Marianna Ricciardi Curi é médica veterinária formada em 2003 pela Unipinhal (Centro Regional Universitário de Espírito Santo do Pinhal), no estado de São Paulo, com especialização em clínica e manejo de animais silvestres pela Unisa (Universidade Santo Amaro), desde 2005.
Em Piracicaba, ela começou a trajetória profissional em 2006, como médica veterinária do Zoológico Municipal, onde trabalhou por 10 anos, também como diretora.
Ela continua vinculada a Prefeitura de Piracicaba na gestão atual de Luciano Almeida (União Brasil), como funcionária da Sedema (Secretaria de Defesa do Meio Ambiente), onde trabalha com fauna in situ, que consiste no manejo de animais silvestres nas próprias paisagens naturais de origem, sem uso de cativeiros. A função dela não só contempla atividades em campo como também projetos de educação ambiental e pesquisas.
Na Sedema, Marianna também trabalha no Curral Municipal, conhecido popularmente na cidade como “Disk Animais”. O espaço abriga médios e grandes animais (caprinos, ovinos, suínos, bovinos e equídeos: equinos, asininos e muares) abandonados ou soltos de maneira irregular em vias públicas, rodovias, áreas verdes e em todo perímetro da cidade, além de atender denúncias de maus tratos. O serviço é uma parceria com o Pelotão Ambiental, destacamento da GCM (Guarda Civil Municipal).
A médica veterinária atua ainda no Núcleo de Bem-Estar Animal, instituído em Piracicaba na gestão de Luciano Almeida, onde averigua situações de maus tratos de animais de pequeno porte.
Nesta entrevista ao Persona, Marianna aponta a necessidade de defender macacos contra retaliação por conta da nova varíola.
Macacos podem transmitir a varíola aos seres humanos?
Eles não apresentam riscos de transmissão para nós. A transmissão tem se dado de pessoa para pessoa. Os macacos não têm culpa. Eles não são os vilões e, sim, vítimas como nós humanos, e não devem sofrer nenhuma retaliação. Não devemos maltratá-los, tampouco matá-los, pois isso não vai frear a transmissão do vírus. Devemos protegê-los, por conta do papel de grande importância que possuem na biodiversidade e têm importante papel na manutenção das florestas e auxiliam nos serviços ecossistêmicos – serviços reguladores na natureza, como na polinização, dispersão de sementes nativas, controle de pragas.
Ir ao Zoológico Municipal ou a APPs (Áreas de Preservação Permanente) com a presença de saguis ou outras espécies de macacos, é seguro?
Não há motivo para a população temer os macacos ou ter pânico. Hoje nas nossas áreas verdes e no zoológico, encontramos saguis, macaco prego e bugio, por exemplo. Os macacos brasileiros não estão envolvidos no ciclo de transmissão da nova varíola. A população pode frequentar os espaços normalmente, podem fotografar, admirar, contanto que não alimentem os animais e respeitem o espaço deles. Nós aqui, eles lá, sem contato direto, para garantir a boa convivência.
Se os macacos não transmitem, por que a doença se chama varíola dos macacos?
A varíola dos macacos, ou monkeypox, ganhou esse nome após a primeira descoberta do vírus em macacos, num laboratório dinamarquês, em 1958. Apesar de ser considerado uma zoonose (doença infecciosa transmitida entre animais e pessoas), estima-se que o vírus tenha chegado a humanos a partir de roedores como ratos. Desde então, a infecção tem acontecido de pessoa para pessoa por meio de contato próximo com lesões, além de fluidos corporais, gotículas respiratórias e materiais contaminados, como roupas de cama. Inclusive, a OMS (Organização Mundial da Saúde) estuda renomear a doença para evitar que situações de maus tratos contra os animais ocorram.
E quem está com receio do contágio pelos macacos, por conta do surto recente de febre amarela? O que você diria a essas pessoas?
Os macacos também não transmitem a febre amarela. Muitos microrganismos afetam a saúde de primatas humanos e não humanos, sendo que muitas vezes os primatas adoecem antes e isto nos alerta antecipadamente sobre a presença de uma doença que pode causar impacto sobre a saúde das pessoas. Ou seja, os macacos servem como animais sentinelas sobre o risco de estarmos expostos a doenças. Eles nos ajudam.
Piracicaba registrou algum caso de algum macaco ferido ou morto por conta da nova varíola?
Não.
Caso uma pessoa identifique um macaco ferido ou morto, quem ela deve comunicar e como?
Caso algum macaco seja encontrado ferido ou morto, ou até mesmo qualquer outro animal, seja silvestre ou doméstico, de pequeno ou grande porte, é preciso comunicar as autoridades. Em Piracicaba, o comunicado deve ser feito imediatamente à Polícia Militar Ambiental no telefone 3522-1260, Guarda Civil 153, Bombeiros 193, Pelotão Ambiental da Guarda Municipal 3422-0200 e 156, para que a gente possa fazer o recolhimento deste animal e encaminhar para fazer as análises necessárias.
Caso alguém tenha um macaco como pet e tenha receio de mantê-lo em casa, o que essa pessoa deve fazer?
É possível entregar o animal ao Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres). Na Região Metropolitana de Piracicaba, o Cras mais próximo é em Araras, o telefone é o (19) 3542-3538.
Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br
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