09 de julho de 2026

Levantamentos e indicadores mostram explosão de preços de alimento: carne e trigo batem recordes

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 3 min

Consumidores de todas as faixas de renda têm fugido dos produtos de marcas e comprado ‘genéricos’

O mês de março foi marcado por uma explosão de preços dos alimentos, com recordes na carne bovina e trigo e alta generalizada no preço das cestas básicas em todas as capitais brasileiras – segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a mais cara é a de São Paulo, por R$ 761,19, correspondendo a quase 68% do salário mínimo (R$ 1.212). Na outra ponta, os consumidores de todas as faixas de renda têm deixado marcas tradicionais para colocar no carrinho do supermercado os produtos chamados por marca própria das redes varejistas – itens com preço menor em até 20%.

Conforme as análises agromensais do Cepea/Esalq/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, unidade da Universidade de São Paulo), no último dia 24, o indicador do boi Cepea/B3 atingiu R$ 352,05, recorde nominal diário para a série histórica do centro de estudos, iniciada em 1994.

Já o trigo teve suas cotações nas bolsas de futuros norte-americanas atingindo patamares recordes no mês passado. Na Argentina também houve registro de alta expressiva do trigo. A notícia também não é boa sobre o indicador para o arroz: este cereal também registrou uma escalada de aumentos em um período em que o valor cai tradicionalmente por conta do início da colheita no Mercosul.

A situação não está diferente no mercado produtor de frango. Os preços internos de todos os produtos da avicultura de corte acompanhados pelo Cepea registraram forte incremento em março. A movimentação, que se acentuou na segunda quinzena do mês, esteve atrelada sobretudo à maior demanda externa, aponta o centro de estudos.

“Realmente, a demanda externa está alta por conta, talvez, de um reaquecimento da economia, e os preços das commodities agrícolas aumentaram, refletindo em alta também para nosso consumo interno. O dólar vem sofrendo estas baixas devido a entrada de divisas, pelas exportações de commodities e, ao mesmo tempo, pela entrada de dinheiro do exterior, porque estamos com uma taxa de juros real alta. Este dinheiro que entra, na verdade, em termos de ganhos financeiros, não é exatamente para investimentos reais para nossa economia”, observa o professor de economia da EEP/Fumep (Escola de Engenharia de Piracicaba, da Fundação Municipal de Ensino) e da Fatep (Faculdade de Tecnologia de Piracicaba), Francisco Crócomo.

A inflação é um problema a ser equalizado e desafia o acesso a produtos básicos para os mais pobres, destaca o economista. “Temos os aumentos dos preços da energia elétrica, gasolina, diesel, etanol e ainda sofremos com os problemas logísticos da oferta de peças, intermediários, ainda por conta da pandemia [de covid-19]. Essa inflação afeta a população, principalmente a de classe mais baixa.”

A análise de Crócomo vai ao encontro do levantamento feito pela GS Ciência do Consumo. A pesquisa mostra que as idas aos supermercados mudaram quanto a troca de produtos de marca pelos mais baratos: em 2021, as famílias com renda acima de 20 salários mínimos (R$ 24,2 mil) desembolsaram 9,2% a mais com itens de marca própria de mercados por mês em relação a 2020. No polo oposto, as que recebem até dois salários mínimos (R$ 2.424), a alta foi de 16,9% na mesma base
de comparação.

O cenário para o ano é de pressão sobre alimentos e outros gêneros de consumo bem como sobre o agronegócio. “Temos, ainda, o agravamento da guerra, fazendo com que o preço do petróleo suba assim como dos fertilizantes, entre outros produtos que dependemos tanto da Russa como Ucrânia. Portanto, não temos um cenário de queda da inflação. Para que isto acontecer, necessitamos que o dólar baixe ainda mais e exista uma oferta de produtos em quantidade suficiente para abastecer o mercado interno e externo. Em meio a tantos problemas, também estamos em ano de eleição. Já não tínhamos nenhum plano e projetos integrado do governo federal. Agora, presenciamos medidas de última hora, ou seja, de curto prazo, que não pertencem a um plano maior. Existem preocupação com eleições e não com o crescimento e desenvolvimento da nação”, completa Crócomo.

Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br

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