15 de abril de 2026
MÁRCIA POMPEU

‘Se não nos unirmos, a Società Italiana corre o risco de desaparecer’

Por Fernanda Rizzi | fernanda.rizzi@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 8 min
Claudinho Coradini/JP

Uma mulher de vivências e um espírito comprometido com a cultura italiana é o que define Márcia Yassuda Pompeu. Nascida em São Paulo, é filha de Nesinha Yassuda Pompeu e Helcio Dondelli Pompeu, mas se mudou para Piracicaba aos 14 anos, quando seus pais decidiram se mudar na cidade. Formada em psicologia pela Universidade de João Pessoa, seu caminho a levou a uma experiência enriquecedora na França, onde fez um curso na Universidade de Perpignan.

No decorrer de sua estadia na França, Márcia decidiu fazer uma viagem pela Itália, onde o destino lhe reservou uma surpresa: foi lá que ela conheceu seu marido, Sergio Forti. Transferindo-se da França para a Itália, Márcia passou quase 10 anos no país, onde o casal teve seus dois filhos: Giulia Forti, que está há quase 15 anos na Itália, e Gabriel Forti, que retornou recentemente para o Brasil.

Aos 60 anos, ela assume a presidência da Societá Italiana Di Mútuo Soccorso Di Piracicaba – entidade fundada por imigrantes italianos em 1887 e, hoje, um dos principais pontos culturais do município. Mas, a sua história com a instituição começa há 15 anos, quando após uma conversa com Bruno Chamochumbi (atual diretor de planejamento da Societá) sobre a necessidade de professores no espaço, Márcia se ofereceu como professora. Logo após o retorno de Sérgio ao Brasil, ambos passaram a ministrar aulas e contribuir para a disseminação da cultura italiana. E, agora, Márcia ocupou a posição de presidente da Societá Italiana após a gestão de Sergio, consolidando seu compromisso com a preservação e promoção da cultura italiana em Piracicaba.

Nessa entrevista ao Jornal de Piracicaba, Márcia destaca as atividades realizadas pelo pedacinho da “nostra Italía”, como é chamada pelos seus frequentadores, também considerada a casa da família italiana, mas que possui braços abertos para receber pessoas de outras ascendências, proporcionando um impacto positivo na cultura piracicabana e que, hoje, carrega um dos prédios mais antigos (e tombado como Patrimônio Histórico Cultural) do município de Piracicaba.

Sabemos que Piracicaba teve um número alto de imigrantes. Onde os imigrantes italianos se reuniam antes da construção do prédio da Società Italiana e como ela surge? A partir da segunda metade do século XIX, o movimento abolicionista começou a ganhar força no Brasil, resultando no surgimento de leis para restringir a "importação" e "uso" de mão de obra escrava. Antecipando a escassez dessa forma de trabalho, fazendeiros começaram a incentivar a vinda de imigrantes europeus para trabalhar em suas propriedades. Dentre os imigrantes, muitos italianos chegaram ao Brasil, motivados por transformações significativas em seu país natal, como a Unificação Italiana, concentração de terras nas mãos de poucos, fome, doenças e outros fatores que os impulsionaram a buscar melhores condições de vida. No entanto, ao chegarem ao Brasil, nem tudo era como lhes havia sido prometido.

No final do século XIX, Piracicaba já abrigava uma concentração significativa de imigrantes italianos, os quais enfrentavam dificuldades. Em 1887, lideradas por Carla Zanotta, algumas famílias italianas decidiram fundar uma associação de beneficência com o objetivo de auxiliar seus membros, fornecendo-lhes assistência e socorro. Assim nasceu a Societá Italiana di Mutuo Soccorso di Piracicaba, tendo Zanotta como sua primeira presidente. O trabalho beneficente da entidade foi frutífero, abrangendo desde o fornecimento de alimentos e assistência médica e farmacêutica aos mais necessitados até apoio jurídico e financeiro. Isso garantiu a subsistência de muitas famílias de imigrantes recém-chegados a Piracicaba. Além disso, a entidade passou a promover atividades culturais com o objetivo de preservar a identidade italiana, por meio de encontros entre italianos e suas famílias. Além disso, pretendia ser um centro de intercâmbio cultural entre a Itália e o Brasil, promovendo um maior conhecimento sobre o país, suas leis, costumes e idioma. Nos primeiros anos de atividade, as reuniões dos associados ocorriam no "Salão de Recreio", localizado no Bairro Monte Alegre, em Piracicaba.

Em 1904, a Societá Italiana mudou-se para a Rua Dom Pedro I, onde pôde melhor atender aos associados e realizar eventos envolvendo as famílias. Nesse novo espaço, eram realizados casamentos, bailes, reuniões, formaturas, exibição de filmes, peças teatrais, grupos musicais, orquestras e muito mais. A entidade se tornou um importante ponto de encontro para os italianos e um centro de preservação da cultura italiana em Piracicaba.

Além disso, Piracicaba é formada 80% de descentes de italianos. E, no final de 1930, em que o Brasil tinha como presidente Getúlio Vargas, entrou em vigor uma lei que proibiu a participação dos brasileiros nas entidades estrangeiras instaladas no país, e determinou que as mesmas passassem a ter nomes brasileiros.

Em 10 de outubro de 1938, Hélio Morganti assumiu a Presidência da entidade por 4 anos e junto ao conselho de administração decidiu que as tradições e os objetivos da Società Italiana deveriam ser mantidos, seguindo termos e modalidades da legislação brasileira.

Quais atividades são realizadas atualmente pela instituição? Elas colaboram com a manutenção do espaço? Atualmente, com a expansão do centro e o prédio muito antigo, realizamos algumas mudanças nas atividades. Por exemplo, não realizamos mais bailes e casamentos, mas alugamos o salão para pequenos eventos. Além disso, oferecemos cursos de italiano e história da arte, e promovemos workshops de risoto, vinho, massa, entre outros. Também exibimos filmes para os alunos. Essas atividades nos permitem manter o funcionamento da Societá Italiana, apesar das dificuldades pelo prédio ser muito antigo.

Além dos cursos, também realizamos concertos. Já tivemos a oportunidade de receber artistas como Mafalda Minozzi e o tenor Jean William, que abraçou nossa causa, bem como outros barítonos e músicos italianos. Após o período da pandemia, estamos retomando nossas atividades gradualmente.

Graças às atividades oferecidas, especialmente os cursos, conseguimos, embora com dificuldade, manter a manutenção do prédio em funcionamento.

A Societá Italiana é muito importante para a cidade, principalmente, na questão cultural. Hoje como a instituição contribui com a cultura piracicabana? Tentamos manter essa cultura ministrando curso de Italiano, história da arte, filmes, viagens à Itália. Já que somos quase todos descendentes de Italiano não podemos deixar morrer essa cultura maravilhosa.

A Societá também traz um dos edifícios mais antigos da cidade e com características italianas, que inclusive é tombado como patrimônio histórico piracicabano. Quando isso ocorreu e qual a importância de ter esse reconhecimento pelo Codepac e pela comunidade piracicabana?

A Societá passou por muitas dificuldades durante os anos, com a falta de recursos na década de 60, a diretoria da época decidiu ceder o patrimônio da entidade para o Clube Ítalo, com o compromisso de que este seria preservado, o que não ocorreu. No ano de 1992, foi reaberto um processo para a reintegração de posse, movido por um grupo de italianos natos que moravam em Piracicaba até que a Societá Italiana conseguiu retomar seu patrimônio, porém em condições bem diferentes dos anos 50. O tombamento aconteceu em 1992.

Recentemente a Societá Italiana teve um projeto de restauro aprovado para a reforma do de seu prédio histórico por meio do ProAC. Quais investimentos serão feitos? A reforma já teve início? O projeto foi aprovado graças à 3marias Produtora Cultural, de Americana, que já atua no meio cultural há 20 anos. De imediato foi aprovado o valor de R$446.380.00, mas isso é só uma parte do Projeto, voltados para a parte hidráulica, elétrica, funcionários, etc.

A reforma ainda não teve início porque agora é a parte da captação de verbas por meio do Benefício Fiscal, a empresa que recolhe ICMS pode destinar até 3% do que vai pagar de imposto para uma ação cultural. É muito simples e custo zero para a empresa e, por incrível que pareça, com todas as empresas de família italiana estamos com difunde a conseguir esse apoio. Já temos duas empresas, mas precisamos no mínimo chegar a 35% do valor.

Embora seja um espaço italiano, a Societá atende o público geral. Como a experiência pode agregar à população? A Societá italiana está aberta a todos, italianos ou não. E, acho que todos os piracicabanos deveriam conhecê-la, pois é um dos poucos prédios de época que resta na cidade, além de ter tido uma história importuna em Piracicaba. É parte da nossa história, eu sempre brinco: ela ajudou nossos bisavós e avós quando chegaram na cidade como imigrantes, e agora é ela que está pedindo ajuda. Então, é a hora dos descendentes ajudá-la.

Como diretora do espaço, quais são os seus principais sonhos para a Societá atualmente? E como se sente em fazer parte de uma instituição importante para a cidade de Piracicaba?Agora sou a presidente, mas esse sonho do restauro acredito que seja um pouco de todos que frequentam a Societá. Acho que, em especial quem insistiu com esse projeto e foi atrás de tudo, o Sérgio Forti. Ele foi presidente por anos, e para ele é um sonho que gostaria de ver realizado, como um verdadeiro italiano de Milão não se conforma de ver esse prédio maravilhoso nesta condição. Se não fizermos nada, não nos unirmos e não ajudarmos, a Societá corre o risco de desaparecer e é isso seria muito triste.

Como as pessoas interessadas podem associar-se à Società Italiana? Não temos associados, mas podemos ter “os amigos da Societá”. Como já temos muitos, as pessoas podem nos ajudar indo nos nossos eventos, frequentando os cursos e divulgando o nosso projeto. Precisamos das empresas para nos ajudar a realizar esse sonho. Agora o mais importante e ajuda das empresas. Temos um prazo, então temos que correr.

Clique para receber as principais notícias da cidade pelo WhatsApp.