O professor e pesquisador piracicabano Renato Sérgio Jamil Maluf, 70 anos, é um dos nomes indicados para fazer parte do governo de transição do presidente da República eleito, Luiz Inacio Lula da Silva (PT). Com uma vasta experiência na área social e combate à fome, ele vai compor uma das equipes do setor que é a ‘menina dos olhos’ do governo petista: o enfrentamento do problema que atinge mais de 30 milhões de brasileiros.
Nascido em Piracicaba, em 1952, filho do casal Talge e Jamil Maluf, Renato viveu, parte da juventude na região central da cidade, mas com o hábito de frequentar a rua do Porto. Há 32 anos morando fora, ele vem regularmente à cidade natal para rever familiares e amigos. Casado com a biomédica Maria Helena Penatti, ele é pai das psicólogas, Paula (43) e Adriana (38) e avô de Daniel (9) e Beatriz (9).
Sua formação inclui o ginásio e o científico no Sud Mennucci e a graduação em economia na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), onde foi professor entre 1975 e 1990, quando ingressou na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, onde é professor titular recém-aposentado.
Maluf cursou mestrado e doutorado na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), fez programas de pós-doutoramento em Oxford e França. O convite para atuar na transição do Governo Federal, no entanto, não é à toa. Maluf leciona e desenvolve pesquisas em temas relacionados com desenvolvimento, sistemas alimentares, agricultura familiar, sustentabilidade e clima. Ele integrou o Comitê Diretivo do Painel das Nações Unidas de Especialistas em Segurança Alimentar entre 2010 e 2014 e também exerceu - até outubro passado - a função de coordenador da Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).
Neste Persona, o professor fala da experiência na política, trabalhos e expectativa para a missão de atuar na transição.
Como a política entrou em sua vida? O senhor se candidatou a prefeito de Piracicaba em 1982. Como foi a experiência e por que o senhor não tentou novamente o Executivo? O senhor chegou a atuar na prefeitura em qual cargo e com qual prefeito?
Comecei militando na resistência à ditadura militar nos anos 1970, com curta passagem pelo MDB, seguida do envolvimento com a criação do PT em Piracicaba e região. Essa foi a razão de eu me candidatar a prefeito em 1982 na primeira eleição disputada pelo PT, que teve Lula como candidato a governador de São Paulo e José Machado a deputado estadual. Um momento importante ocorreu quando vencemos as eleições em 1988 e nosso querido companheiro Machado tornou-se, pela primeira vez, prefeito da cidade. Fui seu Chefe de Gabinete em 1989. Desde então, acompanho e contribuo com o PT, mas sem novas candidaturas.
O senhor foi convidado para compor o governo de transição na equipe do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como surgiu o convite?
Componho a Coordenação Colegiada do Grupo Técnico Desenvolvimento Social e Combate à Fome da Equipe de Transição, junto com as ex-Ministras Tereza Campello, Márcia Lopes e Patrus Ananias, a Senadora Simone Tebet, o Deputado Estadual André Quintão (PT-MG) e Bela Gil. Penso que o convite se deve ao meu histórico de produção acadêmica e ativismo social neste campo desde fins dos anos 1980. Tenho estreitas relações com colegas pesquisadores no Brasil e no exterior e também com as principais organizações e movimentos sociais que atuam nesse tema.
O senhor já atuou em outros governos do presidente eleito? Quais áreas?
Fui membro (2003/2017) e Presidente (2007/2011) do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, órgão de assessoramento da Presidência da República, autoritariamente fechado no primeiro ato do presidente em fim de mandato que, praticamente, desmontou a área de SSAN/DHA duramente construída por anos, assim como ocorreu com muitas outras.
Nessa transição, o senhor vai atuar na Assistência Social/Desenvolvimento Social e Combate à Fome, uma das principais bandeiras do presidente eleito. O que a equipe espera encontrar de ações desenvolvidas pelo atual governo, há como antever programa e ações nesse sentido?
O que estamos encontrando já era esperado. Ao lado da deterioração da situação social em nível pouco visto antes, temos a degradação do Estado brasileiro como mostra uma infinidade de análises sobre o processo de desmonte de políticas públicas no Brasil iniciado com o golpe parlamentar de 2016 e bastante agravado pelo governo que se encerra. Fechamento de programas e espaços de participação, redesenho de programas para pior, cortes orçamentários, desqualificação do corpo de servidores, entrega de funções civis a militares despreparados para elas, etc. A equipe de transição está trabalhando com cronograma apertado e falta de informação, pior, informação mal organizada que parece proposital. As prioridades são ações imediatas, desenho de estrutura ministerial sem grande detalhamento e desarme de bombas orçamentárias e legais. No nosso caso, posso ressaltar quatro: imediata re-instalação do Consea na Presidência da República para assegurar integração de ações com participação social; recomposição do Cadastro Único que foi desprezado apesar se ser reconhecido instrumento de gestão da transferência de renda que será muito aperfeiçoada em função do improviso eleitoreiro do Auxílio Brasil em 2022, bem como a garantia de recursos para a transferência de renda; imediata recomposição do valor per capita transferido pelo Governo Federal para a compra de alimentos da alimentação escolar, que está congelado há tempos num contexto de inflação de alimento; recomposição da área e programas voltados para a agricultura de base familiar, diversificada e agroecológica. Como pano de fundo, temos a negociação da chamada PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Transição.
Passada a transição, o senhor deve continuar no Governo Federal? Houve alguma conversa com o presidente eleito para sua permanência e, se houver, o senhor pretende seguir com o trabalho?
Não. Todas as minhas atuações até agora foram em caráter voluntário e assim continuarão a ser. Há uma difícil reconstrução de um país destroçado com a qual me sinto comprometido e que, penso, deveria ter engajamento coletivo.
Segundo o presidente eleito Lula, há mais de 30 milhões de brasileiros passando fome. Como o governo deve enfrentar essa situação e quais devem ser as primeiras medidas para ao menos amenizar esse problema social?
Esse número foi gerado por dois inquéritos da Rede Penssan reconhecidos pela comunidade científica nacional e internacional e que o atual governo tentou desqualificar num inaceitável comportamento desrespeitoso para com o sofrimento da população. Assim como fez com os sofrimentos causados pela pandemia da covid-19 que chegou a ironizar. Os inquéritos mostram que a fome já estava em crescimento desde 2016/2018 e foi agravada pelo (não) tratamento dado à pandemia. O desafio é combinar ações que enfrentem de imediato a situação de emergência com transferência de renda e ações complementares que reduzam o grau de insegurança alimentar, com ações com horizonte de tempo um pouco mais ampliado, como aquelas voltadas para a geração de emprego formal, recomposição de direitos sociais e estímulo à produção de base familiar. Acima de tudo, há que reconstruir a esperança que estimula as pessoas, gestores e não gestores, a colaborarem com a reconstrução, o que felizmente já vem ocorrendo nesta e em todas as demais áreas.