Professora-pesquisadora tem estudos sobre trabalho infantil e desmistifica transferência de renda
Ana Lúcia Kassouf está entre os 100 melhores cientistas da América Latina. Doutora em Economia pela University of Minnesota (EUA), a profissional integra o grupo de 18 professores da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) ranqueados na recém-divulgada lista Latin America Top 100 Agriculture & Forestry Scientists 2022 – o levantamento tem como base o AD Scientific Index, um sistema de classificação e análise com base no desempenho científico e no valor agregado da produtividade científica dos cientistas. Ela denuncia a precarização da produção científica na redução de verbas e disponibilidade de dados nacionais. Dedicada aos estudos dentro da economia social, Ana Lúcia analisa estatísticas de situações como o trabalho infantil e jovens grávidas.
A pesquisadora e professora atua desde 1988 na graduação e pós-graduação do Departamento de Economia da Esalq. Atualmente, leciona na disciplina de Econometria na integra um grupo de pesquisa internacional, o PEP (Partnership for Economic Policy), que visa auxiliar a área de políticas públicas por meio de estudos econômicos criteriosos em países em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina. Ela comemora estar no ranque TOP 100.
“É muito gratificante ver nosso trabalho sendo reconhecido. Eu sempre me dediquei bastante à pesquisa na USP e tenho paixão pelo meu trabalho. Infelizmente, o governo atual não valoriza pesquisas e nem mesmo o ensino. Minhas pesquisas são baseadas em análises de dados obtidos pelo IBGE, Ministério da Educação, Ministério da Saúde, dentre outros e, portanto, dependentes da disponibilidade de informações de qualidade e de equipamentos de alta performance. Entretanto, as verbas para a obtenção de dados, compra de softwares e equipamentos, para pagamento de bolsistas e para o desenvolvimento de projetos de pesquisas estão cada vez mais escassas. Alguns dados nem mesmo foram divulgados pelo governo federal, e outros foram removidos do site, como é o caso dos microdados do Saeb e da Prova Brasil, que é o censo da educação básica no Brasil e reflete o aprendizado dos alunos durante os últimos anos.”
NÚMEROS & RESPOSTAS
Ana Lúcia Kassouf trabalha com pesquisa de análises de dados e aplicações de modelos estatísticos-matemáticos relacionados à economia social. “Como exemplos, posso destacar estudos abordando o trabalho infantil no Brasil e seus impactos na saúde, escolaridade e rendimentos futuros desses indivíduos. Crianças que trabalham, muitas vezes, abandonam a escola e mesmo quando não o fazem, têm seu rendimento escolar afetado, pois, estudam menos e faltam mais às aulas. Isso resulta em postos de trabalho de pior qualidade e baixos salários, perpetuando o ciclo de pobreza dos pais.”
Ela também usa seu conhecimento para combater pela ciência mitos sobre o assistencialismo. “Também tenho pesquisas avaliando o impacto de programas sociais, como o Bolsa Escola/Bolsa Família, na escolaridade das crianças. Apesar de criticado como assistencialista por leigos, o Programa Bolsa Família tem um baixo custo para o País, representando 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) e excelentes retornos para a sociedade. Pesquisas mostram que o programa é responsável pela redução da pobreza e da desigualdade de renda com impactos positivos na escolaridade, nutrição e saúde das crianças.”
A professora-pesquisadora conseguiu revelar o que é visto com maus olhos por alguns e mais: ganhou atenção internacional. “Utilizando oito anos de dados do censo escolar, conclui que o Programa Bolsa Escola/ Bolsa Família foi responsável pelo aumento de matrículas e de aprovação no ensino fundamental, assim como redução do abandono escolar. Esse estudo foi publicado em uma das melhores revistas internacionais de Desenvolvimento Econômico (Journal of Development Economics).”
Mais recentemente, Ana Lúcia analisa como o mercado de trabalho e os rendimentos das mulheres são afetados pela gravidez na adolescência. “Mulheres que tiveram filhos na adolescência estudam menos e recebem salários mais baixos, sendo o quadro ainda mais grave para grupos mais vulneráveis, como mulheres pretas e pardas. Essas pesquisas são de extrema importância para orientar políticas públicas visando a melhoria da qualidade de vida das pessoas, principalmente em um País de dimensões continentais e de grandes desigualdades, como é o caso do Brasil.”
Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br
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