No principio era o silêncio...
E a palavra o invadiu. E as coisas foram sendo criadas.
O silêncio está no início de tudo, é infinito e consegue penetrar as frestas, até chegar ao interior das almas.
Nele habitam as palavras abortadas, as cores e aromas, todos os segredos do universo e é onde moram e brotam os sentimentos.
Anjos e santos mergulham no silêncio para recolher as preces e atendê-las.
Tudo dorme no silêncio, mas, ao mesmo tempo, tudo fervilha dentro dele.
O silêncio serve de asilo às palavras pensadas. Em seu âmago não entram batuques, badalar de sinos, buzinas, rojões, uivos, canhões de guerra, estampidos de armas de fogo, nem o tic-tac dos relógios. Não se pode ouvir nem mesmo o som de uma folha seca de outono caindo na relva ou o leve sibilar das brisas.
Mas vive no silêncio uma profusão de cores, uma explosão de vida! Uma vida rica, farta e profunda. O planeta todo é um organismo vivo em constante mutação.
Tudo nasce, cresce, se move e morre, na cadência inaudível do universo: “Ommm...”
Tudo clama por silêncio, por sua harmoniosa sinfonia que cura todos os males e aproxima do Criador.
A maioria dos seres humanos prefere viver no mundo ensurdecedor que estilhaça o silêncio e fecha seus abençoados portais. São arrastados para um mesmo calabouço, em zonais abissais, que entorpecem os sentidos e aprisionam a alma.
Habitam o silêncio: o amor, a dor, mesmo a ira e a raiva podem ser encontrados nele. No interior das bibliotecas, todos os livros se encontram no silêncio. Vez ou outra afloram, numa enxurrada de palavras, quando são lidos.
O ruído agride e fere. O silêncio afaga e aquece. O som do tambor faz o coração pular, parecendo querer saltar pra fora do peito. O silêncio aquieta o coração.
A maior expressão do amor é o silêncio, pois muitas vezes, palavras são inúteis e não traduzem o que transborda na alma.
O silêncio fala, e chega a gritar mais alto do que o discurso mais eloquente. A verdade é revelada no silêncio.
Florestas respiram silenciosas, estrelas brilham mudas. Até a deusa Lua, em seus dias de esplendor, e o rei Sol com seus raios flamejantes, são silentes em seus papeis de iluminar e trazer vida desde tempos imemoriais. Águas rasgam-se nos vãos das rochas e discursam caladas.
Olhos esbugalhados, desprovidos de palavras, fazem sermão eloquente.
Silêncios voláteis sussurram sob as tumbas, ressoam pelos umbrais e nas torres das catedrais. Nas masmorras, nos porões, tudo fala, tudo berra, tudo grita, mas só uns poucos eleitos têm ouvidos de ouvir silêncios...
Silêncio é pausa para reflexão, refúgio dos grandes mestres, necessário para a meditação, mediador para o transe profundo que liga as almas ao Universo.
Silêncio é pausa, é sossego, é calma, é descanso, e antecede o ato de se recolher.
Silêncio é proteção, é mistério, barreira intransponível.
Silêncio é terapêutico e cura diversos males. É remédio para mazelas da alma.
O silêncio é liberdade, é virtude, é sabedoria, prudência, energia. É a oração dos sábios, música para o espírito.
Só ouvindo e compreendendo a voz do silêncio, encontramos a verdadeira Paz.
E é no silêncio que viajamos para dentro de nós mesmos e, ao descobrirmos nossa essência, encontramos Deus!
Ivana Maria França de Negri é escritora.