08 de julho de 2026
PERSONA

Marly Perecin e a importância histórica de Piracicaba

Por André Thieful |
| Tempo de leitura: 8 min
Will Baldine/JP
A professora e historiadora Marly Therezinha Germano Perecin

Nascida em Taquaritinga, a professora e historiadora Marly Therezinha Germano Perecin foi criada em Piracicaba, para onde seus pais se mudaram quando ela tinha três anos. Desde então, a cidade tornou-se o cenário central de sua vida. Foi o lugar onde se casou, teve filhos e netos, e desenvolveu sua carreira. Sua ligação com a cidade vai além do pessoal. Envolve uma conexão pelo rio Piracicaba e suas margens, locais que marcaram sua infância.

Ao longo dos anos, a beleza natural e a história de Piracicaba inspiraram sua trajetória acadêmica. O rio deixou impressões que se refletiram em sua paixão pela história e pela educação. Em seus livros e em suas aulas, ela incorpora as narrativas e experiências vividas e compartilha com seus alunos e leitores a riqueza histórica da região.

Nesta entrevista, a professora revela como essas influências moldaram seu percurso e como Piracicaba continua a ser uma fonte inesgotável de inspiração para seu trabalho acadêmico e literário.

Gostaria que contasse um pouco sobre a fundação de Piracicaba e a importância não apenas de se conhecer as origens da cidade onde vivemos, mas sobre a importância de preservarmos a história.

 A comunidade de Piracicaba nasceu propriamente do rio. A primeira tentativa está ligada à abertura da estrada do Perdão, em 1723, da qual resultou a sesmaria de Felipe Cardoso. A segunda tentativa correu em 1767 por conta de Antônio Corrêa Barbosa, o construtor de barcos para a navegação do Tietê e Paraná, por ocasião das guerras de fronteira no Sul e da fortaleza do Yguatemi. A terceira foi da iniciativa do capitão-mor de Itu, Vicente da Costa Taques Goes e Aranha, que numa experiência salvacionista trouxe a fronteira agrícola, com os seus canaviais, escravaria e engenhos, a partir de 1784. Foi a que deu certo e nos trouxe ao tempo presente.

Também gostaria de uma análise sobre a palavra caipira e a sua origem. Podemos dizer que o termo, frequentemente usado de forma pejorativa, principalmente nos grandes centros, é motivo de orgulho para o piracicabano? Amadeu Amaral, Cornélio Pires e Aluísio de Almeida em suas obras nos dão as principais informações do caipira, o seu modo de viver, pensar, agir e falar num dialeto próprio. Explicamos que somente um povo que viveu por séculos em isolamento, serra acima, na capitania de São Paulo, pôde desenvolver esta cultura chamada caipira que entrou em recesso no século XX, por força das grandes transformações da sociedade paulista. O caipira é o antigo paulista, do vale médio do rio Tietê e por extensão, do Oeste Paulista. Tudo indica que a formação léxica do termo provém de caa (mata), y (rio), pihá (escada), ara (morador). Ou seja, aquele que vive ao longo do rio que desce pela mata. Ser caipira é pertencer a uma cultura muito antiga, não é motivo de zombaria; ao contrário é razão de certo orgulho, assim nascemos, aqui vivemos. Não somos únicos; quantos milhares de habitantes possui o Oeste Paulista?

A senhora, entre várias passagens importantes pela história de Piracicaba, é uma das fundadoras do IHGP. Qual a importância do instituto, atualmente? Sou uma das fundadoras do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, em 1968, uma realização consequente do primeiro Simpósio de Estudos Piracicabanos, ocorrido no ano anterior e no qual participaram os grandes nomes da historiografia brasileira. O IHGP cresceu ao longos dos anos e hoje possui um admirável acervo aberto aos pesquisadores. Também oferece publicações valiosas à história de Piracicaba. Falta-lhe apoio financeiro e compreensão das suas verdadeiras finalidades.

Em 2021, em uma entrevista ao JP, a senhora disse que faltava escrever um romance histórico para completar o ciclo compreendido entre a Revolução Liberal de 1842 (ou a Guerra do Açúcar) e a morte de Prudente de Moraes, em 1902. Essa proposta avançou?

Sou historiadora de formação, os meus trabalhos têm sido na linha de monografias e teses, porém, sem saber os exatos porquês, construí uma tetralogia, “Encontro das Águas (1723-1904)”, a série dos romances históricos, Ypié (Maria dos Anjos), Yguatemi, Candeias em Espelho D’ Água e Rosarinho. A construção narrativa integra o ficcional, mas a abordagem é sobre a história paulista e piracicabana, baseada no rigor da metodologia e da documentação, só não leva notas de rodapé ou bibliografia, mas oferece glossário para os leitores. A intenção é ensinar divertindo.

Qual é a importância de Piracicaba, atualmente, no desenvolvimento regional?

Entendo a importância de Piracicaba no quadro regional das comunidades e a integração pode se operar nos mais diversos níveis, a partir dos quais se darão outros saltos para o futuro. Os jovens colherão os frutos.

Como a senhora vê o papel da educação histórica na formação dos cidadãos?

Educação é a base de qualquer projeto de nação. O lar e a escola se completam no trabalho de formação da cidadania. Sem o cidadão consciente não pode funcionar a contento o governo representativo próprio da república democrática. Sem Educação e Democracia, a república vai para o ralo, como temos visto nas Américas e no mundo.

Como a história pode ser usada como ferramenta para promover mudanças sociais?

A ferramenta da Educação é o ensino com toda a sua potencialidade. As ciências entram nos currículos e fazem o seu papel através das disciplinas. A História é uma delas e tem a sua necessidade na medida em que revela as experiências humanas através do tempo e leva à interação com outras áreas de conhecimento e à tomadas de consciência nos rumos de uma liberdade participativa. A tecnologia traz um apoio incalculável, mas o professor é a pessoa anônima que sustenta o processo educacional.

Qual é a sua opinião sobre a preservação do patrimônio histórico de Piracicaba?

atrimônio histórico é tema de grande seriedade. O que mais se percebe em Piracicaba é o confronto das opiniões com base no “achismo”, que a nada leva e só atrapalha. Quem responde pelo patrimônio histórico são os órgãos especializados IPHAN e CONDEPHAT. A eles se deve recorrer em todos os casos de demanda sobre o tema. Foi o que o IHGP fez por ocasião do tombamento da chamada “Casa do Povoador”.

Quais são os mitos ou equívocos comuns sobre a história de Piracicaba que a senhora gostaria de esclarecer?

Quanta coisa precisa ser esclarecida! O que mais prejudica a nossa história é a força repetitiva dos que “acham” sem procurar investigar e conhecer. Por exemplo: que os indígenas de Piracicaba eram os paiaguás. Erro crasso! Essas populações pertencem até hoje à bacia do rio Paraguai. Os habitantes nativos do Oeste Paulista pertenciam ao grupo tupi-guarani. Em Itu eram os guaianases. Os sertões de Piracicaba era continuação dos sertões ituanos, logo deve haver algum parentesco. Tudo está por estudar.

Como você vê o papel das mulheres na história local de Piracicaba?

De heroínas anônimas no passado, elas se destacaram no século XIX na Educação promovida pelos colégios confessionais. Entraram no século XX como educadoras saídas da Escola Normal de Piracicaba e levaram as luzes para os estados brasileiros. No fim do século estavam em todas as profissões e hoje derrubam as últimas barreiras. Vou citar apenas uma, Maria Celestina Teixeira Mendes Torres, símbolo de saber e bondade, historiadora ímpar, cuja vida é modelo para todas as mulheres.

Quais são as maiores lições que os cidadãos podem aprender com a história de Piracicaba?

Os cidadãos nascidos ou chegados a Piracicaba devem aprender a não desistir dos seus sonhos e projetos. Piracicaba tentou sobreviver por três vezes, até dar certo. Hajam visão de futuro, preparo e determinação, criatividade nos rumos do progresso, a exemplo de Luís Vicente de Souza Queirós.

Quais os maiores desafios que a senhora enfrentou ao conduzir pesquisas históricas em Piracicaba?

O maior dos desafios para um historiador está na falta de arquivos, ou se eles existem, na sua desorganização. Papeis embolorados, pó e insetos trazem danos à saúde; não há pesquisador que não tenha sofrido de rinite e problemas respiratórios. Entram os problemas da falta de recursos para pesquisa, as dificuldades com o tempo, pois todos trabalham para viver, as limitações naturais de quem possui família e filhos. Enfim, provas de resistência e dedicação que enfrentei e venci, como fazem os historiadores.

Quais são as descobertas mais surpreendentes que a senhora fez ao pesquisar a história de Piracicaba?

A descoberta mais emocionante foi encontrar no Cartório do Iº Ofício de Itu a escritura de compra e venda da meia sesmaria de Piracicaba pelo valor de 80 mil reis. Negociação entre o herdeiro Francisco Cardoso e Antônio Corrêa Barbosa no ano de 1780, quando se fez e traslado da freguesia da margem direita do rio para a esquerda.

Como a senhora acha que a história pode ajudar a moldar o futuro da cidade?

O conhecimento da história de Piracicaba contribui para o envolvimento com o “espírito do lugar” e ao pertencimento a um passado muito interessante. A passagem do local ao regional e ao nacional leva à sobreposta dimensão da brasilidade e ao sentimento coletivo de povo orientado para a Liberdade, passados os sofrimentos das fases da Colônia e do Império.

Qual é a mensagem principal que a senhora gostaria que as pessoas tirassem de seu trabalho como historiadora em Piracicaba?

Tenho a oferecer a Piracicaba uma vida inteira dedicada ao conhecimento da sua história.

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