10 de julho de 2026

Insulto a mulheres durante o parto é apenas a ‘ponta do iceberg’ da violência obstétrica

Por edicao_jp |
| Tempo de leitura: 2 min

Procedimentos desnecessários ou não autorizados pela gestante também se encaixam nesse quadro

Violência obstétrica é o termo utilizado para caracterizar abusos sofridos por mulheres quando procuram serviços de saúde durante o pré-natal, parto ou pós-parto. Essa violência pode ser física ou psicológica, e faz da experiência de dar à luz, um momento traumático para a mãe e o recém-nascido.

Existem diversas formas nas quais o serviço de saúde pode ser prejudicial à mulher durante a gestação ou no puerpério (período no qual as mudanças físicas e psicológicas causadas pela gravidez devem ser restituídas ao seu estado anterior), desde intimidação ou agressão verbal, até a negligência de tratamentos.

Entre os exemplos de situações que se enquadram em violência obstétrica estão: impedir que a mulher grite no parto e segurar sua perna durante este mesmo momento; discriminação por idade, raça, classe social ou condições médicas.

“É importante lembrar que a violência obstétrica não se refere apenas a figura médica, ela pode ser realizada por qualquer profissional que faça a assistência dessa mulher e também se trata de algo institucional, por exemplo, quando uma gestante precisa peregrinar à procura de uma vaga na maternidade”, explica a ginecologista e obstetra Adélia Marques, em entrevista ao JP.

Procedimentos desnecessários ou não autorizados pela gestante também se encaixam no quadro de violência obstétrica. A paciente não pode ser desrespeitada ou não informada sobre quaisquer procedimento a ser realizado.

De acordo com a pesquisa ‘Nascer no Brasil’ conduzida pela Fiocruz entre 2011 e 2012, com 23,8 mil mulheres, a maioria delas “foi submetida a intervenções excessivas, ficou restrita ao leito e sem estímulo para caminhar, sem se alimentar durante o trabalho de parto, usou medicamentos para acelerar as contrações (ocitocina), foi submetida à episiotomia (procedimento cirúrgico para facilitar a passagem do bebê), deu à luz deitada de costas, muitas vezes com alguém apertando a sua barriga (manobra de Kristeller). Esses procedimentos, quando usados sem indicação clínica, causam dor e sofrimento desnecessário e não são recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde)”, diz o texto.

Para Melania Amorim, médica pesquisadora, ginecologista e obstetra, durante um trabalho de parto, “qualquer forma de pressão é nociva, não é efetiva, e, portanto, deve ser abolida”.

“Os comandos durante o período expulsivo - como ‘faça força’, ‘trinca os dentes e faça força’ -, já tem a evidência de que não são necessários, mesmo que não sejam francamente agressivos”, ela argumenta.

“Quero dizer que o grande antídoto contra a violência obstétrica é a prática das evidências científicas atuais. Ou seja, as instituições, as maternidades, os profissionais de saúde envolvidos na assistência ao parto estarem bem atualizados, identificarem o modelo humanizado e respeitarem a fisiologia natural do parto. Intervirem, apenas quando necessário e colocarem essa mulher como protagonista do processo, oferecer toda a informação possível e necessária para que ela atue de forma autônoma e tenha a melhor experiência nesse período da vida dela”, complementa Adélia.

Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br

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