As garotas dos anos sessenta queriam ser como a Brigitte Bardot. Os rapazes, sonhavam namorá-la. A mídia a denominava de BB, forma carinhosa de abreviar seu nome. Dona de uma beleza incrível, rostinho de menina, corpo de mulher, galgou os degraus da fama e elevou o cinema francês à categoria de destaque mundial.
Estrelou filmes que se firmaram campeões de bilheterias como “E Deus criou a Mulher”, quando se tornou símbolo sexual de uma geração.
Seu amor pelos animais a fez deixar o estrelato muito cedo, no auge da fama, aos 38 anos, quando se retirou dos holofotes e criou a Fundation Brigitte Bardot, órgão de defesa da vida animal contra maus tratos e abandono.
Tudo começou durante a produção de um filme onde havia uma pequena cabra no set. O dono do animal informou que ela seria morta no domingo seguinte para a comunhão de seu sobrinho. A atriz ficou indignada com a situação, comprou imediatamente o animal e o levou para o seu quarto em um hotel cinco estrelas, causando um escândalo. Ela citou este incidente, juntamente com outros, como momentos cruciais que a levaram a abandonar a carreira de atriz e a dedicar sua vida à defesa e proteção dos animais.
Usou a fama que adquiriu e investiu o dinheiro que ganhou nessa fundação. E salvou milhares de animais de todo o mundo. Corajosa, comprou muitas brigas. Uma delas porque criticava a imigração de muçulmanos por conta das práticas cruéis que utilizam no abate, quando o animal tem que ser dessangrado por horas até a última gota, sem sensibilização prévia. Por conta disso, foi até condenada por ódio racial, quando na verdade, ela reprovava o abate halal que causa lenta agonia ao animal.
Ela não escolheu amar apenas os animais “aceitos”, mas todos aqueles que sofrem, inclusive os mais injustiçados, perseguidos e invisibilizados. Brigitte amava e defendia as pombas quando poucos tinham coragem de fazê-lo. Quando eram tratadas como praga, ela as enxergava como vidas, como parte essencial do equilíbrio no mundo.
Fama e beleza não trouxeram felicidade a ela. Os homens se aproximavam para ostentá-la como um troféu. E as mulheres a invejavam e a viam como rival e não amiga. Só encontrou felicidade dando voz aos que não podiam falar. Enfrentou ódios de desinformados, pois não tinha especismo, defendia todos os animais igualmente, mesmo pombos, morcegos e ratos. Ensinou que exterminar nunca é solução, que abandono é um crime e a crueldade é ignorância e o amor à criação deve ser ensinado desde cedo.
Foi cantora também, e músicos e cantores do mundo inteiro compuseram em sua homenagem, como uma marchinha de carnaval nos anos 50 composta por Miguel Gustavo, Caetano Veloso cita Brigitte na sua composição mais famosa “Alegria, alegria”, Bob Dilan, compôs "Song for Brigitte", e também a banda Red Hot Chili Peppers, a sueca Therion, Chrissie Hynde, vocalista dos Pretenders entre outros.
Brigitte Bardot transformou sua beleza, que o mundo idolatra, em ferramenta para proteger quem não tem escolha, nem defesa, nem palco. Quando os aplausos cessaram, ela permaneceu. Quando o glamour perdeu o sentido, enfrentou o mundo com coragem. Enquanto muitos usam os animais para entretenimento, ela usou sua fama para salvá-los. Enquanto o sistema pedia silêncio, ela respondia com confronto. Enquanto esperavam vaidade, entregou consciência. Brigitte Bardot nos ensinou que a maior beleza é aquela que protege a vida.
Uma mulher que envelheceu fora dos padrões, sem plásticas e botox, e permaneceu gigante dentro da história. Descanse em paz, Brigitte, missão cumprida! E que sua luta pela liberdade e pelos animais inspire muitas gerações.
Ivana Maria França de Negri é escritora.