O câncer é uma doença que assusta não só os pacientes, mas as pessoas próximas. Da descoberta à cura, o paciente oncológico passa por momentos delicados, que vão desde cirurgias até sessões de quimioterapia e radioterapia. Além das consequências físicas, a descoberta de uma doença agressiva afeta, também, o psicológico dos pacientes.
O mês de outubro é marcado pela lembrança dos cuidados com o câncer de mama, que é o que mais causa a morte de mulheres por tumores segundo levantamento do Inca (Instituto Nacional do Câncer). Tanto que, no próximo sábado (28), o Cecan (Centro do Câncer) da Santa Casa, vai fazer 500 mamografias, com o objetivo de rastrear a doença nas mulheres piracicabana.
A detecção da doença é um dos pontos mais importantes para a prevenção. De acordo com o diretor do Cecan, o oncologista Fernando Medina, esse é um dos pilares mais importantes para garantir a saúde dos pacientes. “Na prevenção, o conhecimento a respeito da doença em si, da biologia da doença, dos fatores prognósticos de cada um dos tumores, vieram facilitar a prevenção”, disse. Atualmente, segundo o médico, assim como a prevenção, os tratamentos tiveram avanços importantes, que garantem mais eficiência no caso de um diagnóstico, e, principalmente, mais qualidade de vida. O avanço na tecnologia permitiu o uso de técnicas mais precisas, como radioterapia localizada, estimulo do sistema imunológico e, também, cirurgias menos invasivas e mais eficientes. “Em alguns tipos de câncer, como mama e pulmão, o tratamento sistêmico pode melhorar a sobrevida em mais de 50% das vezes. Obviamente que há vários outros desafios, principalmente para desenvolver medicamentos novos que sejam mais eficazes e seguros”, disse. Confira os principais trechos da entrevista de Fernando Medina ao JP.
Como o senhor avalia o desenvolvimento do tratamento contra o câncer? A evolução no tratamento do câncer foi muito intensa nessas últimas décadas. São novas técnicas e novas tecnologias que melhoraram a eficácia e a segurança no tratamento. Antes do século 21, antes da década de 1990, o tratamento do câncer era muito limitado, com pouca eficácia e muito efeito colateral. Na fase moderna, ocorreram grandes avanços com o desenvolvimento de novas técnicas na cirurgia, na quimioterapia e na radioterapia. As taxas de cura começaram a aumentar, principalmente em alguns tumores de jovens, como o câncer de testículo, o linfoma de Hodgkin. Mas, ainda era bastante incipiente o tratamento do câncer. E a fase contemporânea, agora no século 21, ocorreram avanços espetaculares, mais significativos no tratamento do câncer como desenvolvimento de novas tecnologias, como a imunoterapia e a terapia-alvo. As taxas de cura aumentaram significativamente para alguns tipos de câncer, como o de mama e o de próstata, que são, agora, considerados curáveis em estágio inicial.
Como a tecnologia evoluiu para facilitar a detecção precoce do câncer? Durante exames, conseguimos constatar a presença de células que podem evoluir para o câncer. No exame de pulmão, as tomografias computadorizadas de baixa irradiação vieram e modificaram a sobrevida dos pacientes, detectando o câncer precoce. A mamografia consegue reduzir em até cinco anos o tempo de diagnóstico, ou seja, as mulheres que fazem mamografia detectam o tumor ainda em fase precoce em que só uma cirurgia pequena pode levar a cura. A detecção precoce, como prevenção secundária, é fundamental.
O câncer está ligado a fatores de risco e a medicina evoluiu para entender mais cada tipo de câncer. Como isso ajuda na prevenção? A prevenção, sem dúvida nenhuma, veio para modificar radicalmente o prognóstico do câncer. Então, são dois pilares, o da prevenção e o do tratamento. Na prevenção, o conhecimento a respeito da doença em si, da biologia da doença, dos fatores prognósticos de cada um dos tumores, vieram facilitar a prevenção. Descobrimos que os fatores de risco são divididos em dois grandes grupos. Um é o de fatores de risco que nós podemos modificar, e outro são os fatores que não podemos modificar.
Os modificáveis são o tabagismo, que é, sem dúvida nenhuma, o fator de risco mais importante para o câncer e que corresponde a mais ou menos 22% das causas do câncer em todo o mundo. Depois, o alcoolismo, o excesso de álcool aumenta o risco de câncer na boca, garganta, esôfago, fígado, mama e intestino grosso. A dieta não saudável, rica em alimentos processados, carne vermelha, aumenta o risco de câncer no intestino grosso, estômago e pâncreas. O sedentarismo, a falta de atividade física aumenta o risco de câncer de mama, de cólon, de reto, estômago e pulmão. Excesso de peso ou obesidade aumenta o risco de câncer de mama. Exposição excessiva à radiação ultravioleta, como a luz solar, aumenta o risco de câncer de pele. Então, o conhecimento disso fez com que a gente criasse uma série de vidas saudáveis contra esses fatores de risco.
Mas tem outros fatores de risco que a gente não consegue mudar. A idade, por exemplo. A maioria dos cânceres ocorrem depois dos 60 anos de idade. Aos 60 anos, você passa a ter um alto risco para desenvolver um câncer. O sexo masculino e o sexo feminino têm diferentes incidências de câncer, por exemplo, o câncer na tireoide tem mais incidência nas mulheres, cerca de 6% a mais. O câncer de mama praticamente acontece só na mulher. Já o câncer na cabeça, pescoço e pulmão têm mais incidência no homem. Isso não tem como muda r. De uma maneira geral, nós entendemos que a redução da exposição aos fatores de risco, reduz a incidência de câncer com esse desenvolvimento nós entendemos mais o câncer e entendemos como podemos evitá-lo.
Quimioterapia e radioterapia ainda são os principais tratamentos? Primeiro, temos que falar sobre a cirurgia, que é o principal pilar no tratamento. Através da cirurgia, nós temos curas definitivas da doença, principalmente quando se faz o diagnóstico precoce. No passado, a cirurgia era bastante agressiva. A mama, por exemplo, a mastectomia ressecava toda a mama, tirava a musculatura, os gânglios da axila. Ao longo do tempo, percebemos que isso não adiantava porque o câncer migrava para outros locais. Não adiantava fazer um tratamento agressivo local sendo que a doença, na maioria das vezes, era sistêmica. A cirurgia foi evoluindo para uma técnica cirúrgica menos agressiva, menos invasiva e que reduz o risco de complicação e aumenta a melhora na recuperação do paciente.
O uso de tecnologia avançada, como o robô, veio para reduzir as complicações. A cirurgia robótica hoje é uma realidade, é muito mais fácil operar através do robô e a recuperação do paciente é muito melhor do que no passado, quando se abriam grandes incisões abdominais, torácicas. Isso acabou. Na cirurgia guiada, por exemplo, através da tomografia computadorizada ou do ultrassom, vamos avaliando onde tem o tumor durante o ato cirúrgico Isso é muito feito em cirurgia de tumores cerebrais. A radioterapia também, nos últimos anos, tem evoluído de uma maneira espetacular. Com a colocação da imagem e do computador, os efeitos colaterais diminuíram, proporcionando maior acerto na irradiação no tumor. Isso melhorou demais a qualidade de vida do paciente e reduziu o número de aplicações. Antes se faziam 30, 35 aplicações, hoje fazemos 15. Técnicas de intensidade modulada, radioterapia guiada por imagem, o que é um espetáculo porque a radioterapia só é distribuída em cima do tumor, evitando os tecidos normais.
O grande problema do câncer é a disseminação da doença para locais diferentes. Por exemplo, o câncer de mama cai na corrente sanguínea e vai se alojar no pulmão, no cérebro, é o que conhecemos como metástase, o que, em 90% das vezes, vai levar o paciente à morte. Com isso, fazemos o tratamento sistêmico, que é por meio da quimioterapia, imunoterapia e terapia-alvo. A quimioterapia vem evoluindo desde 1950 com novas drogas. Porém, apesar de eficaz para muitos tipos de câncer, causa muitos efeitos colaterais, o que deixa o oncologista muitas vezes preocupado com a qualidade de vida do paciente, principalmente com as náuseas, vômitos e quedas de cabelo.
Mais recentemente, surgiu a imunoterapia, que estimula o sistema imunológico a atacar as células do câncer. Ou seja, o próprio paciente luta contra a doença. A imunoterapia é um tratamento muito eficaz para alguns tipos de câncer, como o melanoma e o câncer de pulmão. A terapia- -alvo, que é um tratamento sistêmico que usa um medicamento que ataca apenas as células cancerosas e não ataca as células normais. Esse foi um avanço na quimioterapia, que foi possível através do conhecimento de proteínas que são produzidas apenas pelas células de câncer e é bastante eficaz em alguns tipos de câncer como o de pulmão e o de mama. Esses avanços tiveram um impacto positivo na sobrevida do paciente. Em alguns tipos de câncer, como mama e pulmão, o tratamento sistêmico pode melhorar a sobrevida em mais de 50% das vezes. Mas há vários outros desafios, principalmente para desenvolver medicamentos novos que sejam mais eficazes e seguros.
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