08 de julho de 2026
HOMENAGEM

Ao Mestre, com carinho

Por Da Redação |
| Tempo de leitura: 8 min
Arquivo familiar
Afrânio do Amaral Garboggini faria 100 anos em 14 de janeiro de 2024

'Bach é Bach, assim como Deus é Deus' (Hector Berlioz)

'Bach, sobretudo Bach'. Eram as palavras de "seu" Afrânio — como costumávamos chamá-lo na Escola de Música — quando proferia suas aulas de História da Música e nos alertava que era preciso saber ouvir, antes de tudo, aquele compositor alemão. Era sempre um fim de tarde nas sextas-feiras, para assistir suas "palestrinhas", como tinha o hábito de chamá-las. As horas passavam rápidas, o tempo muito curto, ficando ainda aquela música por ouvir para a próxima semana. Ao término da aula, Afrânio colocava seu chapéu, de estilo germânico, e punha alguns discos debaixo do braço e seguia a Rua Dr. Otávio Teixeira Mendes assobiando uma melodia que ainda lhe ficava na memória.

Nascido em Conchas, uma pequena cidade no interior de São Paulo, veio para Piracicaba, onde seu pai clinicava. Afrânio do Amaral Garboggini escolheu a engenharia como profissão e seguiu para Ouro Preto, a fim de concluir seus estudos. Seu contato com a música veio de Bach que sua mãe executava ao piano e ainda menino, aventurou-se, como conta, a ter aulas de piano: foram três apenas, depois disso, o que ficou foi a paixão pela música que o seguiria por toda vida.

Em Ouro Preto, onde havia uma das melhores escolas de engenharia do país, Afrânio morou três anos e meio. Ainda me lembro da noite em que, após a aula, passou a me narrar aqueles duros anos. "Não havia nada aos fins de semana; eu não tinha rádio, pois naquele tempo era dispendioso possuir um próprio e além disso, lá, a recepção não era boa, mas descobri, logo abaixo da minha república, cerca de quatro ou cinco quarteirões na direção do centro de Ouro Preto, outra república que tinha um e que o punha ligado na janela, por vezes. Ia até lá meio escondido, e escutava entre os muitos chiados e interferências alguma sinfonia. Havia dia que, com esforço, conseguia ouvir apenas o primeiro movimento, porque ou desligavam ou a interferência cobria por completo a melodia. Outra grande descoberta foi a casa, de sobrado, onde uma moça todos os sábados tocava piano, como um pequeno recital para a família; minha sorte é que a sala dava para uma varanda onde as portas permaneciam abertas e então podia recostar-me à parede, embaixo da sacada, e ouvi-la tocar. Não era de todo uma má pianista, nem tinha um repertório ilimitado, mas era a única coisa que me restava. Algum tempo depois descobriram que eu religiosamente não perdia os "recitais", então resolveram convidar-me para entrar. Daí por diante, fiquei amigo da família."

Foi a música que lhe deu força para viver. Já no fim da vida, quase cego, não perdia um concerto na Escola de Música de Piracicaba salvo quando a gripe o pegava de tal maneira que o prendia na cama, em repouso. A cada concerto aparecia com uma revista "National Geographic" sobre a qual anotava seus apontamentos do recital. No último concerto que assistiu, quando o pianista Noel Nascimento deu um recital exclusivamente de Chopin, confidenciou-me: "Acho que já estou muito acostumado à música germânica — Bach e Beethoven principalmente — pois eu não consigo mais encontrar beleza na música de Chopin". Afrânio Garboggini falava, lia e escrevia o alemão fluentemente, e mesmo sendo descendente de italianos, não negava que as melhores óperas eram as alemãs. Com efeito, a música germânica exercia nele uma forte influência: "cada dia mais me convenço e me mergulho na música de Bach, é algo tão místico e poderoso que me enche de encantamento; não foi à toa que o rei Frederico II da Prússia se curvou diante do "velho Bach". Sem ele todos os compositores posteriores não seriam os mesmos".

Afrânio tinha um jeito diferente de cativar: era com a música. Ele não só nos ensinava quem era quem ou a que época pertencia, antes de mais nada, como passava a cada um de nós, jovens aprendizes da música, um pouco do fascínio e do mundo encantado de cada estilo. Não esqueço quando contava dos anos na Bahia, onde completava seus estudos de engenharia civil e depois elétrica (da qual, por sinal, nunca obteve diploma). Foi para ficar um ano, mas o clima e a hospitalidade de lá o retiveram por onze anos. Lá, em Salvador, constituiu um grupo de amigos — como o "grupo dos cinco", famoso conjunto de compositores russos — não para compor músicas, mas para ouvi-las. Reuniam-se uma vez por semana e cada um apresentava uma nova descoberta. Foi daí, no rádio de um carro, perto de uma construção que travou seu primeiro contato com a "Carmina Burana", cantata do contemporâneo Carl Orff, que só veio a ouvir pela segunda vez muitos anos depois. Mas foi na Bahia que viveu seus melhores anos; gostava de lembrar que pela manhã, quando não havia aulas, costuma ir ver o mar e sobre a calçada em frente à praia, riscava com uma pedra exercícios de matemática da faculdade.

Afrânio foi autodidata em tudo que aprendeu sobre música. Tinha o hábito de assobiar as músicas, como se elas fossem poemas que precisavam ser declamados para todos compreenderem a sua beleza. Seu assobio era impecável: afinado e sutil, reproduzia todas as pequenas nuances do tema da peça com perfeição. Não era uma ou duas músicas que sua memória guardava, e sim várias de cada autor, até as mais inexpressivas. Era comum ouvir o eco de um assobio pelos corredores da EMP, quer nos intervalos dos concertos, quer nos finais das aulas. Há algum tempo, descobri uma música muito expressiva e de uma beleza fora do comum num dos Festivais de Música. Gravei esta melodia com um duo de violino e violoncelo, mas apesar de saber o nome da música e do compositor, achava estranho para o período e para o autor. Tive a ideia de gravá-la em fita separada, a qual dei ao "seu" Afrânio, sem contar o que ou de quem era a música, e perguntei sua opinião. Depois telefonei e com um ar de entusiasmo, misto de curiosidade, ele me disse: "trata-se, sem dúvida, de uma obra magnífica a qual não conheço e que revela, ao fundo, um jogo contraponístico intenso, sem falar no vigor expressivo que mostra a qualidade do compositor; é uma música do período Barroco, não tem a mediocridade de Telemann, nem chega a ser um Bach, Vivaldi, descarto a possibilidade, talvez Haendel". Sem dúvida, era Georg Friedrich Haendel, a "Passacaglia" em um duo de cello — violino, a qual ainda hoje não me sai da memória.

Afrânio narrou-me encantado duas experiências exóticas que nunca esqueceu. A primeira foi quando em uma visita a um amigo ou parente (não me lembro ao certo) numa fazenda distante de focos urbanos, levou consigo sua eletrola portátil e alguns discos para não ficar tão isolado. Quando então pôs no aparelho a "Sinfonia Escocesa" de F. Mendelssohn, um menino de uns quatro ou cinco anos veio lhe puxar as calças e lhe perguntou, "minha mãe mandou perguntar que música é esta, tão bonita..." Era o filho da lavadeira da fazenda, tal era o espanto de Afrânio com o fato, pois essa sinfonia não era popular e uma pessoa tão simples que talvez nunca tenha ouvido nada do gênero lhe indagar o que era, o que o marcou muito.

A segunda foi a ópera "Fidelio" de Beethoven. Estava em casa de parentes certa vez, quando ouviu, vindo da cozinha, uma ópera alemã. A cozinheira era daquelas mulheres bem humildes, e espontâneas, que logo o convidou para chegar mais perto e ouvir a ópera. Como só conhecia, até então, alguns trechos, perguntou do que se tratava e para sua surpresa, a cozinheira virou-se e disse: " é Fidelio de Beethoven, Dr. Afrânio", com aquele típico sotaque nordestino... Ao escrever, Afrânio sabia colocar cada palavra no seu devido lugar, com o mesmo cuidado que um relojoeiro põe as peças no relógio. E sempre atento, pois apenas uma só palavra poderia causar o desestímulo de um jovem instrumentista ainda começando sua carreira. Por mais que os compositores contemporâneos não conseguissem dizer que deles gostavam.

Simples e claro, no último dia de aula do curso de "História da Música", após ouvirmos o "Pierrô Lunaire" de Schoenberg, ele disse explosivamente, "é o que tem sido composto nos últimos tempos, talvez eu não saiba ouvir ou ainda não nasceu um verdadeiro gênio para esse tipo de música. É fácil ver se gostamos ou não: se fôssemos ficar o resto de nossas vidas numa ilha deserta e pudéssemos levar duas ou três músicas, esta estaria entre elas?" Sua primeira "Crônica de Arte" foi em junho de 1959 quando "Afrânio pediu para que o meu avô Losso Netto, lhe examinasse um pequeno escrito sobre um concerto na EMP. Então ele lhe respondeu, "Afrânio, não preciso olhar, sei com quem estou falando." O "seu" Afrânio contou-me isto quando pediu para eu escrever a minha primeira crônica de Arte. "Gostaria de passar às suas mãos, o que foi encargo de seu avô", disse ele depois. Todos nós mudamos de gostos, costumes ou feições. Na juventude, Afrânio confessou que Beethoven lhe exercia maior fascínio, mas nos últimos tempos, o lugar era de Bach, ainda que Mozart ganhava-lhe maior respeito em suas peças da maturidade. De um jeito ou de outro, todo mundo a nossa volta vai assumindo uma nova forma, todavia uma coisa é certa, para quem teve contato com Afrânio Garboggini, ele pôde imbutir dentro de cada um a semente do amor à música. Isso todos nós carregamos, não como uma simples lembrança, mas como marca em nossas vidas. (Que se execute a última nota deste Réquiem).

Por Marcelo Batuíra