08 de julho de 2026
SUPERAÇÃO

Um Natal de superação às drogas

Por Nani Camargo |
| Tempo de leitura: 3 min
Arquivo Pessoal
Rafael tem 47 anos, luta contra as drogas: superação

Neste Natal, Rafael (nome fictício) vai comemorar o fato de estar “limpo” há 1 ano e três meses. Morador de Piracicaba e com 47 anos, ele passou boa parte da vida neste vai e vem: uso de drogas, internações, recuperação, recaídas e, novamente, internações. Foram 14 no total, somando pelo menos 8 anos dentro de uma clínica para dependentes químicos.

Perdeu namoradoras, a mãe da sua filha, empregos, apanhou na rua. Hoje, não se vê recuperado. Diz apenas que sua doença, a adicção, só não está ativa. “A doença da adicção é progressiva, incurável e fatal. Leva a três caminhos: à instituição, cadeia ou morte. Eu conheci um serviço de ajuda a dependentes e, depois de muito tempo, consegui ficar limpo. Sempre terei vontade de usar drogas. Mas não tenho mais o desejo. Sou um ex-usuário, mas sempre serei um adicto”, contou ao JP.

Hoje, a história de Rafael pode inspirar muita gente que quer largar o vício. E para entender todo o processo que esteve envolvido com álcool, maconha, cocaína, crack, ele teve que voltar à infância. “Desde criança eu já me sentia diferente, tinha comportamentos típicos de adictos, como mentir, roubar, manipular. Lembra do Biotônico Fontoura? Que tinha álcool? Eu esperava minha mãe dormir e tomava escondido. Nas festinhas de criança, eu roubava todos os brigadeiros, comia tudo e depois passava mal. Uma vez fui dormir na casa de um amiguinho e furtei o dinheiro que estava guardado dentro de um Buda para comprar doce. Eu sou egocêntrico, compulsivo e obsessivo, minha doença traz isso, eu não tenho controle de nada e isso acontece desde criança”, explica.

Fatores externos e familiares também influem e trazem consequências duras. O pai dele foi embora de casa muito cedo e Rafael soube quem era seu verdadeiro pai depois dos 30 anos. Aquele que ele achava que era seu pai – um dos companheiros que a mãe dele teve ao longo da vida – teve uma morte trágica quando ele era criança: o homem, que era alcoólatra, desapareceu e foi encontrado uma semana depois morto, no Rio Piracicaba.

Aos 7 anos, foi abusado por uma vizinha. “Eu era muito reprimido, tinha medo de tudo. Até que um dia minha mãe se casou com um policial e eu cresci, cheguei à vida adulta em um regime militar. Eu apanhava até de cacetete. Com 23 anos, o marido da minha mãe deixou eu sair de casa com amigos, para me divertir. E aí eu conheci o álcool. E mudei. Eu era tímido e passei a me sentir diferente. Eu não chegava nas meninas e a bebida me ajudou. Fui conhecendo outras drogas e minha vida ficou paralisada nisso”.

GRUPOS DE AJUDA

Sua ida a um grupo de apoio foi em 2000, mas ele não seguiu adiante. Se internou e voltou a usar drogas várias vezes. Foi em um desses grupos que conheceu a mãe da sua filha. “O que não é recomendável. Dois adictos juntos são problemas. Tanto que a mãe e minha filha, de 6 anos, moram em Ribeirão Preto. Tenho pouco contato com elas. Pago pensão e isso não é mais que minha obrigação”, diz Rafael.

A virada de chave e a melhor decisão da vida dele veio mesmo há um ano e três meses. Quando, no fundo do poço, decidiu parar. As reuniões do grupo de apoio e remédios o ajudaram nessa luta de, primeiramente, entender que é doente. “Me rendi à minha doença, não posso bater de frente com ela, senão eu perco, eu respeito minha doença. Mesmo parando de usar drogas, essa doença cresce, ela não estaciona. Minha única saída é ir pra sala do grupo de ajuda e partilhar. Fazer os 12 passos. Perdi meu tempo, não fiz faculdade e não tenho profissão. Moro em uma chácara com minha mãe e faço alguns serviços de jardinagem quando me pedem. Não preciso provar nada para ninguém, só a mim. Quero buscar ser alguém produtivo. Quero minha filha de volta e ser inserido na sociedade”, finaliza.

No Brasil, em 2021, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 400,3 mil atendimentos a pessoas com transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de drogas e álcool. Estes são os dados públicos mais recentes até então.