10 de julho de 2026

Bruno Buldogue: ‘A persistência forma um campeão de MMA’

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 8 min

A persistência e a vontade de vencer talvez sejam são as palavras mais importantes na carreira do piracicabano Bruno “Buldogue” Silva, 31. Nada foi fácil para ele. No começo no MMA, teve muitas vezes de pagar para competir, foi com a “cara e a coragem” para o Rio de Janeiro a fim de tentar uma vaga na academia do Minotauro, e bateu em várias outras portas em busca de uma oportunidade. Porém, a loucura maior, mas que foi decisiva para sua carreira, foi quando, após ouvir de um técnico norte-americano, que o treinava na academia do Minotauro, de que ele tinha de “comprar” uma passagem para o Arizona a fim de vencer no esporte. “Ele não acreditou muito que eu iria. Eu comprei e fui”, disse o piracicabano. Foi o início de uma trajetória de sete anos no MMA nos EUA, três deles no UFC (“Ultimate Fightin Championship”), onde tem contrato desde 2019.

Atualmente, Buldogue Silva está na Noiva da Colina na fase final da recuperação de uma cirurgia no tornozelo direito que fez no início do ano, em São Paulo. Ele deve estrear este ano no segundo semestre, quando planeja fazer pelo menos duas lutas para seguir sua carreira de sucesso no tradicional esporte de artes marciais.

De família simples, “Buldogue” começou no esporte ainda pequeno no bairro Novo Horizonte, periferia da cidade. Iniciou no futebol, como toda criança, depois passou pela capoeira, natação, “breakdance” (dança de rua), skate, até chegar às modalidades de luta. Hiperativo, não parava, até que descobriu as artes marciais. Aos 18 anos, começou a lutar e fez capoeira, “que considero uma arte marcial já”, depois foi para a o muay-thai, jiu-jitsu, boxe, caratê e, enfim, o MMA.

Há 12 anos, ele fez essa decisão. Acertada. Sua carreira decolou. Há sete, a oportunidade de ir para os Estados Unidos, onde, há três, iniciou sua carreira no sonhado mundo do UFC, ou seja, em 2019. Quando disseram para ele para o Phoenix, no Arizona, não pensou duas vezes. Lá se desenvolveu e conseguiu fama na Terra do Tio Sam. “Foi muito bom chegar lá. Tem uma estrutura bem grande de luta. Estar no UFC é muito especial; disputar e viver tudo isso. Estou nos Estados Unidos praticamente há seis anos; já é um bom tempo”.

Nesse ano, ele deu uma pausa na carreira, voltou ao Brasil para fazer uma operação no tornozelo direito com o objetivo de estabilizar os ligamentos. Está voltando aos poucos aos treinos, primeiro por meio da fisioterapia. Aqui em Piracicaba, ele também tem o suporte da academia de amigos, como a do Felipe Vidal, seu grande mestre, e de outros treinadores, como Marcos Ribeiro e Gilliard de Lima, para readquirir a melhor forma física e técnica. Com tudo isso, ele não vê a hora de voltar ao octógono. “O plano é nocautear várias pessoas”, sempre diz, quando pergunta das perspectivas para 2022.

Nessa entrevista abaixo que ele concedeu entre uma sessão e outra de fisioterapia na clínica Care Clube, em Piracicaba, ele conta mais detalhes da carreira e de tudo como aconteceu no esporte. E também como foi através do esporte que ele cresceu como pessoa e atleta. Veja a entrevista na íntegra abaixo:

Como surgiu o MMA na sua vida?

Eu fiz muitos esportes quando eu era pequeno, futebol, capoeira, natação, “breakdance”, skate. Quando eu tinha 18 anos mais ou menos eu comecei a treinar muay-thai, jiu-jitsu, boxe, caratê, tudo meio que junto, na mesma hora.

Você tinha já em sua mente praticar o MMA ou foi meio que obra do acaso chegar nesse esporte?

Antes eu era dos esportes tradicionais, como te disse. Ia junto com a galera. Quando eu tinha 18 anos que comecei a ver mais. Na verdade foi pela televisão. Eu comecei a ver alguns vídeos do Pride, do UFC, de antigamente. E como já era do esporte, já competia na capoeira, no dia a dia treinava com pessoas maiores. Aí, o pessoal falou pra mim: ‘se você lutar com pessoas do mesmo peso…’ Aí que veio a inspiração e eu dizia pra mim mesmo ‘se lutar com pessoas do meu peso eu ganho’. Já tinha uma confiança. Já era competitivo. Já tinha essa mentalidade. Já tinha no coração essa valentia do lutador no meu coração.

Decidido, começou a treinar quando?

Comecei na Sport Way, uma academia muito conhecida em Piracicaba. Lá no 1º de Maio. E com um mês treinando já fui para o jiu-jitsu e MMA com o professor Vidal (Felipe), que já era lutador de MMA. Eu comecei a ver ele lutando. Ver o parceiro dele. Ele era faixa preta de jiu-jitsu e lutava MMA. Via a galera treinando e disse que era isso que queria para minha vida. No primeiro treino já saí na porrada, querendo lutar. Quis lutar e já tomei uma “bomba” na cara e fui embora feliz na certeza de que era isso
que eu queria.

E foi bem rápido esse processo. Daí, quando começou as lutas como profissional?

Foi bem rápido. Eu comecei com 18 anos. Aos 21 eu fiz a minha estreia no profissional. Então foram três anos para estrear no profissional. Na verdade, eu sempre me dediquei porque era isso que eu queria para minha vida. Treinava, trabalhava muito. Foi assim que comecei no MMA profissional. Mas antes de se aventurar nos EUA, ainda houve um longo processo… Fiquei mais ou menos quatro anos aqui no Brasil. Quando fiz 22 anos, eu fui para o Team Nogueira (academia do Minotauro), no Rio de Janeiro. Fiquei mais três anos lá. Foram uns seis, sete anos até ir para os Estados Unidos.

E como surgiu essa oportunidade para ir para os Estados Unidos? Como surgiu o convite? Como foi esse processo?

Tudo começou com o The Ultimate Fighter Brasil, o reality show da Globo, em 2015. Esse foi o começo. O programa seria gravado em Laz Vegas. Esse foi o primeiro contato meu com os EUA. Antes houve uma seletiva para o programa. Tinha muitas pessoas. Tipo 1000 pessoas para oito vagas. Eu já treinava na academia do Minotauro lá no Rio, onde foi a seletiva. E fui muito bem. Já tinha esse espírito. Antes, teve até uma história muito legal na minha entrada na academia do Minotauro. Eu foi para o Rio para treinar lá. Aí a galera não queria deixar. Mas depois o Minotauro chegou na academia e eu comecei a dar ‘mortal’ para chamar a atenção dele. Aí deu tudo certo. E entrei na equipe.

E o The Ultimate Fighter Brasil?

Sim, eu fiquei na equipe do Minotauro e fui para a seletiva, Passei no programa e em 2015 fui para Las Vegas. Ficamos dois meses lá para gravar o programa. Fiz o programa no time do Anderson Silva. Foi bom, eu voltei para o Brasil, mas foi bom porque eu vi como era lá. Aí eu coloquei na cabeça de que eu precisava ir para os EUA, aprender inglês e seguir a carreira lá.

E aí a oportunidade apareceu…

Isso. Na Team Nogueira tinha um professor americano, do exército dos EUA, e ele dava treino para a gente no Rio. Eu falei para ele da minha vontade de ir para os EUA. E ele me disse: ‘compre uma passagem para Phoenix, no Arizona’. Eu falei para ele: ‘vou comprar, hein’. Ele não acreditou muito. Voltei para Piracicaba, vendi a minha moto, comprei a passagem e fui sem conhecer ninguém. Além disso, não falava nada de inglês ou espanhol. Fui com a cara e a coragem. Cheguei na casa de amigos do MMA. Fiquei seis meses. Foi meu começo nos EUA.

E como se estabeleceu lá?

Eu consegui entrar nessa equipe do Arizona. Não fui indicado por ninguém. Só com a dica do meu professor. E é onde estou até hoje. Comecei a lutar os eventos do Arizona e nos Estados Unidos. Em 2016 eu fui para o México. Acabei sendo deportado. Voltei, fiquei um ano no Brasil tentando voltar. Fui para os EUA de novo, fui deportado de novo. Mais voltei de novo. Fui campeão do evento WFF no Arizona fiquei conhecido. Até que em 2019, eu assinei com o UCF. Em outubro de 2019 fiz a minha estreia no UFC.

Foi muita força de vontade para vencer no esporte. Sua história é inspiradora!

A persistência mandou em tudo. A vontade de lutar. Desde o começo na verdade. No Brasil, o MMA é muito difícil. Lutei em muitos eventos, praticamente sete anos sem ganhar nada. Lutando boxe, muay-thai, MMA e vivendo pelo amor pelo esporte. Amo o que eu faço, por isso eu não visava o dinheiro nessa época. Foi tudo na persistência. A persistência de estar lutando em Piracicaba, de ir para os EUA, sair da sua cidade, ficar com uma galera que você não conhece, dividindo o apartamento com quem você não conhece, longe de sua família… é muito complicado. Mas foi assim. Mesmo tendo muitos ‘nãos‘ eu não desisti.

Agora você está se recuperando de uma cirurgia no tornozelo. Quando voltará aos EUA e às lutas?

Pretendo voltar para os Estados Unidos no segundo semestre. Eu tenho contrato com o UFC para mais três lutas e pretendo fazer pelo menos duas ainda neste ano.

Para terminar, uma curiosidade. Como surgiu esse apelido Buldogue?

O apelido surgiu do meu professor Felipe Vidal, que me disse que tinha cara de Buldogue e era pequeno. Então, ele falava que eu parecia um buldogue forte, que i para cima, era guerreiro e assim começou a me chamar de buldogue, apelido que ficou até hoje.

Erivan Monteiro
erivan.monteiro@jpjornal.com.br

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