09 de julho de 2026
MEIO AMBIENTE

‘No mundo globalizado, a cidade que quer crescer, tem que priorizar a qualidade de vida’

Por Roberto Gardinalli | roberto.gardinalli@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 7 min
Divulgação

Escolhido pela ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, como secretário Nacional do Meio Ambiente Urbano e Qualidade Ambiental, o piracicabano Adalberto Maluf Filho recebeu como missão aliar o desenvolvimento urbano ao cuidado com o meio ambiente. Entre os principais desafios do secretário, que assumiu o cargo no dia 21 de março, está a promoção da melhora da qualidade de vida, desenvolvimento econômico sustentável e apoio às políticas sociais baseadas na sustentabilidade.
Formado em Relalções Públicas e com mestrado na USP (Universidade de São Paulo) na mesma árera, Maluf tem passagens pelos setores público e privado. Em seu currículo, constam trabalhos nas prefeituras de José Serra e Gilberto Kassab, em São Paulo, na secretaria de Meio Ambiente, ao lado de Eduardo Jorge, além de ter assumido por nove anos a diretoria da BYD, gigante chinesa na fabricação de carros elétricos, além de ter ocupado a presidência da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico). Maluf conversou com o JP. Confira os principais tópicos da entrevista.

1 - Como recebeu a notícia da nomeação? Com um currículo que inclui trabalhos com figuras como José Serra, Gilberto Kassab e Eduardo Jorge, já tinha pleiteado um cargo desse tipo?
Meu primeiro emprego quando me formei foi na Secretaria de Relações Internacionais na prefeitura do Serra, e depois com o Kassab. Aí eu fui para a Secretaria de Meio Ambiente com o Eduardo Jorge. Mas logo depois eu fui para organizações internacionais. Eu tenho praticamente 15 anos trabalhando em fundações internacionais. Fui diretor da Fundação Clinton, do ex-presidente Bill Clinton, dos Estados Unidos, junto à rede C40, que são as maiores cidades do mundo na luta contra as mudanças climáticas e, depois eu fui para a BYD, que é uma empresa privada, maior fabricante de carros elétricos do mundo. Então eu sempre trabalhei com a área pública, mas diretamente foi nos meus primeiros anos. A minha nomeação foi uma surpresa, porque a Marina (Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas), fez um processo seletivo. A Secretaria Nacional de Meio Ambiente Urbano e Qualidade ambiental é uma secretaria muito técnica.
Mas foi engraçado porque a Marina pediu algumas indicações de pessoas para mandar currículo, e me ligaram. Depois percebemos que tínhamos muitos amigos em comum, esses ambientalistas mais antigos do Brasil, por exemplo. Eu não tinha muito contato com a Marina, apesar de gostar dela. Da última vez que ela tinha saído candidata junto com o Eduardo Jorge, eu trabalhei muitos anos com ele, é meu grande mentor na área política. Daí surgiu o convite e eu tive que aceitar. É aquele típico convite que não dá para recusar. É um cargo muito importante, talvez o mais importante do meio ambiente do Brasil depois do cargo da ministra.

2 - Quais as atribuições dessa secretaria? Como vai ser a sua gestão?
Na secretaria temos três diretorias. Uma que é a de gestão de resíduos sólidos, a outra que é a diretoria de gestão da qualidade ambiental, e a terceira que é a de meio ambiente urbano. A de gestão de resíduos tem como função controlar aquela gama de trabalhos da agenda de reciclagem, redução de geração de resíduos nas cidades e logística reversa. Assim que eu cheguei, encontrei muitos acordos que não estavam sendo cumpridos, metas que não foram atingidas. Na última gestão muitos temas não avançaram.. Também nos preocupou muito uma demanda das cooperativas de catadores de resíduos, que é a importação de resíduos para o Brasil. Quando o presidente Lula convidou a Marina para ser ministra, ela diz que ele só pediu uma coisa para ela, que é colocar as cooperativas de catadores no centro da política do ministério. Esse é o nosso grande foco. A secretaria está muito focada nessas medidas para apoiar os catadores.
O Brasil é signatário de várias convenções internacionais de proteção ao meio ambiente que não tiveram muita movimentação no último governo. Então já começamos a atuar nessas áreas também. Até porque o Brasil está para entrar na OCDE, e para isso, é necessário ter o cumprimento de alguns protocolos, em especial com relação a materiais perigosos para o meio ambiente, enfrentamento de acidentes e outros.
A secretaria também cuida muito da qualidade do ar e da água. Estamos em contato já com alguns consórcios, o PCJ (que gerencia a bacia do rio Piracicaba), é um deles, para criar melhores políticas de despoluição de áreas urbanas e de rios, além de reflorestar em grande escala áreas de bacias hidrográficas e córregos. O interior de São Paulo é uma área que já tem muitos projetos, então é um lugar onde vamos atuar muito para garantir a despoluição de rios, principalmente os da Mata Atlântica, que hoje são muito poluídos. Somente 8% dos rios da região da Mata Atlântica estão despoluídos. O rio Piracicaba certamente é um dos rios com problemas.
O departamento de meio ambiente urbano é um que está muito defasado, também. Ele tinha só um servidor, é uma área que o último governo não quis atuar muito e a gente resgatou. Ali a gente tem programas de zoneamento ambiental, desenvolvimento urbano sustentável. Criamos um programa para identificar possíveis áreas de risco, que tem potencial de deslizamento de terra, problemas de adaptação à mudanças climáticas, doenças tropicais, enchentes e eventos extremos. E vamos agir muito na interação entre o meio ambiente e desenvolvimento urbano. Por exemplo, questões de moradias populares, meio ambiente urbano e mobilidade urbana.

3 - Na questão da mobilidade urbana, vai haver algum fomento aos veículos elétricos, incluindo carros, ônibus e outros tipos de transporte? Como vai incluir a sua experiência nesse setor como secretário do Ministério do Meio Ambiente?
A Marina Silva criou essa atribuição de trabalhar com a mobilidade. Basicamente, o que a gente quer é criar um ambiente propício para a transição energética na indústria brasileira. Nós acreditamos que a mobilidade elétrica e veículos híbridos é um processo sem volta, irreversível. O Brasil tem biocombustível, em especial o etanol, que é um biocombustível limpo, renovável, que gera muito emprego e muita renda. E temos como objetivo conciliar o uso do etanol na transição dos híbridos para que a gente possa ter um adensamento na cadeia da eletrificação. Então, não é só um veículo elétrico, é o híbrido flex, com etanol e bateria, por exemplo. Hoje a grande preocupação da secretaria é ajudar os outros ministérios a planejar a transição energética para um futuro de baixo carbono e qualidade de vida melhor.

4 - E com relação ao acesso das pessoas aos veículos elétricos? O senhor trabalhou na BYD, gigante na fabricação de veículos elétricos. Na região temos a GWM, em Iracemápolis, que trambém foca em carros elétricos. Apesar do aumento da popularidade, ainda é difícil para as pessoas terem acesso a esses veículos.
No Ministério, a gente quer ajudar a tirar barreiras. Hoje o carro elétrico tem mais imposto do que um carro a combustão. A gente quer retirar essas barreiras para que um híbrido flex, por exemplo, seja adensado dentro da cadeia energética. Essa é uma área bastante importante para nós, porque o meio ambiente urbano pressupõe políticas para reduzir desigualdades e melhorar a qualidade de vida, e a mobilidade, melhoria no transporte público, têm um papel fundamental. Outro ponto, uma das grandes ambições é criar empregos na economia verde,a indústria da energia limpa, da mobilidade. No caso de Iracemápolis, nós temos uma cidade que também gira em torno de uma fábrica de automóveis elétricos,

5 - Na sua opinião, como as cidades podem se desenvolver, crescer, sem deixar de lado as questões ambientais?
As cidades precisam entender cada vez mais que o desenvolvimento e capacidade de atrair jovens talentos e manter empresas no seu território, significa ofertar qualidade de vida para as pessoas. Se as cidades não tiverem qualidade de ar boa, disponibilidade de água, alimentos na região, um ambiente favorável para negócios, vão perder empregos e indústrias. Não vai ter oportunidade. O mundo globalizado requer que as cidades tenham liderança na qualidade de vida, e o meio ambiente urbano é o principal instrumento para melhorar a qualidade de vida.

Clique para receber as principais notícias da cidade pelo WhatsApp.