10 de julho de 2026
RESPEITO À ARTE

‘É como perder uma pessoa’, diz artista sobre obra depredada de Di Cavalcanti

Por Fernanda Rizzi | fernanda.rizzi@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 3 min
Claudinho Coradini/JP
Episódio ocorrido no Palácio do Planalto também deixou artistas indignados com estragos feitos às obras de arte

A pintura “As Mulatas” é uma das mais valiosas e importantes obras que marcam o legado do artista modernista Di Cavalcanti, que também foi desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista brasileiro, a partir da década de 1920. Na época, a sua arte foi um diferencial de outros movimentos artísticos, reconhecida pelas suas cores e características culturais e cotidianas do povo brasileiro.

No dia 8 de janeiro, a obra foi depredada com sete perfurações no local onde se situava: no Palácio do Planalto, considerada a peça principal do Salão Nobre, onde foi incorporada pelo presidente Collor, em 1991. Segundo o governo federal, a peça é estimada no valor de R$ 8 milhões e pode atingir até cinco vezes mais em leilões devido à sua dimensão histórica, além de ser uma peça pertencente ao patrimônio público e fora do mercado.

Além dessa obra, outras como: “Bandeira do Brasil”, de Jorge Eduardo; “O Flautista”, de Bruno Giorgi; “Galhos e Sombras”, de Frans Krajcberg; “Bailarina”, de Victor Brecheret e “Maria, Maria”, de Sônia Ebling também foram marcadas pelo ato de violência e terrorismo

O Jornal de Piracicaba procurou artistas piracicabanos e presentes na cidade para conversar sobre a necessidade de preservação à arte e o legado que os artistas deixam dentro do contexto cultural e histórico do país, muitas vezes, sem o reconhecimento da população.

“Di Cavalcante é um dos maiores pintores brasileiros e deixa um legado modernista para arte brasileira. Ele foi o artista que ilustrou o cartaz e o catálogo da Semana de Arte Moderna de 1922”, relata Bruna Caritá, coordenadora da Bauhaus Brasil e curadora das exposições artísticas que passam pelo espaço. “Em suas obras é muito comum as figuras femininas retratadas em formas cilíndricas e sensuais. O artista utiliza de uma profusão de cores com referências com a realidade de nosso povo, explorando o samba, a sensualidade da mulher eaboemia”, comenta ela.

A curadora enfatiza que a necessidade da preservação das obras vem da ampliação do conceito de patrimônio cultural garantida pela Constituição Federal de 1988, que fez com que as políticas públicas do setor cultural, a partir das últimas duas décadas do século 20, se adequassem às novas visões de preservação do conjunto de bens culturais materiais e imateriais no país, especialmente em referência às identidades coletivas do nosso povo.

Bruna também diz que há dois tipos de visões para a preservação eorestauro das obras de arte: “uma visão mais conservadora no sentido de manter, preservar e facilitar o acesso, e a visão de projetos desenvolvimentistas, de modernizar, transformar e valorizar a obra de arte no contexto do seu tempo atual. Independente dessas duas visões distintas,o restauro é uma atividade que requer muito preparo técnico a partir de um forte conhecimento teórico e histórico”, explica.

Para o artista plástico Natal Gonçalves, professor da Esalq/USP e membro da diretoria da Apap (Associação Piracicabana dos Artistas Plásticos), é uma situação que dói ver a obra de outros artistas sendo depredadas. “Ele gastou horas e a vida inteira para a sua criação, é um resumo de sua vida. Então, para nós artistas, é como uma dor muito forte. É como a perda de uma pessoa”, disse.

Gonçalves explica que a situação é agravante, por mais que a obra possa ser restaurada jamais será como era, podendo perder a sua essência. “Na época, o tecido mais usado era linho e começa a existir o problema do suporte da tela. Na idade média usava muito madeira, então as pinturas eram feitas na madeira e já havia a preocupação de isolar a pintura. No caso das obras de Di Cavalcanti, dá para trabalhar se os buracos forem resolvidos. Teria que ser realizado uma trama por trás para poder isolar e pintar em cima. Essa é a dificuldade. Isso também faz com que o valor da obra caia, pois houve interferências”, explica ele sobre a possibilidade de restauração.

“Para mim, foi muito importante conhecer as obras de Di Cavalcanti. As pessoas podem falar de Picasso ou outros artistas, mas o Di Cavalcanti manteve a sua identidade brasileira, pode ter tido alguma influência, mas se manteve”, finaliza Gonçalves.