Equipe de reportagem do Jornal de Piracicaba conversou com quatro vítimas, entre elas duas denunciantes
Após a demissão do professor Claudio Lima de Aguiar, da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), em Piracicaba, por “reiteradas práticas de assédio sexual e moral” contra seus orientandos na pós-graduação, o Jornal de Piracicaba conversou com quatro vítimas, entre elas duas denunciantes signatárias. Todas preferiram manter a identidade sob anonimato, com medo de represálias. Elas serão tratadas nesta reportagem, por nomes* fictícios.
De acordo com os relatos, o ex-professor procurava se mostrar amigável e solícito com as alunas, mas, com o passar do tempo, adotava condutas abusivas que envolviam “proximidade física e contatos indesejados, inclusive beijos no rosto e, frequentemente, toques em parte do corpo”. Apelidos também eram comuns: “gorda”, “gayzinho”, “preta” e “burra” são alguns dos termos com que ele costumava se referir a outros alunos e alunas, durante as aulas e na presença da maioria, contam os estudantes.
Engenheiro químico, Aguiar era professor do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição (LAN) da Esalq. Ele exercia a função de coordenador do programa de pós-graduação em Microbiologia Agrícola. Desde então, uma comissão processante analisava as acusações. A exoneração foi assinada pelo reitor da USP (Universidade de São Paulo), Vahan Agopyan no último dia 20 de dezembro, mais de dois anos após o início do processo interno. A Congregação da Esalq aprovou a demissão em novembro, por 62 votos favoráveis e três abstenções.
Em entrevista ao JP, Milena* conta que a queixa que resultou em um processo de sindicância administrativa contra o professor, foi feita por ela, quando era aluna de mestrado sob orientação de Aguiar. Ela havia desenvolvido crise de ansiedade em razão de uma série de atitudes do docente. Entre elas, apalpadas na coxa, comentários sexistas, convites indecentes e abusos de autoridade, como atribuir e questionar o desempenho na pesquisa, à frequência e teor do conteúdo que postavam em suas redes sociais.
Milena* chegou a procurar a presidência da pós-graduação para comunicar a desistência do mestrado, mas pediram que prosseguisse na pesquisa, com o respaldo de que alterariam o professor responsável. Na mesma situação, foi orientada a abrir uma denúncia. Para fortalecer o processo, ela procurou outras vítimas de Aguiar, inclusive de anos anteriores.
Victoria* relata que o docente tinha o hábito de se fechar em sua sala com suas alunas, durante as orientações. “Ele pedia para sentarmos mais perto e desviava o assunto, fazendo comentários invasivos sobre a vida pessoal”, complementa.
Em março de 2016, enquanto pretendia mostrar a Aguiar o andamento do seu projeto de dissertação, ele insistiu em colocar as mãos em seus ombros para fazer uma massagem, apesar das repelidas, com a alegação de que ela estaria “muito nervosa”. Com a porta fechada, ele “passou a perna atrás de mim e como eu estava sentada num banco, ele aproximou a carteira e começou a fazer massagem. Nesse momento, eu me senti muito acuada. Depois, ele colocou a mão por baixo da minha blusa e abriu meu sutiã. No meio da sala, eu travei os braços no corpo e gritei ‘para, professor!’. Fechei meu notebook e fui embora. Quando cheguei em casa e fui tomar banho, me esfregava de tanto nojo que sentia de mim mesma”—afirma.
Após o ocorrido, Victória* optou por permanecer sob orientação de Aguiar, visto que faltava pouco tempo para a defesa de sua dissertação. Porém, sofria com as consequências da situação de assédio. Seu relacionamento amoroso passou a ter adversidades, sua confiança nas pessoas foi abalada e teve o diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada, confirmado.
A ex-aluna Carolina* conta que frequentemente era chamada de “gostosa” pelo professor. “Ele me chamava assim na presença de outros alunos. Houve uma das reuniões com o time de orientados que ele me questionou: "Se eu te paquerasse no ponto de ônibus, você me daria bola?", aquilo me deixava muito desconfortável. Parecia que eu era uma fantasia para ele. Para passar a revisão dos trabalhos, ele sempre fechava a porta e já chegou a apalpar minha coxa. Era muito triste e constrangedor”, afirma.
Alan*, chamado de “gayzinho” por Aguiar ouvia comentários frequentes durante a aula com ofensas à sua sexualidade e disse que o acusado parecia não se importar em fazer isso na frente de todos. “Era uma sucessão de horrores diários […] Acho que ele tinha o sentimento de impunidade”.
Questionada quanto à resolução do caso, Milena* comenta que se sente “aliviada”, pois que a situação que viveu não irá acontecer com outras estudantes.
Victoria* disse que é uma “decisão história”, uma vitória e um alerta aos demais professores que podem vir a assediar alunos.
Para Carolina* foi “dar voz” ao caso junto aos demais alunos, para que as pessoas que sofrem com esse tipo de situação não se calem”. O JP não conseguiu contato com Aguiar.
Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br
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