Nascida no dia 30 de janeiro de 1956, Sueli Rodrigues Rabaldelli é a atual presidente da Vaccip (Voluntários em Ação Contra o Câncer Infantil de Piracicaba), cargo que ela assumiu em julho de 2018. Fundada em 2002, a Vaccip é uma entidade sem fins lucrativos que presta serviços gratuitos e permanentes a toda criança portadora de câncer, além de orientação pedagógica e auxílio no tratamento médico.
A Vaccip tem se mantido por meio de um incessante trabalho voluntário. Muito mais do que uma instituição de ajuda à criança portadora de câncer, a instituição tem se consagrado também como um dos mais ativos grupos beneficentes da cidade.
Nesta entrevista concedida ao Jornal de Piracicaba, a presidente Sueli Rabaldelli fala muito abertamente sobre as crianças que a instituição atende, sobre a decorrência da pandemia, sobre as campanhas permanentes, e claro, sobre como a instituição tem se mantido em tempos tão difíceis.
Como você começou a se envolver com os trabalhos da Vaccip até chegar ao ponto de tornar-se presidente?
Eu conheci a Vaccip através de uma campanha. Estava acontecendo uma arrecadação de leite e eu queria ajudar. Foi a época em que estava completando 35 anos de casado. Eu fui até a instituição para levar o leite e foi justamente nessa entrega em que conheci o projeto da Vaccip, antigamente a instituição era lá na rua Gomes Carneiro, e não aqui na Vila Rezende. A pessoa que me recebeu me falou como era o trabalho e como era feita a ajuda às crianças na época. Eu achei tudo muito interessante e decidi ajudar de alguma forma. Na época, a instituição fazia bolos e eu fazia as entregas. Estava sempre ajudando de perto. Aí quando a Vaccip se mudou aqui para a Vila Rezende, me ofereceram para trabalhar como voluntária aqui na casa. Eu vinha às quintas-feiras, quando fazíamos bingo, e sempre auxiliava as demais na cozinha, até porque oferecíamos café e lanches para as senhoras no bingo. Com o passar do tempo, a antiga presente não podia mais ficar no cargo, pois já estava excedendo o tempo dela no mandato -- nossos mandatos são de dois anos e a pessoa só pode ficar mais dois anos no cargo se as voluntárias aceitarem. Como ela já estava para sair, ela me convidou para ser presidente. Na época eu não queria. Eu gosto de trabalhar, de colocar as mãos na obra, mas essas coisas de presidência são muito burocráticas. No fim, aceitei e assumi a presidência da instituição. Foi assim que comecei. Na época eu não sabia nada, não tinha nada de conhecimento. Eu fui conhecendo tudo degrau por degrau, aos poucos. Hoje estou no quarto ano de presidência, esse é meu último. Vou precisar passar o bastão para outra.
Você comentou do bingo que é feito para ajudar a instituição. Esse bingo ainda é realizado?
O último bingo que realizamos foi no dia 12 de março de 2020. Tivemos que parar devido à pandemia. Graças a Deus, de lá para cá, a instituição vem sobrevivendo com a ajuda do povo. Embora tenhamos um dinheiro em caixa, esse dinheiro deve ser mantido como uma empresa. Cabe a nós nesse meio tempo realizarmos as campanhas para que o negócio possa sempre ir aumentando, como se fosse um fermento. Por mais que haja um dinheiro guardado, o negócio tem que ser expandido, foi isso que nos ajudou.
Você comentou das campanhas. A Vaccip está com o Jornal de Piracicaba e com a Arraso numa campanha de leite que vai até o dia 31 de março. Porém, paralelo a isso, quais outras campanhas permanentes a Vaccip tem feito?
Nós sempre pedimos alimentos. Tem uma escola fixa que fica no Centro, próxima ao Banespa, e essa escola sempre faz campanha de alimentos para nós. Eles têm o curso profissionalizante, onde a pessoa se matricula e leva 1 kg de alimento. Com a doação de 1kg de alimento ocorre o desconto. Todos os meses eles sempre nos entregam bastante coisa, como macarrão, arroz, leite, etc. Tudo isso para explicar que, hoje, são as pessoas que nos procuram para a realização das campanhas. Elas perguntam se podem e nós damos a autorização. Outro exemplo: no domingo, 06 de março, foi realizado um encontro de carros antigos na Rua do Porto. Eles arrecadaram os alimentos por lá e, no dia 09 de março, uma das nossas voluntárias foi até a oficina de estética automotiva do organizador do evento para pegar os alimentos arrecadados. Eles disseram até que querem continuar contribuindo conosco. É assim que as campanhas vão aparecendo.
Então a maneira precípua de ajudar a Vaccip é por meio de doação de alimentos. Quem quiser doar, o que precisa fazer?
Se a pessoa que quiser doar não tiver como entregar aqui na instituição, nós vamos buscar. Algum voluntário sempre se oferece para ir. Depois que o JP divulgou uma reportagem sobre arrecadação, recebemos bastante cestas básicas. Veio creme dental, escova de dente, sabonetes, rodos, vassouras, recebemos bastante coisa. O povo é bastante solidário.
Quantas crianças a instituição atende mensalmente?
Hoje estamos com 37 crianças. E nem todas têm câncer. A Vaccip atende uma parte de crianças com câncer, e outra parte de crianças com outros problemas, como anemia falciforme, paralisia cerebral, etc. Caso a família seja muito carente, prestamos assistência.
Então qualquer criança pode ser atendida pela instituição?
Nós analisamos o quadro. Neste momento, estamos com muitas crianças sem quadro de câncer, então precisamos dar uma parada nesses casos, pois esses tipos de enfermidades têm um custo maior para a entidade do que o câncer. Crianças com câncer são assistidas pelo Boldrini, então quando elas vão para lá, já tem todo um aparato. Até dentista essas crianças têm por lá. Por isso, são poucas crianças com câncer que precisam, por exemplo, de algo específico, como é o caso do leite especial. Já nos casos das crianças com outros tipos de enfermidades, um leite especial se torna muito caro. Tem uma criança que assistimos e a ajuda que prestamos a ela é por meio da doação de leite infatrini. Esse leite custa cerca de R$ 115 cada lata. Nós colaboramos com sete latas. Ela veio até a Vaccip, pediu nossa ajuda e por isso contribuímos com esse leite. Já outra criança que assistimos aqui pela instituição leva oito latas de leite fortini, sendo que cada lata pequena está custando em torno de uns R$ 40 -- sem falar da cesta básica e das fraldas. No sábado, dia 05 de março, visitamos também uma criança portadora de AME (Atrofia Muscular Espinhal). Ela provavelmente será a 38ª criança da instituição. Nós iremos ajudá-la com fraldas. A Prefeitura até ajuda com algumas coisas, porém eles estão restringindo muito a ajuda para essas crianças. É uma situação difícil.
Qual é a maior dificuldade que a instituição enfrenta atualmente?
Hoje a dificuldade é justamente isso dos leites especiais, todo mês temos um custo com eles.
A pandemia afetou a instituição de alguma forma?
Não afetou. Foi exatamente nesse período que chegaram para nós muitas doações. Claro que o nosso foco era o bingo semanal, porém, em razão da pandemia, por mais que tivéssemos que parar com o bingo, outras portas acabaram se abrindo. No Natal de 2020, o Águia da PM nos entregou 70 cestas básicas; já neste Natal de 2021, foram mais 70. Terminamos de entregar todas as cestas agora no final de fevereiro, começo de março. O pessoal de Piracicaba é muito solidário. Um dos pontos bons de ser presidente da instituição foi ter possibilitado que eu visse isso.
Quantos voluntários a Vaccip possui atualmente?
São cerca de 30 voluntários. Como ainda estamos sem o bingo, o pessoal está mais tranquilo. A hora que o bingo voltar a acontecer, aí as pessoas voltam a ficar mais ativas.
E tem alguma previsão para que o bingo volte?
Eu pretendo fazer uma reunião semana que vem, mas acredito que o bingo deva voltar a ocorrer no dia 24 de março.
Quem quiser se tornar um voluntário da instituição, o que precisa fazer?
Para ser voluntário, é necessário que a pessoa tenha vontade de trabalhar. Isso é essencial. Precisamos de uma pessoa que tenha tempo livre justamente para nos ajudar a buscar as doações.
Para finalizar, qual mensagem você gostaria de passar às pessoas que lerão esta reportagem?
Muitas crianças doentes estão procurando a instituição, assim como muitas famílias carentes. Minha mensagem é para que as pessoas continuem sendo solidárias com nosso projeto e que sempre procurem nos ajudar. Que Jesus entre no coração de cada um. Todo material que entra aqui, seja dinheiro ou doação, vai tudo para ajudar essas famílias. Eu aproveito e deixo aqui, também, meu agradecimento a todo o povo piracicabano que tem sido muito solidário e maravilhoso conosco.
Rafael Fioravanti | rafael.fioravanti@jpjornal.com.br
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