10 de julho de 2026
HOMENAGEM

100 anos de Afrânio Garboggini: o engenheiro e crítico de artes que amava a música

Por Nani Camargo |
| Tempo de leitura: 3 min
Will Baldine/JP
A filha Ingrid com as fotos do falecido pai: lembranças

Afrânio do Amaral Garboggini faria 100 anos em 14 de janeiro de 2024. Deixou este plano cedo demais em 22 de agosto de 1989. E neste dia, o meio artístico de Piracicaba ficou em luto.

Nascido em Conchas, filho de médico e engenheiro civil pela Escola de Engenharia de Ouro Preto e pela Politécnica de Salvador, era também um grande amante da arte, cultura e, principalmente, da música.

Foi professor da Empem (Escola de Música Maestro Ernst Mahle) e crítico de artes do Jornal de Piracicaba, função que exerceu por 30 anos no matutino. Quanta história, análise técnica sobre concertos e amor à musica em seus textos! As crônicas, esperadas com ansiedade pelos leitores, começaram a ser publicadas em 1959. Era um sucesso absoluto.

A musicista Cidinha Mahle relembrou a convivência com 'seu Afrânio', como era chamado. "Era uma pessoa extremamente culta e um grande amigo de (Ernst) Mahle. Não perdia nenhum concerto. Tinha também grande admiração pelo doutor Losso Netto (responsável pelo JP à época). A expectativa sobre o que Afrânio iria escrever a respeito de um espetáculo era grande, para verificar se aquilo que ele tinha escrito e comentado se coincidia com aquilo que havia sido apresentado de fato", conta Cidinha.

Alunos do seu Afrânio não esquecem das aulas sobre História da Música e de sua luta contra uma deficiência visual grave. "Foi uma pessoa que transformou a deficiência que tinha em amor pela música. A música fez com que ele se mantivesse vivo e atuante. Trazia partituras, gravações, histórias sobre compositores e composições de uma forma muito apaixonada. Hoje é fácil ter acesso a essas histórias pelo Google, no Spotyfi. Mas naquela época, ele tinha apenas uma vitrola, uma lousa e pouca visão", diz o músico Renato Bandel, aluno da Empem entre 1982 a 1994.

"Lembro-me como se fosse ontem das aulas de História da Música do professor Afrânio Garboggini. Eram às sextas-feiras e eu as esperava como uma criança em véspera de festa de aniversário. Nunca conheci alguém com tão grande amor pela música como ele", declara Marcelo Batuíra, diretor responsável pelo JP e que em agosto de 89, escreveu um belíssimo editorial em homenagem ao mestre. Abaixo, a sala onde Afrânio dava aulas na Empem.

A maestrina Cintia Pinotti fez o curso completo com professor Afrânio. "Inteligente, erudito, estudioso da música, um musicólogo", define a ex-aluna.

Afrânio foi casado com Gelda Garboggini e teve três filhos, Franz (já falecido), Klaus e Ingrid.  "O que mais me lembro de meu pai era o carinho e cuidado que ele tinha com a família e amigos, além do imenso gosto pela música erudita", diz a filha.

O bancário aposentado Roberto Antônio Cera, o Cerinha, era grande amigo de Afrânio. “Lembro que ele fazia conchinhas com as mãos em cima do olho para poder ler. Mesmo praticamente cego, leu ‘Ulysses’ de James Joyce. Como eu gostava de Bossa Nova, acabamos nos conhecendo. Um dia, fui para São Paulo ouvindo um toca-cassete de Baden Powell e comentei com Afrânio. Ele quis ouvir também e estávamos em uma rua de Piracicaba. Fomos em um Fusca para ouvir no carro. Acredita que, sem querer, entramos em um Fusca errado? Sim, era um azul e rimos muito disso. Eram tempos bons”.