10 de julho de 2026
COM A BOLA TODA

‘Dou instruções para o meu time e muita gente diz que eu tenho espírito de liderança'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 5 min
Alessandro Maschio/JP
As meninas treinam no campo do Jaraguá em busca de um futuro brilhante no futebol

“Percebo que imponho autoridade em campo. Dou instruções para o meu time, falo o que tem de fazer e muita gente diz que eu tenho espírito de liderança. Por eu ser forte e alta, já um certo espírito de liderança”.

A frase acima poderia ser perfeitamente de um jogador de seleção ou com passagens por grandes clubes. Mas é da pequena Julia, zagueira de apenas 12 anos, que impressiona nas palavras e sabe o que quer quando está dentro das quatro linhas. 

Ela é uma das cerca de 50 meninas que participam do projeto do time feminino do Caldeirão, que, em parceria com a Selam (Secretaria de Esportes, Lazer e Atividades Motoras), procura meninas talentosas com a bola no pé no campo do Jaraguá.  

Julia conta que começou a dar os primeiros passos no futebol junto com o período de alfabetização escolar, entre os seis e sete anos. “Eu comecei brincando no campinho de areia. Aí, eu comecei a pegar paixão pelo futebol. E meu primo já jogava futebol. Acho que peguei essa paixão por ele.”

O espírito de liderança da pré-adolescente vem da própria personalidade forte que tem, mas também de seu grande ídolo, o zagueiro Thiago Silva, do PSG e da Seleção Brasileira. “Ele ajuda muito o time e sempre está atento às jogadas”, elogia. 

A menina já tem traçada a próxima meta, depois de deixar o Caldeirão e o campo irregular do Jaraguá. “Se Deus permitir, eu me vejo jogando profissionalmente, fora ou dentro do país mesmo”, projeta. E se o futebol não der certo?: “Tem de ter segundo plano, claro!”, responde Julia, que também pretende fazer faculdade de Educação Física.

GÊMEAS

As irmãs gêmeas Janaína (zagueira) e Jaqueline (meia), 16 anos, estão há cerca de sete meses no projeto e amam jogar futebol. Ambas - como quase a totalidade das meninas do projeto - sonham ser profissionais da bola um dia. “Eu consigo marcar bem e driblar também”, diz a tímida Janaína, que já procura mostrar suas qualidades. 

Mais à vontade, Jaqueline vê evolução após iniciar os treinos no Jaraguá. “Meu futebol está melhorando bastante”, contou a meia, que é fã de carteirinha do atacante Endrick, do Palmeiras. “Ele tem a mesma idade que eu tenho e já joga no profissional. É muito esforçado”, conta a meia, admirada.

A também zagueira Isabelli quer, como mesma diz, “realizar meus sonhos e jogar em times de fora, ganhar meu dinheiro e aprender mais sobre o futebol”. “Minha marcação é boa e ajudo muito minhas parceiras com passes”, conta a menina, que aprecia o trabalho do Cristiano Ronaldo e da Tamires, do Corinthians.

MARTA E FORMIGA

Durante sua estada no projeto, a atacante Beatriz espera aprender mais e mais o ofício de fazer a rede balançar. “Estou fazendo bastante gols. Não está naquele nível, mas melhorei bastante. Atacante é complicado, vive de gol; se não faz vai para o banco; tem de ter muito bom posicionamento”, falou.

Beatriz tem como ídolos a craque Marta, a ex-jogadora Formiga e a Beatriz Silva, da Seleção Brasileira. “Sonho conhecê-las e, literalmente, jogar com elas. Será um sonho muito alegre se eu conseguir”, revela.   

GOLEIROS

O projeto social do Caldeirão no futebol feminino foi retomado no final do ano passado, após superado o pico da pandemia da covid-19. Esse trabalho é feito há cerca de 10 anos, mas agora tem tudo para se consolidar. O fato de o futebol feminino ter mais visibilidade e ter maior apoio dos grandes clubes justifica maior interesse das meninas. 

No Caldeirão, o trabalho é desenvolvido pelos professores João Salles de Barros, Rodrigo Dias, Leandro Silva, que pretendem colocar neste ano o time nas principais competições da FPF (Federação Paulista de Futebol). “Está previsto um festival Sub-12 e Sub-14; depois tem o Paulista Sub-15, Paulista Sub-17, Campeonato Paulista Sub-20 e o Campeonato Paulista Adulto Livre”, enumera Leandro Silva.

Além desse calendário extenso para as meninas, elas ainda deverão também representar Piracicaba nos Jogos Regionais. 

No final do ano passado, a equipe do Caldeirão participou do Campeonato Paulista da Divisão Especial da FPF. O time não passou da primeira fase, mas fez bons jogos e representou a cidade em duelos contra a Francana, SKA Brasil, Mauaense, Pindamonhangaba e Independente de Limeira.  

E O FUTURO?

O futuro do futebol feminino é promissor. Pelo menos é essa a opinião do professor João Salles de Barros. “É um trabalho a longo prazo que já está sendo feito, principalmente com a vinda da (técnica) Pia (Sundhage), essa sueca que conhece muito o futebol feminino. Ela mudou a cara da Seleção Brasileira, dando chance para as meninas que jogam no Brasil”, opina.

O fato de as grandes equipes serem agora obrigadas a ter uma equipe feminina ajuda bastante também. “Por isso, o futebol feminino cresceu muito no Brasil nos últimos três, quatro anos; e a tendência profissionalizar cada vez”, prevê Salles. 

Apesar do bom momento do futebol feminino, uma posição, em especial, ainda preocupa Salles: a de goleiro. Segundo ele, as meninas ainda são reticentes em escolher o posto de guarda-metas. “A gente está buscando goleira e está difícil. É a posição mais complicada para se revelar atletas”, reconhece.  

 

SERVIÇO        

NÚCLEO 1 – Campo do Jaraguá (Avenida Professor Demóstenes Santos Correia, s/n) – treinos às terças, quintas e sábados, das 14h às 17h, e aos sábados, das 8h às 11h. 

NÚCLEO 2 – Campo do Jardim Tóquio (Rua Lins, número 288) – treinos às segundas e quartas, das 14h às 17h.  

INSCRIÇÕES – Abertas. Só procurar os técnicos nos dias de treino com os pais ou responsável.