30 de junho de 2026
TRAUMA

Cuidados com criança que presenciou feminicídio devem ser imediatos, diz psicólogo

Por Roberto Gardinalli | roberto.gardinalli@jpjornal.com.br
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Tamires Marques, de 35 anos, foi assassinada com, pelo menos, seis golpes de faca em casa na noite da última terça-feira (7), no condomínio Residencial Vitta, no bairro Campestre, em Piracicaba. De acordo com informações da Polícia Militar, o principal suspeito é o ex-marido dela, José Carlos Silva, que teria fugido do local após o crime. Ainda de acordo com as informações oficiais, o feminicídio aconteceu quando o suspeito foi deixar a filha do casal com a mãe. Então, abriga, que acabou na morte de Tamires aconteceu na frente da criança, uma menina de 6 anos.

Segundo informações oficiais, a filha deles teria presenciado o crime. A situação traumática remete a outro feminicídio que foi registrado em Piracicaba, cerca de um ano antes. Carolina Dini Jorge, foi morta pelo ex-marido, Anderson Andrade, em frente à Escola Estadual Honorato Faustino, onde a filha do casal, de 10 anos, estudava. Além da menina, o casal tem um filho de 18 anos.

Cerca de um ano após o crime, os filhos de Carolina passam por acompanhamento psicológico, além do acolhimento da família. “Desde a tragédia imposta aos dois, seguem, sim com acompanhamento psicológico, o que se mostrou indispensável para ajudá-los a enfrentar tudo que ainda estão passando. Infelizmente, a realidade é dura e não pode ser mudada, qualquer um que a conheceu faria de tudo para ter Carolina de volta”, cita Jussara Albino Oda Moretti, advogada que representa a família de Carolina Dini no caso.

“Os filhos de Carolina estão recebendo cuidados e acolhimento da família. Eles não mudaram de escola. Aliás, as duas escolas fizeram um trabalho de acolhimento junto com psicólogos que orientaram os outros alunos sobre a importância de apoiarem os colegas nessa situação”, completa.

De acordo com o psicólogo Sérgio de Oliveira Santos, membro da Associação Brasileira de Prevenção ao Suicídio, é importante que haja esse acompanhamento psicológico para que o trauma, mesmo que presente, não cause danos ainda mais severos.

“Diferente de um trauma físico, em que a gente consegue enxergar, não dá para fazer isso num trauma psicológico. A gente só encontra os efeitos dele”, explica. “O trauma é caracterizado por uma experiência muito aguda, é carregado de emoções que uma pessoa não consegue dar conta. Essas crianças perderam a mãe de uma maneira muito cruel, e não ter condições de reagir a esse sentimento é muito conflituoso”, completa.

“Em um caso de feminicídio, a situação também é muito conflituosa, porque o assassino também é uma pessoa que ela ama. Essa relação de amor e ódio com o próprio pai, por exemplo, precisa ser muito bem trabalhada”, explica Santos.

FORMAÇÃO DO TRAUMA
De acordo com o psicólogo, existem diferentes tipos de trauma, que vão de físicos a psicológicos. Além disso, um trauma psicológico pode causar influência na saúde física de uma pessoa, criando as chamadas doenças psicossomáticas. “O trauma psicológico é, na maioria das vezes, um acontecimento que a gente não consegue prever”, diz. “Neste caso de feminicídio, por exemplo, a pessoa recebe a notícia com espanto, o que ativa o nosso sistema simpático, que vai nos colocar num modo de ação diferente do cotidiano. Então, podemos nos preparar para atacar, fugir”, explica.

Assim, a mente começa a agir para tentar proteger a pessoa. “O nosso sistema nervoso central congela parte dessa experiência e manda para o inconsciente. Para a psicologia, quanto mais a gente fala sobre, mais conseguimos assimilar os fatos e elaborar os traumas. E falar pode ser também um ato de brincar, desenhar, pintar, não só o uso da voz. Por isso, é importante que ela seja acolhida para que, apesar desse acontecimento, ela possa ter uma vida saudável”, finaliza.