O superatleta José Antonio Teixeira Leite, o Preté, dá uma dica infalível para quem quer, como ele, chegar aos 73 anos em pleno vigor físico e anímico: "É a sua mente que comanda". Considerado uma lenda do atletismo de Piracicaba, Preté vai correr no próximo dia 31 de dezembro a sua 33ª Corrida Internacional de São Silvestre de forma ininterrupta (só não foi à edição de 2020 porque não houve devido à pandemia).
Mantendo uma rotina diária de treinos, atleta é um exemplo para os mais jovens e inspira uma geração de piracicabanos há vários anos. Tanto que criou sua própria equipe, Preté Piracicaba. Serão, ao todo, 25 atletas de todas as idades que vão representar a Noiva da Colina na tradicional corrida de rua paulistana. A Selam (Secretaria de Esportes, Lazer e Atividades Motoras) cedeu um micro-ônibus para levar a equipe à avenida Paulista.
O veterano atleta começou na São Silvestre em 1989 e, desde lá, o evento é prioridade em seu calendário esportivo. "Com a experiência que tenho, vou correr no ritmo de treino e vou completar no dia da São Silvestre 1.275 corridas, desde 2 de fevereiro de 1986", comemora Preté, que pretende vencer os 15 quilômetros da prova paulistana com o tempo de uma hora de quarenta minutos.
Preté nasceu em Charqueada, mas vive na Noiva da Colina há 57 anos, onde trabalhou, cuidou da família e criou os filhos. Quando chegou em Piracicaba, no final da década de 1960, o gosto pelo esporte começou pelo futebol de várzea, antes de encontrar sua grande paixão: o atletismo. Atualmente, mora no Jardim São Luiz e, com a saúde em dia, até hoje segue trabalhando, como piscineiro. Ao chegar à SS, ele fará sua 75ª corrida deste ano, ou 1.823 km, entre treinos e provas oficiais, conforme informações comprovadas em seu GPS.
Para o mataronista, as pessoas têm de dar mais importância às atividades físicas, nem que seja uma caminhada diária. Esse gesto diário, ensina, fará toda a diferença, com uma melhor qualidade de vida e mais saúde. Agora, se por acaso houver algum problema e a pessoa tiver de passar por uma cirurgia, por exemplo, Preté garante que, pelo fato de a pessoa não ser sedentária, a recuperação será mais rápida e eficiente.
"Quando a gente faz esporte, tem as artérias diferentes, o coração diferente. Então, todas as pessoas que tiver em mente ter uma vida melhor, não precisa nem correr. Basta andar de bicicleta, fazer uma hidroginástica, musculação, caminhada... É isso aí, não tem segredo. É só a pessoa ter consciência", explica. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal de Piracicaba em meio a seu treino diário na avenida Cruzeiro do Sul:
Como e quando começou a sua paixão pelo esporte? Sempre gostei de praticar o esporte, desde criança. Tenho fotos de quando eu tinha uns oito anos (praticando esporte). Quando eu vim para Piracicaba, fui jogar bola no varzeano, em 1970. Anos depois, os meus amigos - Laudir Sarto, o português, o Bule, Emílio, João Padeiro, Jonas Quintino - treinavam para a maratona do Rio, em 1985. E como eu tinha uma casa em Ártemis, eu sempre observava quando eles passavam pela pista. E também via a Corrida de São Silvestre e a Corrida Integração e fui pegando gosto. Um dia fui até a Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) treinar e o pessoal comentava para eu correr. E minha primeira prova foi em 2 de fevereiro de 1986. De lá para cá, eu só dei continuidade, já pensando em outras coisas, como quantidade, qualidade, treinamento e como chegar a algumas marcas individuais. Eu não faço as coisas para competir com as pessoas; eu faço para mim, para mostrar que eu posso. Foram 160 corridas de 5 km; 318 de 10 km; 70 meia-maratonas; 85 maratonas; e 21 ultramaratonas, que são provas de 50 km em diante: 50 km, 60 km, 70 km, 100 km; são provas muito difíceis.
Como faz para manter toda essa disposição? Eu comprei todos os aparelhos de musculação. Depois que chego do treino, como o que tenho de comer, bebo o que tenho de beber e vou para a musculação. Três vezes por semana! Por isso, tenho essa resistência. O pessoal olha para mim e diz: 'como esse cara é magrinho'. É por causa disso. Não tem tempo ruim.
Além disso, qual o segredo para chegar aos 73 anos na ativa, assim tão bem? Para tudo é sua mente. É sua mente que vai determinar para você comer, trabalhar e praticar esporte. Então, isso vai de cada atleta. Eu quando chego em um lugar gosto de ficar quietinho, concentrado. Porque eu sei que vou correr 10 km, 15 km; vou fazer cinco tiros de mil, 12 de quatrocentos... Então você tem de estar preparado mentalmente. Por exemplo: para fazer uma prova de 100 km em 12 horas, como a de Cubatão, por exemplo, não fácil; é 'casca grossa', tem de passar por várias etapas no percurso... É a sua mente que comanda.
A corrida é um esporte invididual, mas também há muita interação nas provas, ajuda, incentivo... É verdade. Vou contar uma coisa que aconteceu com um amigo meu, mas não vou falar o nome. Durante uma matatona em Curitiba, ele começou a passar mal, eu parei de correr para ajudá-lo e só depois voltei a fazer a prova. Devemos ter esse lado humano também.
Você disse corre desde 1986. Você tem todas as suas corridas catalogadas? Eu tenho todas registradas em casa, com data, nome da corrida, quilometragem... Antes era uma coisa mais simples, mas tinha o registro. Mas agora, eu já tenho um arquivo completo com todas as informações: são 1.274 medalhas, 498 troféus. Na São Silvestre, eu completo 1.275 corridas. Eu registro tudo.
E para a São Silvestre, que fecha o calendário esportivo do ano. Tem um treinamento especial para essa prova? Eu treino o ano inteiro, fazendo musculação, resistência. Não deixo cair. Então agora, seria um tipo de polimento. Você não precisa 'se matar' para treinar. Já estou preparado.
A marca na São Silvestre que o senhor pretende fazer é 1 hora e 40 minutos? Esse é sempre o meu objetivo. Eu não saio na frente na São Silvestre. Isso porque eu já cheguei a tomar cotovelada no peito, vi cara perdendo o relógio, cara tirando foto com outro derrubando ele. Então, agora eu saio mais atrás porque na frente fica aquele 'bolo'. Até sair da avenida Paulista para pegar a Dr. Arnaldo (avenida), no Pacaembu, é aquele monte de pessoas. Então, eu prefiro sair num ritmo mais lento para começar a correr a partir dos três quilômetros, mais ou menos, quando você já está aquecido.
O que o senhor falaria para as pessoas que estão desanimadas para praticar esporte? Olha, todas as vezes que eu estou correndo aqui na avenida Cruzeiro do Sul, durante treino, sempre vejo algumas pessoas caminhando e faço questão de dizer: 'Meus parabéns!". Por que isso? Porque você vai ter uma mente melhor e um organismo melhor para tudo, como em recuperação de cirurgia, por exemplo. Quando a gente faz esporte, tem as artérias diferentes, o coração diferente. Então, todas as pessoas que tiver em mente ter uma vida melhor, não precisa nem correr. Basta andar de bicicleta, fazer uma hidroginástica, musculação e caminhada. É isso não tem segredo. É só a pessoa ter consciência.