15 de janeiro de 2026
ARTIGO

A montanha que moramos por dentro

Por Fabiane Fischer |
| Tempo de leitura: 3 min

Existe um momento na vida em que percebemos que o maior obstáculo não está lá fora. Não é o trabalho, nem a família, nem a falta de tempo, é algo bem mais íntimo, escondido nos cantos silenciosos da mente, onde criamos explicações, medos e hábitos que parecem naturais, mas que nos deixam presos no mesmo lugar.

Esse artigo fala justamente sobre essa barreira invisível que muitas vezes confundimos com personalidade, quando na verdade é só uma estratégia antiga de proteção que continuamos carregando sem perceber. É curioso como mesmo desejando mudanças profundas, acabamos repetindo padrões que nos afastam do que queremos, quase como se estivéssemos defendendo uma versão de nós mesmos que já ficou para trás.

Boa parte dessas travas aparece no dia a dia em forma de procrastinação, dificuldade de avançar em projetos, escolhas que se repetem, promessas que fazemos e quebramos, sonhos que deixamos na gaveta porque “ainda não é o momento”. No fundo, a mente tenta evitar o desconforto das emoções não resolvidas. Quando uma ferida antiga ainda pulsa, ela se manifesta como resistência, medo do sucesso, medo de errar, medo de perder algo que nem sabemos o que é e aí ficamos nesse vai e volta interno, reclamando da vida enquanto, sem perceber, participamos da manutenção do problema. A chave está em entender que isso não acontece por fraqueza. Acontece porque, de alguma forma, acreditamos que ficar no conhecido é mais seguro do que enfrentar o novo, ainda que o novo seja exatamente o que desejamos.

Outro ponto importante é perceber como criamos histórias internas que justificam nossas decisões. Às vezes achamos que não avançamos porque falta oportunidade, apoio ou estabilidade, mas muitas dessas justificativas só encobrem sentimentos que evitamos encarar. O medo de ser visto, de ser cobrado, de decepcionar, de não dar conta, de não corresponder às expectativas que imaginamos que os outros têm de nós. Quando não olhamos para isso, ficamos presos num ciclo de autopreservação que parece racional, mas é emocional e para sair disso é preciso coragem, não aquela coragem grandiosa e heroica, mas uma coragem silenciosa de se observar com honestidade. De perguntar por que determinada situação incomoda tanto, por que repetimos certas escolhas ou por que insistimos em minimizar nossas conquistas quando elas finalmente chegam.

Quando começamos a enxergar essas camadas internas a crítica diminui e de repente entendemos que não somos nossos erros, nem nossas reações automáticas.

Somos pessoas tentando se sentir seguras, mesmo que às vezes façamos isso com estratégias que já não funcionam. Esse entendimento abre espaço para uma postura mais gentil, que não procura culpado, mas sim solução. E é aí que algo muda, em vez de lutar contra nós mesmos, passamos a nos escutar. E quando a escuta melhora, a mudança chega com menos violência e não é sobre controlar tudo e sim sobre deixar de agir no modo automático. É sobre assumir a responsabilidade de crescer, mesmo que isso envolva desconforto, paciência, disciplina emocional e vontade contínua de tentar de novo.

A montanha interna não desaparece de um dia para o outro, ela é feita de lembranças, crenças e emoções acumuladas ao longo de anos. Mas cada passo dado com consciência, cada escolha que desafia o padrão antigo, cada momento em que respiramos fundo e seguimos mesmo com medo, tudo isso vai abrindo caminho e quando percebemos, já não estamos lutando contra a montanha. Estamos subindo por ela com mais leveza, entendendo que o desafio sempre foi um convite para voltar a quem realmente somos. A montanha continua ali, mas agora faz parte do caminho, não da prisão. E quanto mais avançamos, mais fica claro que a força que buscávamos fora sempre esteve dentro, esperando apenas ser despertada. Com carinho, Fabiane Fischer.

Fabiane Fischer é especialista na recuperação de dependentes químicos, abusos e compulsões.