11 de julho de 2026
CIÊNCIA

Terapia na rede pública de saúde traz resultados revolucionários na remissão do câncer

Por Nani Camargo | nani.camargo@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação

Uma forte esperança. E em um caso específico, uma vitória. Esses sentimentos envolvem uma terapia celular contra o câncer conhecida como CAR-T Cell, que combate a doença utilizando as próprias células de defesa do paciente, e que está sendo desenvolvida e aplicada no Brasil pela USP, em parceria com o Instituto Butantan e o Hemocentro de Ribeirão Preto. Tudo de forma experimental e pela rede pública de saúde.

A esperança está em pacientes que passam pelo estudo, cujos resultados já são considerados extremamente positivos. Já a vitória é de Paulo Peregrino. O publicitário de 61 anos, morador do Rio de Janeiro, luta contra um linfoma há 13 anos e teve remissão completa da doença em 30 dias com CAR-T Cell. Ele foi o 14º paciente a ser tratado pela terapia, em São Paulo.

Os pacientes que fizeram parte da pesquisa são considerados “compassivos”, ou seja, já tinham feito vários tipos de tratamento, mas não tiveram resposta positiva. O método tem como alvo três tipos de câncer: leucemia linfoblástica B, linfoma não Hodgkin de células B e mieloma múltiplo, que atinge a medula óssea. O protocolo contra mieloma múltiplo ainda não está disponível no país.?
O JP conversou com médicos que atuam na pesquisa: Vanderson Rocha, professor de hematologia, hemoterapia e terapia celular da Faculdade de Medicina da USP e coordenador nacional de terapia celular da Rede D’Or; e Camila Dermínio Donadel, que trabalha no Hemocentro de Ribeirão Preto.

“Além da estrutura física que é extremamente complexa, para desenvolver esse produto nós contamos com uma equipe experiente. O Hemocentro de Ribeirão Preto já tem a experiência e replicar esse processo para outras unidades país não é fácil, pois demanda dinheiro, estrutura física e técnica. É muito complexo”, cita a médica.

Vanderson Rocha explica que a terapia é restrita a canceres hematológicos. “A terapia já está disponível desde janeiro na indústria farmacêutica e é muito cara. Com o produto comercial, 25 pacientes já foram tratados e 50 estão aguardando para iniciar o tratamento. Eu já tratei de três pacientes com o produto comercial”.

O desafio, no entanto, é fazer com que o produto seja aprovado e disponibilizado pelo SUS.  No segundo semestre, 75 pacientes devem ser tratados com o CAR-T Cell com verba pública após autorização da Anvisa para o estudo clínico.

As duas imagens do Pet Scan (tomografia feita com um contraste especial ) representam “dois Paulos”: a da esquerda, o paciente que tinha como caminho único os cuidados paliativos, quando a alternativa é dar conforto, mas já sem expectativa de cura; e a da direita, um paciente com um organismo já sem tumores após o CAR-T Cell.

Anvisa tem que aprovar produto para chegar ao SUS

No total, 15 pacientes participaram da te- rapia celular contra o câncer conhecida como CAR- -T Cell. Desses 15, 12 foram tratados no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e três no Hospital das Clínicas de São Paulo. O médico hematologista Vanderson Rocha, que também é professor de hematologia, hemoterapia e terapia celular da Faculdade de Medicina da USP e coordenador nacional de terapia celular da Rede D’Or, é quem tratou de Paulo Pelegrino, que teve a remissão completa do linfoma após se submeter à te- rapia. Ele só será considerado curado, porém, após 5 anos sem apresentar uma recidiva da doença.

Dos 15 pacientes em tratamento, 10 estão vivos; 6 tiveram remissão completa, e a doença não voltou; 2 tiveram remissão completa, mas a doença voltou depois de alguns meses; 2 iniciaram o tratamento recentemente; 5 pacientes morreram; 2 morreram poucos dias depois da infusão por infecções causadas pela própria doença; e 2 tiveram remissão parcial ou total dos tumores, mas morreram meses depois porque o câncer voltou. “A terapia é totalmente fabricada no Brasil, no He- mocentro de Ribeirão Preto, em parceria com a USP e o Butantã. Os custos são altos, mas são financiados por uma ver- ba de pesquisa. Em comparação com o produto comercial, ela custa dez vezes mais barata”, explica Rocha.

O produto da indústria farmacêutica chega a custar R$ 2 milhões por pessoa e tem que ser manipulado nos EUA para depois voltar ao Brasil e ser usado por pacientes daqui.

“Os resultados obtidos até agora já nos mostram que esse produto feito no Brasil é eficaz e seguro. São resultados impressionantes. Para confir- mar isso, porém, a gente precisa de um estudo controlado e de sua aprovação. Então, a próxima etapa é desenvolver um estudo clínico de fase 1 e fase 2 e, depois, bus- car a incorporação da terapia ao SUS”, diz Camila Dermínio Donadel, médica do Hemo- centro de Ribeirão Preto que participa da pesquisa.

O hemocentro de Ribeirão Preto e as faculdades de medicina da USP se uniram ao Instituto Butantã para realizar os tratamentos no país. Antes, é preciso passar pela fase de testes clínicos, que depende de aprovação da Anvisa.

Diretor do Butantan, o hematologista Dimas Covas disse em entrevista ao G1 que o processo de pesquisa será to- talmente automatizado, feito por máquinas importadas da Alemanha. O custo por tratamento é de cerca de R$ 100 mil por paciente. Ainda é conside- rado extremamente caro, mas representa apenas 2% de um tratamento importado.

O hospital Albert Einstein, em São Paulo, também já está na fase final do processo de autorização da Anvisa para testes clínicos.

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