militarmente. Se a Venezuela caiu em algumas horas, o Brasil, com um pouco de sorte, poderá resistir a 2 ou 3 dias. Mas para tranquilizar os mais aflitos, o Brasil não está na prioridade imediata dos EUA que certamente irá esperar as eleições presidenciais de outubro desse ano. Afinal, é mais estratégico esperar apoios espontâneos do que usar a força bruta.

Isso soa cruel demais? Desculpe aos leitores mais sensíveis, mas a realidade é (e sempre foi) muito cruel. Àqueles que desejam resistir, protestar, repudiar ou invocar sei lá qual teoria para dizer que «os EUA não podem fazer isso», nem percam tempo, é inútil. Também não adianta invocar a luta de Davi contra Golias, num paralelo entre EUA e algum país da América Latina, pois os norte americanos não são um gigante burro e atrapalhado que não sabe lutar (como o da lenda bíblica).

Ao que parece a Colômbia será a próxima. Quem muito provoca o dragão, pode ser por ele queimado. Sábio nosso Lula de ficar em cima do muro e fazer declarações politicamente corretas para um mundo de fantasia. Mais sábio seria se fizesse como Milei, mas aí, já é pedir demais. Parece certo que a estratégia de Trump seja se preparar para uma grande guerra que está por vir. E para isso ele precisa que todo continente americano esteja alinhado ao líder. Enquanto Putin parte para cima da Europa (via Ucrânia) e a China para cima da ilha de Taiwan, a América precisa estar coesa para enfrentar essas duas potências futuramente.

Somos todos americanos, uns do sul, uns do centro e outros do norte. Mas o que todos nós temos em comum, além das nossas republiquetas para inglês ver, é um ego e um ufanismo enorme, mas sem exército para sustentá-lo. Nossa cultura de pacifismo (ou de comodismo) e de anti-militarismo (pois para o Brasil, os militares são nossos inimigos anti-democráticos) nos deu um Estado fraco que não pode defender-se a si próprio nem almejar outras conquistas.

Não se está aqui a defender a força sobre o direito. Mas também não podemos ser ingênuos a ponto de achar que o direito tem algum sucesso contra a força. Aliás, toda a força do direito não está no seu consenso, mas sim na existência de uma punibilidade em caso de descumprimento. E toda punição pressupõe coação e uso da força. E o direito internacional tão citado (e louvado) nesses dias não possui nenhuma penalidade para seu descumprimento. É o que os antigos romanos chamavam de «lex imperfecta», ou seja uma norma que não pode ser exigida. A lei natural de sobrevivência sempre será a lei do mais forte.

Outra pérola a ser conquistada pelos EUA, para além das Américas, é a Groelândia, território além mar do Reino da Dinamarca. E esta será tão fácil quanto a Venezuela. Mas Trump sabe que nem a Dinamarca nem a Europa (sábios como são) irão querer briga com os Estados Unidos. Na guerra que virá, a Europa já escolheu seu lado. Pena que o Brasil ainda não. E isto poderá lhe custar bem caro.

Kazuo S. Koremitsu é economista com doutorado em Direito.