08 de julho de 2026
EDVALDO BRITO

'A política não é sobre vaidade, é sobre servir'

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 7 min
Foto: Arquivo/JP
Edvaldo Brito, jornalista, empresário e secretário-geral estadual do partido Avante é o destaque da semana

Em um momento em que o país vive intensos debates sobre democracia, liberdade de expressão e equilíbrio entre os poderes, o empresário Edvaldo Brito, presidente do Avante, em Piracicaba, conversa com o JP e compartilha suas visões sobre política nacional e internacional. Com respostas firmes e sem rodeios, ele fala sobre os desafios da juventude na vida pública, as tensões em Brasília, a relação do Brasil com outras potências e o que esperar das eleições de 2026.

Com a sua experiência em política, que conselho você daria aos jovens políticos?

Eu diria para não perderem o senso de missão. A política, quando feita com propósito, não é sobre vaidade, holofote ou simplesmente disputar cargos. É sobre servir. O jovem que entra na vida pública precisa ter valores firmes, aprender a escutar e entender que será testado o tempo todo. Não se trata de agradar todo mundo, mas de defender o que acredita, mesmo quando for minoria. Se você tiver clareza do que representa, não vai se perder no meio do barulho.

Como você vê hoje a relação entre os três poderes em Brasília?

Desequilibrada. O Judiciário tem ocupado um espaço que não lhe cabe, tomando decisões que muitas vezes deveriam passar pelo Congresso. Isso tem gerado um ruído institucional enorme. O Executivo, por outro lado, parece refém dessa nova configuração, e o Legislativo, quando não se cala, se omite. O resultado é um país sem previsibilidade, onde decisões importantes são tomadas por pessoas que não foram eleitas pelo povo. Isso corrói a confiança na democracia.

Afinal, quem são os representantes do povo numa real democracia? 

São aqueles que passaram pelo crivo das urnas. O povo escolhe deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores, presidente. Essa é a base da democracia representativa. Quando quem não foi eleito começa a assumir protagonismo e impor suas vontades sobre os demais, algo está fora do lugar. A população precisa entender que, goste ou não de determinado político, ele está ali porque recebeu votos — e isso tem um peso que deve ser respeitado.

Cargos altos da procuradoria nacional e do supremo tribunal são indicados e vitalícios. Acha que isso deve mudar?

 Sim, e com urgência. Não é razoável que alguém permaneça por décadas num cargo de tamanha influência sem prestar contas à sociedade. O modelo atual favorece o distanciamento da realidade e, em muitos casos, a formação de “castas intocáveis”. Mandatos com prazo definido, sabatinas mais rigorosas e critérios objetivos de escolha tornariam o sistema mais justo, mais transparente e mais conectado com a vontade popular.

Como você enxerga as sanções de Trump ao Brasil?

Hoje, com Trump de volta à presidência, não estamos falando de sanções econômicas diretas, mas de um desgaste político real. O governo americano observa com desconfiança o que aconteceu aqui: um julgamento que tirou Bolsonaro da disputa eleitoral, num processo que muita gente vê como mais político do que jurídico. Trump e Bolsonaro sempre tiveram afinidade ideológica, então é natural que os Estados Unidos, sob essa nova gestão, olhem para o Brasil com mais frieza. O recado é claro: não dá pra falar em democracia plena quando um ex-presidente com apoio popular é barrado por decisões que levantam tantas dúvidas. Isso acaba afetando a credibilidade do país lá fora, inclusive nas relações com parceiros históricos como os EUA.

Olhando para o cenário mundial hoje parece que os países estão se aliando em blocos novamente, o que você acha? Será que teremos uma 3ª Guerra Mundial?

O mundo está, sim, se reorganizando. A disputa entre potências voltou ao centro da geopolítica, agora em formatos novos: guerra tecnológica, controle de dados, influência cultural. Não acredito numa guerra nos moldes das anteriores, com tanques e trincheiras, mas vivemos um conflito permanente de narrativas e interesses. E o Brasil precisa escolher com cuidado de que lado quer estar, que deve ser o da liberdade, empreendedorismo e prosperidade. Neutralidade ou escolher a censura, o Estado e a pobreza irá custar caro por gerações.

O Brasil está namorando a China e brigando com os Estados Unidos da América. Será isso uma boa escolha?

Não. É um erro estratégico, motivado puramente por ideologia marxista. A China não é um parceiro comercial qualquer, é um regime autoritário que persegue, censura e controla. Não podemos fechar os olhos para isso. Os Estados Unidos, com todas as suas falhas, são uma democracia, compartilham valores ocidentais conosco e sempre foram aliados importantes. Virar as costas para os americanos e se aproximar demais da China enfraquece nossa posição global e pode nos colocar em situações desconfortáveis no futuro. Coloca o futuro do Brasil em risco.

Voltando para nossa política nacional, o que você espera para as eleições de 2026?

Espero que o povo desperte. Que entenda o que está em jogo e escolha lideranças que respeitem as liberdades individuais, a propriedade privada, a família e a Constituição. Estamos vivendo um momento delicado, onde o Estado tenta se expandir para controlar a opinião, as redes, os costumes. 2026 precisa ser um ponto de virada. É hora de parar de votar em quem promete tudo e começar a votar em quem tem coragem de dizer verdades, mesmo que custe votos.

É possível hoje confiar nas pesquisas de intenção de voto? Ou elas estão sendo manipuladas de alguma forma?

 É preciso olhar com desconfiança. Muitas vezes, as pesquisas criam uma falsa sensação de maioria para determinados candidatos ou ideias, moldando o comportamento do eleitor. A metodologia é opaca, os institutos têm vínculos e, no fim, quem paga a pesquisa quase sempre sai bem nela. Isso não significa que todas sejam falsas, mas o histórico recente já mostrou que não são instrumentos neutros. Cabe ao eleitor buscar outras fontes e não se deixar influenciar por manchetes. Conversar com as pessoas na rua é a única pesquisa 100% confiável.

Por que os nossos juízes, inclusive da mais alta corte, aderiram a esse “ativismo judicial” e, mesmo não sendo eleitos pelo povo, assumem as rédeas da governança nacional?

Porque encontraram espaço. O ativismo judicial cresceu à medida que os demais poderes se omitiram. Quando o Congresso deixa de legislar ou quando o Executivo abre mão da autoridade, o Judiciário avança. E muitos ministros passaram a se ver como atores políticos, não mais como guardiões da Constituição. O problema é que eles não respondem à população, não precisam se reeleger. Isso cria um poder quase absoluto, o que é muito perigoso para a democracia.


Nesse cenário, o papel dos presidentes da Câmara e do Senado se torna fundamental. Mas, a seu ver, será que eles se acovardaram? 

Acho que faltou e falta coragem, sim. Em muitos momentos, era papel deles defender a autonomia do Legislativo, mas preferiram o silêncio. O Parlamento é a casa do povo, não pode ser submisso. Quando um ministro do Supremo interfere em decisões que cabem aos deputados e senadores, é o presidente da casa que precisa se posicionar. O problema é que há muito interesse envolvido, muitas alianças nos bastidores, e quem paga o preço por essa omissão é a própria democracia.

Agora é comum penas de supressão ou proibição de uso das redes sociais para quem critica processos em andamento, a polícia federal ou as eleições. Será que a censura voltou?

Na prática, sim. Podemos chamar do nome que for, mas se uma pessoa é impedida de se expressar porque questionou uma autoridade ou um processo, isso é censura. É grave. E o pior é que muita gente aplaude esse tipo de decisão, achando que é só contra o “inimigo político”. Mas amanhã pode ser contra qualquer um. A liberdade de expressão não pode depender do conteúdo do que é dito. Ou vale para todos, ou não é liberdade.


Podemos confiar hoje nas urnas eletrônicas? Será que em 2026 poderemos confiar na somatória dos votos dos eleitos?

 A confiança é construída com transparência. Não basta dizer que o sistema é seguro. É preciso que qualquer cidadão, mesmo sem ser especialista, consiga entender como o processo funciona e verificar os resultados. O voto impresso auditável não é retrocesso, é um avanço em termos de controle e credibilidade. Se a eleição é o momento mais importante da democracia, ela precisa ser à prova de dúvidas. Só a transparência pode resolver isso, ou muitos continuarão a não acreditar no sistema.