No dia 18 de agosto de 2019, as irmãs Elaine Emanuelle Ribeiro, 28 anos, e Lariça Ribeiro, 27, perderam o pai e a mãe. Não, não foi um acidente em que ambos estavam juntos. Foi mais doloroso. Talvez revoltante seja o termo adequado. Naquele domingo, o pai delas matou a mãe com 8 facadas, já que não aceitava o divórcio após 30 anos de casados. Eliana de Jesus Silva Ribeiro, com 47 anos, foi mais uma vítima de feminicídio em Piracicaba - a cidade já contabiliza dois casos em 2023.
“O relacionamento dos meus pais sempre foi de muita briga e discussão, meu pai era machista, autoritário, violento. Por diversas vezes ele levantou a mão para ela e em todas ela revidava. Na maioria das vezes, eu e minha irmã presenciávamos essas brigas, eu lembro o primeiro tapa que eu vi. Eu tinha 7 anos. Com o tempo, começamos a enxerga-lo como inimigo e a convivência foi ficando cada vez mais difícil. Sempre que ele bebia, mudava totalmente o comportamento, ficava ainda mais agressivo. Minha mãe trabalhava muito e isso deixava ele revoltado. Descontava em mim e na minha irmã, apanhávamos por nada. Eu tinha raiva e medo do meu pai”, conta Lariça, que é representante comercial.
Ambas irmãs também presenciaram traições do pai e depois de tantos anos de sofrimento, Eliana decidiu largar o marido. “Foram muitas traições. Aúltima com uma garota de programa de 16 anos que frequentava o bar que eles tinham juntos; minha mãe descobriu olhando a fatura do cartão. Depois desse dia, ela começou a planejar o divórcio. Final do ano de 2018, ela nos disse que iria se separar. Que felicidade! A gente vibrou junto e apoiamos. No começo de 2019, ela teve uma conversa com o meu pai, que surtou. Naquele momento, ele a xingou de tudo que era nome, se recusou a dar a separação. Sabia que havia perdido a “empregada” dele. Ela lavava, passava, cozinhava, cuidava dele enquanto ele a traía por aí”.
TRAGÉDIA
O crime aconteceu na casa de Lariça. Eliana estava morando com ela provisoriamente pois a ideia era voltar para sua cidade Natal, na Bahia. A filha ia trabalhar e seu esposo e filhos (netos de Eliana) iam para um aniversário. Por volta das 14h, o pai – chamado Edilson Eugênio Ribeiro – apareceu bêbado e Lariça pediu que ele fosse dormir para passar a embriaguês. Ele ficou na casa enquanto Eliana foi levar a filha ao trabalho, no shopping. “Chegando lá, nos despedimos, ela disse ‘vai com Deus, até mais tarde’ e eu falei ‘fica com Deus você também’. Esse foi o último dia que eu a vi e ouvi a voz da minha mãe, foi a nossa despedida”.
Às 17h, o esposo de Lariça ligou dizendo que uma briga entre os dois havia acontecido. De volta em sua casa, ficou sabendo de tudo: que a mãe foi esfaqueada e que se arrastou pela casa, sangrando, pedindo ajuda. Eliana foi socorrida, mas morreu no hospital.
“Foram 8 facadas em um ato cruel, minha mãe agonizou no chão e enquanto isso, meu pai foi atrás dos documentos dela, roubou a bolsa dela, ela se rastejou até o portão para pedir ajuda. A morte foi por hemorragia, ela sangrou muito. Dava tempo de socorrer se ele quisesse”, conta a outra filha, Elaine Emanuelle, que é vendedora e mora em São Paulo.
A filha mais velha diz que ela e a irmã não superaram e dificilmente isso vai acontecer, já que a violência contra a mãe foi brutal. “Nós estamos lidando com a dor. É isso que fazemos. Lili nos ensinou tudo, menos viver sem ela. É um dia de cada vez, dói, perdemos uma mãe e um pai de uma só vez. Acordar com isso todo dia é muito doloroso”, finaliza Elaine.
‘Nosso pai nunca pediu perdão ou diz se arrepender’
E dilson Eugênio Ribeiro, de 50 anos, tentou fugir depois de matar a ex-esposa Eliana, mas foi pego em Botucatu. Foi condenado a 14 anos, 4 meses e 28 dias de prisão. Segue preso e nunca mais falou com as duas filhas, apenas manda cartas a elas. “Não pede perdão e não se mostra arrependido. Mas fala que quer ter a família de volta. A família que ele mesmo destruiu”, diz Elaine. “No dia que enterramos a nossa mãe, enterramos também o nosso pai, ali morreu junto todo sentimento que ainda existia por ele”, fala Lariça.
A mãe Eliana trabalhou por 12 nos na casa do professor Adelino Francisco de Oliveira e da servidora pública Maria Tereza Martins de Carvalho. O casal e suas duas filhas viveram um grande luto após a morte da funcionária, já que ela era considerada da família. “Era a alegria em pessoa, era minha amiga, partilhávamos nossas vidas”, diz Maria Tereza.
Sobre a tragédia, ela fala da importância de todos ao redor da mulher que é vítima de violência “se atentar aos sinais”. “Sabíamos dos problemas que tinha com o marido e o que vinha acontecendo após o divórcio. Mas ela não mencionava agressão. Ela guardava com ela. Eu percebia que às vezes ela vinha amuada, chegava triste, mas achávamos que era por causa desse processo difícil da separação”, conta Tereza. “Às vezes, penso que se tivéssemos nos atentado aos sinais, poderíamos ter feito algo mais por Eliana”. Ela e o esposo pontuam que além do relacionamento abusivo, Lili, como era chamada, também estava sofrendo violência patrimonial, já que o ex queria sua casa, seu carro, seus bens.
“É bem complexo definir e apresentar a forte personalidade de dona Eliana. Mulher de muitos sonhos e talentos: articulada, engajada, empreendedora, com muitas habilidades, portadora de uma alegria única e construtiva. Dona Lili acalentava seus anseios e projetos com singeleza e integridade. Mãe amada de duas filhas e avó zelosa de quatro netos, dona Lili planejava retornar à sua sempre saudosa Bahia. Queria estar com sua já idosa mãe, dona Elizia, também sofrida, trabalhadora do campo, cujas mãos calejadas e corajosas criaram os muitos filhos, posteriormente migrantes, construtores de toda a riqueza paulista”, escreveu o professor Adelino em um artigo após o assassinato de sua funcionária e amiga.
Eliana era um exemplo para as duas filhas e para todos que conviviam com ela. “Minha mãe era uma pessoa alegre, sorridente, extrovertida, para ela não tinha tempo ruim, ela enxergava o lado bom das coisas, em tudo! Mulher guerreira, de personalidade forte, nunca dependeu de ninguém, sempre trabalhou pra não esperar nada de ninguém”, lembra Lariça. Elaine concorda e fala da característica marcante que sua mãe tinha e que era uma marca só dela. “O sorriso dela era muito contagiante, essa é a maior lembrança da Lili, uma mulher bondosa, prestativa e que amava viver”, diz Elaine Emanuelle.
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