BC não conseguirá corrigir inflação com alta de juros, o que também influenciará negativamente o crescimento do País
Dólar a quase R$ 6 e crescimento econômico a 1%, ou menos, estão entre os dados apresentados nas perspectivas para o agronegócio de 2022, de autoria de Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros, coordenador científico do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, unidade da Universidade de São Paulo). Especificamente para o agronegócio, a projeção é a de que se mantenha o crescimento da produção, mas com queda nos preços reais. Em meio à crise econômica brasileira e pandemia de covid-19, Camargo Barros aponta a indústria como o setor mais prejudicado e perda de fôlego da construção civil.
A inflação é outro ponto preocupante para o coordenador do Cepea dentro do cenário doméstico. “Por um lado, será largamente afetada pela trajetória do câmbio, que depende bastante dos rumos político-institucionais do país, que tendem a se agravar num ano eleitoral como 2022. Ainda do lado da oferta, o custo da energia pesa sobre a produção – e duramente sobre o consumidor – enquanto as condições climáticas permanecerem severas com escassez de água.”
A medida tomada pelo Banco Central quanto à elevação mais agressiva dos juros é entendida por Camargo Barros com potencial limitado para conter o câmbio, sem impacto na oferta de energia e lento efeito sobre a inflação. “O efeito mais provável [do aumento dos juros] ainda em 2022 talvez seja o de contribuir para um crescimento [do Brasil] ainda menor. Em síntese, o Banco não tem como produzir juros baixos, que foram estratégicos para a economia brasileira em 2019 e 2020.”
O Poder Público também não deve contribuir para a melhora do cenário neste ano. “Da parte do governo, não há possiblidade à vista de que encontre espaço para uma política fiscal expansiva ou não contracionista enquanto as reformas fiscais e administrativas não se definem.”
Em relação ao ambiente internacional, o País deverá ter impacto no agronegócio com alta do preço e escassez de insumos; o jogo de braço entre EUA e o principal importador do Brasil, a China; e questões climáticas e ambientais que, na avaliação do estudioso, “podem assumir proporções mais preocupantes, com prevalência de medidas extramercado como estabelecimento de quotas e tarifas ou proibições”.
“A questão que fica é o grau em que a desvalorização do real compensará a provável queda das commodities em dólar. As projeções correntes sugerem que os preços internacionais internalizados sofrerão moderada queda no Brasil. Um cenário realista, entretanto, não levaria a projetar ameaças de quedas relevantes em relação ao patamar atual. O grau de desvalorização do real será dominante na formação dos preços do agronegócio”, diz o coordenador do Cepea sobre a macroeconomia no exterior.
DEMANDA DOMÉSTICA
A análise sobre o mercado interno é o de demanda relativamente fraca na linha do crescimento muito baixo esperado para 2022 no Brasil. O que poderá melhorar o cenário são os programas de transferência renda, beneficiando também o agronegócio. “Em 2020 foi espetacular o impacto social do auxílio emergencial de quase R$ 300 bilhões quando finalmente foi implementado, que terminou por afetar os mercados em geral e o de alimentos em especial.” O coordenador do Cepea diz que há uma estimativa de que 53% dos recursos transferidos foram gastos em alimentação, equivalendo a 20% do VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária) do ano.
“Ainda não está clara a potência [da transferência de renda] que virá desta vez. Mas, certamente, é necessário que os produtores e demais agentes das cadeias produtivas mantenham-se em alerta para um impacto muito expressivo quando o programa passar a ser implementado. Em 2020, o agronegócio chegou a ser apontado como insensível à crise social no contexto da pandemia devido à alta dos alimentos, que, na realidade se deveu ao comportamento do dólar e à forma imprevista – no tempo e no volume de recursos – com que o auxílio foi implementado, não permitindo às cadeias produtivas se planejarem para esse salto de demanda doméstica. Algo da mesma natureza pode suceder em 2022, já em seu princípio.”
Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br
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