Em meio a um cenário econômico marcado por incertezas, pressões internacionais e debates sobre competitividade industrial, o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Piracicaba e Região encerrou mais uma campanha salarial com aumento real pelo terceiro ano consecutivo. Para detalhar os bastidores das negociações, os avanços conquistados e os desafios que persistem — desde a qualificação profissional até os reflexos do tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos — o presidente do sindicato concedeu entrevista ao Jornal de Piracicaba. Ao longo da conversa, ele avaliou o comportamento da classe patronal, comentou os impactos das novas tarifas norte-americanas e destacou a importância da mobilização dos trabalhadores para fortalecer as próximas campanhas.
Como o senhor avalia o resultado final da campanha salarial deste ano? O que considera avanço?
Pelo 3º consecutivo conseguimos o aumento real, que é o reajuste acima da inflação. Além do reajuste de 9% na cesta básica, o 15% da cesta especial de natal, PLR com direito para todos os metalúrgicos independente da quantidade de trabalhadores nas empresas e renovação das 84 cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho.
O ganho real também está no vale alimentação, onde o trabalhador tem o poder de compra. Um benefício esperado por todos, e sem gerar imposto, os chamados e indesejáveis “descontos”.
Todos esses pontos apresentados são conquistados que precisam ser comemoradas.
Nós, que representamos os trabalhadores sempre buscamos ainda mais, mas reconheço que não foi uma negociação nada fácil.
Posso citar como um dos avanços, o expressivo apoio recebido pelos trabalhadores nas Assembleias. Foi notoriamente superior do que nos anos anteriores. Isso fortalece a categoria. Pode ter certeza, que a categoria unida e com maior apoio, ninguém supera nossa força e mais conquistas serão possíveis.
Como foi a negociação com a classe patronal?
Para chegar ao resultado tivemos várias rodadas de negociação. Confesso que esse ano, tivemos mais dificuldade de chegar ao aumento real e as outras conquistas. Porque o empregador sempre tem justificativas, principalmente a cerca do atual cenário que é o tarifaço. E que no dia 20 de novembro, teve nova página apresentando uma nova lista de produtos que terão a tarifa de 40% retirada, entre eles, o café, carne e laranja.
A indústria funciona como uma cadeia produtiva, onde o conjunto de atividades são interligadas. Por mais que Piracicaba não produza equipamentos para determinados setores que estavam incluídos no tarifaço, o empregador tem sempre previsões que podem comprometer o seu desempenho.
O reajuste conquistado cobre a inflação do período?
Para chegar a uma proposta analisamos a inflação de 1 de novembro de 2024 a 31 de outubro de 2025, que teve sua média de 4,49. Nosso trabalho árduo é estar acima da inflação, ou seja, ter o reajuste salarial que supera a inflação do período.
Para ser mais didático, a inflação mede quanto os preços aumentaram, o reajuste salarial nominal, que esse ano foi de 5,0% é o total de aumento aplicada ao salário e o chamado aumento real é o quanto o salário ganhou de poder de compra além da reposição da inflação.
E também preciso reforçar, o ganho real do vale alimentação.
Portanto, o reajuste conquistado pelo 3º ano consecutivo cobre a inflação.
Atualmente, quais os benefícios que o sindicato oferece aos associados?
Primeiro eu gosto de ressaltar os direitos, pois, se não fosse a Convenção Coletiva de Trabalho que é uma conquista da atuação do nosso Sindicato, não teríamos 84 cláusulas vigentes, que contemplam desde o reajuste salarial anual, PLR, CIPAA, segurança de vida, licença e muitos outros.
O seguro de vida é algo sempre delicado de ser falado, porque liga a um fator que não gostamos de conversar, que é a morte. Mas, isso está contemplado em nossa Convenção Coletiva, onde a família recebe apoio financeiro, em caso de perda do seu ente querido.
E quando falamos em benefícios, atualmente em nossa sede, contamos com espaço para homologação, onde o trabalhador pode tirar suas dúvidas e as empresas ter o acompanhamento devido, departamento jurídico que atende causas trabalhistas e civil e 14 gabinetes odontológicos. Além do acesso fácil aos diretores de plantão.
Contamos também com as subsedes na cidade de Rio das Pedras e na região de Santa Terezinha em Piracicaba, com atendimentos médicos, psicológicos e de nutricionista com valores extremamente acessíveis.
O Clube Recreativo da categoria oferece atividades de esportes, lazer e entretenimento para todas as idades. Além da Colônia de Férias na Praia Grande.
Prezamos muito pela saúde do trabalhador, pois, cada vez mais identificamos a necessidade de equilibrar trabalho e lazer.
Também destaco, o trailer Sorriso Cidadão que tem 11 anos, uma iniciativa do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Piracicaba e Região e apoiado pela Hyundai e fornecedores do Parque Automotivo, tendo como parceiros, a Albus Dente e as prefeituras de Piracicaba, Rio das Pedras, São Pedro e Águas de São Pedro. O trailer que funciona como um consultório odontológico, leva tratamento as crianças da rede municipal de educação, corporação de segurança e entidades. Isso graças também aos trabalhadores que abraçam o nosso Sindicato.
A negociação deste ano trouxe algum precedente importante para as campanhas salariais futuras?
A negociação estabeleceu precedentes importantes para as próximas campanhas salariais. Primeiro, conseguimos reafirmar que a reposição integral da inflação é um ponto de partida — e não um teto — para qualquer acordo. Isso fortalece nossa referência para os próximos anos. É bom o trabalhador entender isso, é como o salário mínimo, ele serve como referência.
Segundo ponto, é que através dos ganhos reais e cláusulas sociais, abrimos discussão para a escala 5x2, que é um objetivo também da nossa categoria. É um caminho a ser trilhado, não tão fácil de ser alterado, mas extremamente possível visto a justificativa real com dados do absenteísmo, doenças emocionais e a falta de motivação dos trabalhadores.
E, por fim, o processo deste ano mostrou que a categoria está se mobilizando, atuando junto ao Sindicato. Esse é o maior precedente, provar que organização e unidade dão resultado. Esse aprendizado vale para todas as campanhas futuras.
Como o senhor avalia a adesão dos trabalhadores a programas de formação profissional para a área metalúrgica?
Há necessidade de ter mais oportunidade quando o assunto é formação profissional. Estamos projetando cursos e estruturando parcerias para também oferecer mais oportunidades aos trabalhadores.
E sempre estamos buscando novas frentes. E neste ano, uma das conquistas veio junto com a prefeitura de Piracicaba, por meio da Secretaria de Trabalho, Emprego e Renda (SERT), com a vinda de uma verba destinado ao apoio de cursos de qualificação profissional. Então, no próximo ano, contamos com novas possibilidades para a formação do profissional metalúrgico.
Alguns setores da economia têm encontrado dificuldade para preencher vagas. Essa é uma realidade também para o setor metalúrgico?
Essa dificuldade também aparece no nosso setor, e não podemos dizer que é a falta de trabalhadores, mas uma junção de fatores, onde é preciso um empenho dos empresários e do poder público, e uma atuação em conjunta com o Sindicato.
É preciso ampliar as vagas em cursos técnicos e específicos como, solda, usinagem CNC e qualidade. O país muito investiu em cursos de formação superior, e pouco investiu nas escolas profissionalizantes.
As empresas também precisam adotar a consciência de oferecer programas internos de qualificação. Esse é um papel de todos, empresas, Sindicato e iniciativas públicas, como a qual aconteceu junto a SERT.
O sindicato oferece ações para formação profissional de trabalhadores?
Nosso Sindicato tem parcerias com escolas técnicas e universidades para que o trabalhador tenha descontos nas mensalidades durante todo o curso.
Oferecemos também reciclagem aos cipeiros e aos profissionais de recursos humanos. Inclusive, o Encontro do Cipeiros está em sua 13ª edição, já sendo considerado uma tradição.
Em ambos os eventos recebemos profissionais altamente qualificados para abordar temas e tendências do setor.
Como o senhor avalia o impacto das condições atuais de trabalho no setor metalúrgico da região? Há demandas urgentes a serem enfrentadas?
A situação atual do trabalho no setor metalúrgico exige atenção. Cada época da nossa vida é uma exigência ou uma necessidade, não é?
Temos um canal de denúncia anônima em nosso Sindicato, onde mais que metade é referente a assédio moral. Isso é extremamente preocupante.
Nos últimos anos, temos observado um aumento na pressão por produtividade e ambientes de trabalho mais tóxicos.
O trabalhador busca o espaço do Sindicato para garantir o seu direito. Sem dúvida, a saúde mental é um pedido urgente. Tanto que oferecemos atendimento psicológico e neste ano, no evento chamado, Café com RH, trouxemos esse tema como discussão.
Como o sindicato analisa a decisão recente do governo dos Estados Unidos de elevar tarifas sobre produtos brasileiros, especialmente aqueles que impactam o setor metalúrgico?
Bom, como até respondido aqui, não existe um impacto direto. Mas, a indústria é uma cadeia produtiva, então, as discussões até mesmo referente a Campanha Salarial ficam mais engessadas.
Agora, com a nova decisão do governo Trump na última quinta-feira, já podemos ver como mais conforto a situação.
É possível perceber algum reflexo dessa medida nas empresas da região? Existe risco de redução de produção ou de postos de trabalho?
O setor está sempre em crescimento. Hoje, falamos e analisamos muito a China que está chegando cada vez mais ao Brasil, e com produtos atrativos.
Só que a indústria é esse movimento de desafios. A concorrência sempre existiu.
Piracicaba conta com grandes empresas, com notoriedade mundial e com elas têm profissionais qualificados e estratégicos para acolher os desafios e trabalhar de maneira assertiva.
Não consigo identificar riscos em redução de produção e nem mesmo postos de trabalho. A cidade e região estão localizados em ponto estratégico, próximo a capital, grandes centros, rodovias que favorecem o transporte e a logística. E ainda, recentemente, a Câmara Municipal de Piracicaba aprovou em segunda discussão, a criação do Distrito Industrial Norte II.
Tudo isso favorece os negócios, o que gera emprego e renda. Estou bastante otimista para o ano de 2026.
O sindicato tem dialogado com as empresas ou com entidades nacionais para avaliar estratégias de enfrentamento a essa política tarifária?
Eu estive em Brasília para uma reunião com o vice-presidente da república, Geraldo Alckmin, sobre os reflexos do tarifaço em Piracicaba. Juntamente com a comitiva intermediada pela deputada estadual, a Profa. Bebel, que contou com a presença do prefeito Helinho Zanatta, empresários e lideranças locais.
Também faz parte da rotina da nossa diretoria, diálogos permanentes a respeito do tema, junto aos empregadores e nossa Federação.
Os resultados de toda a mobilização estão chegando com o anúncio desta semana, que já é uma vitória para todo o trabalhador brasileiro.
Na sua visão, qual deveria ser a resposta do governo brasileiro para mitigar os impactos dessas tarifas sobre a indústria local?
A resposta está sendo dada. Com as negociações avançaram entre o governo brasileiro e o governo americano. Os produtos brasileiros têm grande importância para os Estados Unidos, inclusive o café, que sofreu alta para os americanos. E naturalmente, a população reage mostrando sua insatisfação, e o governo americano, mesmo sendo “durão” precisa abrir para negociações.
O médio e longo prazo, essas barreiras podem alterar o perfil produtivo da região? O sindicato está se preparando para esse cenário?
O perfil produtivo de Piracicaba e Região já é bem diversificado. E muitas empresas se sentem atraídas a se instalar aqui, por pontos que já apresentei nessa entrevista. A multinacional espanhola Gestamp é um excelente a ser destacado, está em plena construção no Parque Automotivo, e deve gerar cerca de 500 empregos.
A nossa diretoria é atuante e está acompanhamento a movimentação do mercado, e esteja certo, que boas novidades estão por vir.
O Sindicato tem 78 anos de história, nossa experiência trouxe também dessabores. Mas, tudo isso faz parte de um ciclo, é preciso entendimento, conhecimento e força para driblar toda a situação.
Acreditamos na força do trabalhador, na indústria e em nossa cidade, que leva nossos produtos para o mundo.