10 de julho de 2026
SUPERAÇÃO

Três histórias de vida diferentes com uma luta em comum: a convivência com o HIV

Por Nani Camargo |
| Tempo de leitura: 4 min
Pixabay
JP traz hoje histórias de superação de quem convive com HIV/Aids

Para celebrar o Dezembro Vermelho - Campanha Nacional de Prevenção ao HIV/Aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis – o Jornal de Piracicaba traz hoje histórias de luta, superação, aprendizado e, também, de felicidade. Por mais que receber um diagnóstico de HIV/Aids pareça uma sentença de morte, relatos nesta reportagem mostram que esse pensamento não é verdadeiro.

VANESSA

“Sou Vanessa Campos, nasci em abril de 1972. Diagnosticada com Aids em março de 1992, aos 19 anos. Infectada em 1990 aos 17 anos. Vivendo com HIV/Aids há 32 anos. Viva a vida”. Esta é a descrição do perfil no Instagram @soroposidhiva.

Moradora de Manaus, Vanessa usa a rede social para contar sua história e mais: ensinar a viver com a infecção. “Eu era uma adolescente que se achava bem informada e meu contato com o HIV foi com meu primeiro parceiro sexual. Após descobrir e ter que mudar de cidade para me sentir livre de olhares preconceituosos, eu não admiti deixar meus planos vida morrerem e decidi seguir em frente”, conta.

Claro que todo esse processo de amadurecimento em relação ao enfrentamento do vírus rendeu muita dor. Foi só em 2016 que tomou coragem de escrever seu primeiro depoimento nas redes sociais. “Para mim, falar sobre HIV/Aids é sair de uma solidão terrível que eu vivi por anos. E mostrar para as outras pessoas que elas não estão sozinhas”, escreveu, à época.

E foi assim que virou ativista da causa e criou o @soroposidhiva. No perfil, ela dá muitas dicas sobre qualidade de vida, enfretamentos e prevenção, inclusive, incentivando as pessoas a fazerem, pelo menos duas vezes ao ano, o teste. “Se der positivo, você vai ter acesso rapidamente a tratamentos que lhe garantirão qualidade de vida”.

Vanessa é mãe de três filhos, frutos de dois relacionamentos “sorodiferentes” (um tem HIV e outro, não).

EVANDRO

“Sou ator, cineasta, professor, criador de conteúdo, consultor audiovisual no UNAIDS Brasil, moro no Rio de Janeiro, tenho 35 anos e há sete vivo com HIV”. Evandro Manchini também contou sua história ao JP. “Desde que contrai o vírus, apesar de ter passado por um longo processo de elaboração e reflexões, foi imediato o entendimento que o imaginário do HIV/Aids ainda hoje é referenciado aos Anos 80. Os estigmas e os preconceitos não acompanham os inúmeros avanços científicos em relação ao tratamento e à qualidade de vida (continuam sendo os mesmos e muito grandes), e isso faz com que viver se escondendo seja a escolha de muitas pessoas ao receberem este diagnóstico”, conta.

Dono de um perfil no Instagram com 20 mil seguidores, ele fala abertamente sobre a infecção e ajuda quem se identifica. “Gosto de dizer que o sigilo sorológico é essencial e ele precisa ser garantido, afinal de contas, cada pessoa tem um contexto, uma realidade, e nem todas conseguem falar abertamente. Mas, sigilo é diferente de silenciamento - e considero o fato de poder falar sobre este tema, com identidade e afetividade, uma das nossas curas possíveis”.

Meses atrás, em uma entrevista à CNN Brasil, propôs a reflexão: “E se o HIV fosse um assunto nosso?”. Falou sobre perspectivas em relação ao vírus, o acesso à informação e estigmas. “Acredito nesse caminho. Um caminho que rompe silêncios e que naturaliza a conversa sobre o HIV, fazendo com que ela deixe de ser apenas um assunto de pessoas como eu - que vivem com o vírus - para tornar-se um assunto nosso”.

GUILHERME

“Te ajudo a obter saúde mental vivendo com o HIV”. Esse é o trabalho do psicólogo Guilherme Lima, 29 anos, morador do Rio de Janeiro e que vive com o HIV há seis anos. No perfil @psi.guilima, traz informações importantes sobre saúde e serviços públicos disponíveis a quem convive com a infecção. Diferente do passado, hoje, os medicamentos disponíveis são avançados e eficazes. “Os retrovirais dão qualidade de vida, reduzem o vírus que circula no organismo, sendo possível atingir o nível ‘indetectável’, quando não se transmite mais”, explica.

Ele diz que “é um propósito” ajudar quem precisa. “Quem convive com o vírus tem uma propensão maior em ter depressão, ansiedade e outros problemas de ordem mental. É a aceitação de se viver com HIV, o medo de transmitir a outras pessoas, dificuldades em ter acesso ao tratamento. Tudo isso afeta a saúde mental e física”, cita.

O psicólogo também atua muito na área de relacionamentos – uma barreira a quem convive com o HIV. “A vida sexual e afetiva acaba sendo afetada pelo medo de transmitir, pelo fato de as pessoas com o vírus acharem que não são dignas de uma relação. E quando têm a possibilidade de se relacionar, vem a dúvida de como revelar isso. Mas sabemos que é possível, sim, ser feliz, construir família, trabalhar, realizar sonhos, levar uma rotina normal junto do HIV”, finaliza.